O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a mostrar, na 68ª Cúpula de Presidentes do Mercosul, em Assunção, no Paraguai, o quanto seu governo se adapta à política da direita e do imperialismo. Em discurso realizado nesta terça-feira (30), Lula afirmou que o chamado crime organizado é “um dos maiores desafios” da América do Sul e defendeu cooperação policial, judicial e financeira entre os países da região.
O discurso poderia ter sido feito por qualquer representante do Departamento de Estado dos Estados Unidos. Lula, que começou sua trajetória política como dirigente sindical, aparece agora como garoto-propaganda da grande campanha internacional em torno do “combate ao crime organizado”, a mesma palavra de ordem utilizada pelo imperialismo para intervir nos países atrasados, perseguir governos nacionalistas e aumentar o controle policial sobre a população.
O governo brasileiro rejeita, formalmente, a proposta dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. No entanto, ao mesmo tempo, adota todo o vocabulário e toda a política que servem de base para essa operação. Lula não aceita a embalagem mais escandalosa da ofensiva imperialista, pois isso afeta o sistema bancário brasileiro, mas aceita o seu conteúdo: transformar a “segurança pública” em pretexto para ingerência imperialista.
Essa posição é uma capitulação. Não é uma política independente. É a tentativa de apresentar com aparência progressista uma orientação que interessa diretamente aos Estados Unidos.
Lula afirmou que “não há democracia forte ou desenvolvimento duradouro onde o crime organizado corrói a autoridade legítima do Estado”. Disse também que essas organizações “controlam territórios, intimidam comunidades, destroem o meio ambiente, alimentam a corrupção, desviam recursos públicos e expandem sua atuação para o mundo digital”. A conclusão apresentada pelo presidente é que os governos devem responder “na mesma escala”.
Esse é precisamente o caminho utilizado pelo imperialismo. Foi assim na Colômbia. Foi assim no México. Foi assim na América Central. É assim contra a Venezuela. Os Estados Unidos acusam o governo de Nicolás Maduro de ligação com o narcotráfico para justificar sanções, operações clandestinas, ameaças militares e a captura do presidente venezuelano. Contra Cuba, o imperialismo combina bloqueio econômico, pressão diplomática e acusações fabricadas para manter o cerco ao país.
O mesmo método pode ser usado no Brasil. Hoje, o alvo apresentado é o PCC ou o Comando Vermelho. Amanhã, qualquer organização popular pode ser acusada de ligação indireta com o crime organizado, de financiar atividades ilegais, de proteger criminosos ou de “ameaçar a autoridade do Estado”. É por esse caminho que se aumentam os poderes da polícia, do Judiciário e dos serviços de inteligência.
Na reunião do Mercosul, Lula anunciou que o Brasil atua em parceria com a Interpol em uma nova iniciativa para o enfrentamento do crime organizado na América do Sul. A sede será o Escritório Regional da Interpol em Buenos Aires, na Argentina. O Brasil vai custear por um ano a presença de delegados dos 12 países da região na capital argentina.
O presidente também citou o Centro de Cooperação da Polícia Internacional em Manaus, com policiais de todos os países amazônicos. A estrutura, segundo Lula, servirá para ampliar a troca de informações e a atuação conjunta em áreas de fronteira e na Amazônia.
O Brasil já possui uma polícia assassina, um Judiciário profundamente ligado aos interesses da burguesia e uma estrutura de inteligência usada historicamente contra trabalhadores, camponeses, estudantes, grevistas e militantes de esquerda. Dar mais poder a esse aparelho significa preparar uma repressão maior contra a população.
O problema não está apenas no que Lula disse. Está no que seu governo está fazendo. O Brasil passa a financiar e organizar mecanismos internacionais de polícia, inteligência e controle.
Lula chegou à Presidência apoiado por milhões de trabalhadores. Seu passado sindical é constantemente utilizado para apresentar seu governo como expressão dos interesses populares. No entanto, diante das pressões da burguesia e do imperialismo, o presidente age como administrador da política neoliberal. Lula não aparece no Mercosul defendendo os trabalhadores, os camponeses ou a juventude pobre. Aparece defendendo a polícia.
Essa política ameaça os direitos democráticos. Uma vez montado o aparato, ele não será usado apenas contra narcotraficantes. Será usado principalmente contra o povo. É preciso deveria romper com a política norte-americana e denunciar a tentativa de usar o combate ao crime organizado como pretexto para intervir na América Latina.




