O senador Jaques Wagner (PT-BA), que deixou a liderança do governo no Senado após ser alvo de operação da Polícia Federal, criticou a atuação da corporação e negou ter favorecido o Banco Master. Em entrevista à Folha de S.Paulo, concedida na quinta-feira (25), em Salvador, o ex-governador da Bahia afirmou que reclamou ao presidente Lula da divulgação de imagens do dinheiro apreendido em endereço ligado a ele em Brasília.
A operação foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo Wagner, a exposição das cédulas de dólares e euros sobre uma cama, ao lado de identificação da PF, contrariou a orientação de que a diligência fosse realizada de forma discreta, devido ao sigilo da investigação.
“Para que aquela patacoada de dinheiro em cima da cama com o escudo da PF? Esse processo era comum na Lava Jato. Se a Polícia Federal vai continuar nesse tipo de espetacularização, acho que o chefe da Polícia Federal tem que tomar conta”, declarou o senador.
Wagner disse que não pediu proteção a Lula, mas providências contra o que classificou como exposição indevida. O senador afirmou que a foto teve grande repercussão e funcionou como uma condenação antes do fim da apuração. Ele também disse que cabe ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, ao ministro da Justiça ou ao próprio ministro André Mendonça avaliar a conduta adotada na operação.
Wagner deixou a liderança do governo no Senado um dia antes da entrevista. Segundo ele, a decisão foi tomada após conversa com Lula. O senador afirmou que, inicialmente, não pretendia entregar o posto, para evitar que o afastamento fosse interpretado como admissão de culpa.
De acordo com Wagner, Lula se solidarizou com ele, mas ponderou que o senador precisaria se dedicar à defesa no caso. O petista disse que o presidente o conhece há 48 anos e avaliou que seria difícil conciliar a função de líder com a necessidade de responder às acusações.
Na entrevista, Wagner admitiu conhecer Augusto Lima, ex-sócio do Banco Master. Segundo o senador, a relação começou no processo de privatização da Cesta do Povo, na Bahia, em 2018. Ele afirmou que, naquele período, o Banco Master ainda não participava do negócio.
Cinicamente, Wagner declarou que desconhece governador ou prefeito que não se relacione com empresários. Segundo ele, sua relação com Lima não envolveu negócio particular, sociedade ou pagamento. O senador também disse que nunca atuou em favor do Banco Master.
A PF investiga a ligação de Wagner com o banco e aponta pagamentos feitos a uma empresa ligada à sua nora. O senador negou que a firma tenha sido criada para beneficiá-lo. “Não tem nenhuma relação comercial entre mim e Augusto Lima, muito menos com o Master”, afirmou.
Wagner reconheceu que os valores pagos pelo Banco Master à empresa da qual sua nora é sócia foram superiores aos R$3,5 milhões divulgados inicialmente. Segundo o senador, esse montante se refere a uma multa pelo rompimento de contrato, equivalente a um ano de acordo.
Ele afirmou que os pagamentos anteriores ocorreram mês a mês, com contrato e escrituração. Wagner disse que tomou conhecimento do valor total com surpresa, mas sustentou que se trata de dinheiro legal, ligado a serviço prestado pela empresa.
O senador declarou que somente os responsáveis pela firma podem explicar os detalhes do contrato. Ele voltou a negar que qualquer valor tenha sido repassado a ele.
A PF também apontou viagens e ingressos como possíveis benefícios recebidos por Wagner. O senador admitiu ter pego caronas em aviões de empresários, mas negou que Lima tenha mantido aeronave à sua disposição.
Segundo ele, as caronas ocorreram em deslocamentos como Brasília-Salvador ou Salvador-Brasília, quando algum conhecido já faria o trajeto. Wagner afirmou que a PF precisa demonstrar a existência de troca de favores, o que ele nega.
Sobre os ingressos para show de Taylor Swift nos Estados Unidos, Wagner disse que pediu ajuda a Lima para conseguir entradas para sua neta, que mora no país. O senador declarou que foram dois ingressos e classificou como improcedente a ideia de que isso tenha servido para comprar sua atuação política.
“Se ele me deu dois ingressos achando que por conta disso ia conseguir comigo alguma vantagem, se enganou do freguês”, disse.
Wagner também explicou a origem do dinheiro em moeda estrangeira encontrado pela PF. Segundo ele, parte dos valores veio de compras de dólar feitas no Banco do Brasil e parte de diárias recebidas em viagens oficiais pelo Senado e, anteriormente, pelo governo da Bahia.
O senador disse que costuma pedir as diárias em dólar e guardar os valores. Questionado sobre a diferença entre a soma das diárias e o montante apreendido, afirmou ter solicitado levantamento sobre compras de moeda feitas ao longo de vários anos.
Ele negou ter recebido dólares de terceiros.
O petista também comparou o caso à CPMI do INSS, afirmando que o governo investiga os fatos e, depois, setores da oposição tentam atribuir a responsabilidade ao PT.
Na entrevista, Wagner ainda citou o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad, que saiu em sua defesa publicamente. Segundo o senador, Haddad pode confirmar que ele não atuou em favor do Banco Master.




