Carla Dórea Bartz

Jornalista e pesquisadora, é doutora em Estudos Culturais pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), onde defendeu a tese “Ninfomaníaca, de Lars von Trier: narrar em tempos perversos”. Desde 2021, escreve uma coluna semanal no Diário da Causa Operária.

Coluna

Ludwig, de Visconti: a agonia da coroa sob o peso do capital 

O conflito entre a lógica feudal e a lógica do capital é tema do filme que tem como trunfo o foco narrativo

O cineasta italiano Luchino Visconti construiu uma das filmografias mais singulares da história do cinema ao transformar a decadência da aristocracia europeia em tema de vários de seus filmes, sobretudo na fase madura. 

Obras como O Leopardo (1963) e Os Deuses Malditos (1969) são exemplos desse movimento. Em determinado momento de sua trajetória, o cineasta afastou-se do neorrealismo italiano e da representação da classe trabalhadora, presentes em A Terra Treme (1948) e Rocco e seus Irmãos (1960), para concentrar seus esforços na análise da decadência da aristocracia nos séculos XIX e XX. 

Essa mudança mantém a perspectiva política e materialista da sua obra e oferece uma análise interessante sobre a transformação inevitável das classes dominantes diante dos movimentos da História.

A difícil adaptação ao avanço do capitalismo, as alianças com a burguesia, a perda progressiva de poder político, a vulgarização dos antigos códigos aristocráticos e a dissolução de um mundo baseado em privilégios aparecem constantemente nos enredos.

Para realizar essa operação, Visconti exercita como poucos a forma fílmica, especialmente o foco narrativo. Tal como nos grandes romances do século XX, seus filmes frequentemente revelam pontos de vista. A narrativa é mediada por personagens com interesses concretos, posições políticas definidas e visões parciais da realidade. 

Em Ludwig, a Paixão de um Rei (1973), por exemplo, ministros, médicos e burocratas são as pessoas que contam a trajetória do soberano. Em vez de oferecer uma verdade objetiva ou neutra sobre o personagem, a história obriga o espectador a questionar a partir da conjuntura histórica e das relações de poder.

A filmografia de Visconti compõe, assim, um retrato analítico da passagem de bastão da nobreza para a burguesia na Europa moderna. O colapso aristocrático é recheado de violência, rearranjos políticos, acomodações oportunistas e destruição subjetiva. 

Ao mesmo tempo, o cineasta aponta que a ascensão burguesa não produziu emancipação. O mundo capitalista, associado à racionalidade burocrática, à funcionalidade econômica, à mercantilização crescente da vida e à redução da experiência humana à lógica produtiva do Estado moderno, não é uma forma de libertação.

Talvez seja justamente por isso que seus filmes permaneçam tão atuais. O capitalismo em crise revela cada vez mais suas próprias contradições estruturais, dependendo de mecanismos violentos, propaganda e controle para preservar sua estabilidade. Essa condição é insustentável a longo prazo. Por isso, é possível prever que, no futuro, a burguesia será substituída. A classe trabalhadora inaugurará outro horizonte social e político. 

Esse prognóstico ainda parece distante. Mas os castelos, palácios e dinastias que Visconti filma também pareciam eternos. Sua obra nos lembra constantemente que nenhuma ordem histórica é permanente. Assisti-la é, portanto, um exercício de apreciação cinematográfica e uma forma de aprender a enxergar os movimentos da História em nosso tempo.

Contexto e enredo

O filme narra a trajetória de Ludwig II da Baviera (Helmut Berger), desde sua coroação aos 18 anos, em 1864, até sua morte, após um golpe de Estado, em 1886, em um período em que a aristocracia europeia enfrentava a consolidação do Estado burguês moderno.

Incapaz de conduzir seu governo com o mesmo poder de seus antepassados e de aceitar uma posição praticamente decorativa diante das condições materiais, ele busca refúgio nas óperas de Richard Wagner e na construção de castelos como Neuschwanstein. 

A Baviera, outrora um reino autônomo de cultura católica e agrícola, é incorporada à Prússia após a derrota na Guerra Austro-Prussiana de 1866. A subordinação total ao Império Alemão vem com a unificação em 1871, sob a égide do chanceler Otto von Bismarck.

Muito além de uma cinebiografia sobre um rei excêntrico, o filme utiliza a trajetória de Ludwig II para mostrar o choque entre duas formas históricas de organizar o mundo: a lógica da nobreza e a lógica funcional da burguesia.

Seu reinado também está inserido em uma Europa de intensos conflitos sociais. Foi justamente nesse período que Karl Marx, nascido na Prússia, escreveu O Capital e tantos outros textos importantes do materialismo histórico. A Comuna de Paris aconteceu em 1871.

Personagens principais

    • Ludwig II (Helmut Berger): representa uma classe social incapaz de adaptar sua subjetividade às exigências históricas da modernidade burguesa. Diferentemente de outros aristocratas europeus que conseguiram converter-se em burocratas, militares, financistas ou gestores do novo Estado nacional, Ludwig recusa a lógica funcional do capitalismo industrial. Sua rejeição à racionalidade administrativa e à disciplina estatal transforma-o em governante sem utilidade. Refugiando-se na música, na arquitetura e na fantasia medieval, Ludwig tenta preservar um mundo que já não existia mais como força política e social. 
    • Imperatriz Elisabeth “Sissi” (Romy Schneider): Elisabeth funciona como espelho e contraponto de Ludwig. Assim como ele, percebe a falência espiritual e simbólica da aristocracia europeia e a artificialidade crescente das monarquias. No entanto, ao contrário do rei da Baviera, Sissi consegue manter a aparência dentro da ordem política existente. Sua melancolia é disciplinada e socialmente administrável. Ludwig, por sua vez, externaliza o conflito até torná-lo incompatível com as necessidades do Estado.
    • Richard Wagner (Trevor Howard): Wagner representa a tentativa de reconstrução de uma Alemanha mítica, heroica, espiritualizada e medieval, oposta à Alemanha industrial, burocrática e militarizada que efetivamente surgia sob Bismarck. Sua arte funciona como refúgio para Ludwig, oferecendo uma visão grandiosa e transcendental da aristocracia germânica em um momento em que ela perdia seu poder político. No século XX, a arte de Wagner será instrumentalizada pelo Terceiro Reich como símbolo do nacionalismo supremacista e da idealização do passado germânico.
    • Narrador: conjunto de personagens formado por ministros, lacaios, psiquiatras e generais que contam a história de Ludwig para nós, em flashback e olhando para a câmera, ou seja, diretamente para quem assiste.

A Escalação dos Atores

A escalação de Helmut Berger e Romy Schneider merece um comentário. Visconti trabalha com o imaginário e a memória do espectador. Berger chega após Os Deuses Malditos, no qual interpreta Martin von Essenbeck, herdeiro aristocrático cujo arco narrativo vai de um adolescente rico e mimado a um oficial nazista perverso. O público reconhecia Berger como cruel. Em Ludwig, Visconti reutiliza sua figura em outra chave: a da ausência de poder.

Romy Schneider carrega um efeito mais poderoso. Para milhões de espectadores, ela era inseparável da imagem idealizada da jovem Sissi dos filmes austríacos dos anos 1950, símbolo romantizado do Império Austro-Húngaro e da nostalgia monárquica europeia do pós-guerra. Ao escalá-la como Elisabeth da Áustria, Visconti realiza também uma mudança de chave: quebra com a expectativa do conto de fadas. Sua Sissi surge consciente da falência daquele universo. A cena em que percorre os luxuosos e vazios palácios construídos por Ludwig, rindo do que vê, resume essa percepção. 

Foco narrativo e ponto de vista

A sofisticação política do enredo está na construção formal do foco narrativo. Visconti organiza o filme como uma espécie de inquérito conduzido pelos agentes estatais responsáveis pelo golpe de Estado contra o rei. Os burocratas e pseudocientistas constroem sua imagem a partir de uma visão de mundo liberal e capitalista. 

A narrativa, portanto, nunca é neutra: a verdade sobre Ludwig é mediada pelo olhar daqueles que, agora, não servem mais a um rei feudal, mas a um Estado cada vez mais subordinado às necessidades do capitalismo industrial emergente.

Essa escolha formal impede que Ludwig apareça plenamente ao espectador. Ele surge fragilizado, hesitante, instável, ou seja, enquadrado por discursos institucionais que procuram justificar sua remoção. Em um dado momento, uma junta médica o declara louco e incapaz de governar.

Essa “loucura” instrumentalizada deixa de ser científica e passa a ser política. Ludwig torna-se incompatível com as exigências da nova ordem porque rejeita precisamente aquilo que o mundo burguês demanda de um governante: funcionalidade administrativa, pragmatismo político e disciplina institucional.

Até mesmo sua recusa em casar e gerar herdeiros adquire significado político. A monarquia existe como mecanismo de reprodução da dinastia baseado na herança sobre grandes extensões de terra. O surgimento da propriedade privada da terra e dos meios de produção é incompatível com a esterilidade política de Ludwig. Daí a necessidade de uma nova forma de governança.

O financiamento de seus castelos e das óperas de Wagner torna-se, para os burocratas, evidência material de irresponsabilidade administrativa, argumento clássico utilizado para substituir governantes que não correspondem às necessidades da classe dominante. Em sua lógica, Ludwig apenas faz o que seus antepassados cansaram de fazer em outras épocas.

(Coincidentemente, neste momento em que escrevo esse texto, uma junta de 35 psiquiatras publicou uma declaração no jornal The New York Times na qual classifica Trump como insano; nenhum dos motivos oferecidos no diagnóstico cita a guerra contra o Irã, contra a Rússia ou o genocídio em Gaza).

Os castelos de Ludwig parecem monumentos feudais erguidos para louvar um passado que foi enterrado quando as cabeças dos reis da França foram cortadas décadas antes. Mas, ao contrário das guilhotinas da revolução popular, Ludwig é deposto pelo mesmo pensamento liberal que está aí até hoje.

O triunfo do capital e o resíduo simbólico

Luchino Visconti, ele próprio aristocrata e marxista, filma o fim de Ludwig sem nostalgia. O diretor compreende que o nascimento da Alemanha moderna, impulsionado pela industrialização, exigia a destruição de formas feudais de subjetividade. Como também exigiu a repressão brutal dos movimentos operários socialistas que lutavam naquele momento.

Visconti também mostra que essa vitória do capitalismo não é total. Ludwig perde, no entanto, continua sobrevivendo como idealização cultural. A Baviera permanece associada aos castelos, ao romantismo, à música de Wagner e ao imaginário aristocrático encarnado pelo rei.

O capitalismo reaproveitou seu legado como mercadoria cultural e fantasia nostálgica. O que antes era forma social transformou-se em consumo e espetáculo. Ludwig deixou de existir como força política para sobreviver como entretenimento pela própria sociedade que o tornou impossível.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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