Quase dois milhões de palestinos deverão enfrentar o inverno na Faixa de Gaza sem moradias adequadas, cercados pelos escombros das cidades destruídas pelo Exército de “Israel”. A Organização Internacional para as Migrações (OIM) informou, nesta sexta-feira (9), que os suprimentos disponíveis correspondem a apenas 17% das necessidades de proteção contra as chuvas e o frio.
A população deslocada está distribuída por milhares de acampamentos improvisados. Segundo os dados apresentados pela OIM, aproximadamente 1,77 milhão de pessoas vivem em 1.783 locais de abrigo, muitos deles instalados em terrenos expostos a enchentes e sem infraestrutura de saneamento.
Mais da metade das barracas utilizadas pelos palestinos precisa ser substituída. Os equipamentos foram produzidos para situações emergenciais e normalmente possuem vida útil de seis meses a um ano. Depois de sucessivos deslocamentos e longos períodos de utilização, muitas tendas já não oferecem proteção adequada.
A destruição das cidades palestinas impede que as famílias encontrem alternativas seguras. Em diversos bairros, as casas foram reduzidas a escombros. Nos poucos edifícios que ainda conservam parte de sua estrutura, há perigo de desabamento.
Uma inspeção realizada em agosto por uma organização parceira da OIM examinou aproximadamente 21 mil edifícios. Foram identificadas 2.638 construções que precisam ser demolidas ou removidas. Outras 980 deveriam ser desocupadas imediatamente por apresentarem riscos à segurança de seus moradores.
No mês passado, o desabamento de um prédio danificado pela guerra provocou dezenas de mortes na Cidade de Gaza. As chuvas podem aumentar o número desses acidentes, pois a água enfraquece estruturas já atingidas pelos bombardeios.
Os danos provocados por “Israel” não se limitam às moradias. A destruição das redes de drenagem tornou diversas áreas vulneráveis às enchentes. A OIM calcula que 56% dos locais onde estão instalados os deslocados apresentam risco médio ou elevado de inundação.
Uma chuva mais intensa pode destruir as barracas, arrastar os poucos pertences que restaram às famílias e obrigar milhares de pessoas a abandonar novamente seus abrigos.
O atendimento necessário ultrapassa amplamente a quantidade de materiais disponível. A organização estima que aproximadamente 300 mil famílias, correspondentes a 1,65 milhão de pessoas, precisam de equipamentos específicos para o inverno. Os estoques existentes, incluindo os materiais que aguardam autorização de entrada, são suficientes para somente 52 mil famílias.
Parte dos suprimentos sequer consegue chegar ao território palestino. A OIM denunciou que aproximadamente 8.600 conjuntos de materiais emergenciais permanecem armazenados fora de Gaza, embora já estejam preparados para distribuição. As autoridades israelenses impediram repetidamente a passagem desses equipamentos pelos pontos de entrada.
Essa é uma das principais características da política de cerco aplicada contra a população palestina. Depois de destruir moradias e instalações públicas, “Israel” mantém restrições à entrada dos materiais necessários para proteger os sobreviventes.
A diretora-geral da OIM, Amy Pope, cobrou a abertura dos pontos de entrada e o fornecimento contínuo de equipamentos. Segundo ela, famílias que sofreram sucessivas expulsões e perderam suas casas precisam ter condições de atravessar o inverno em segurança.
As organizações humanitárias necessitam de barracas, madeira, ferramentas, unidades provisórias de moradia, máquinas para retirar entulho e materiais de construção. Também faltam combustível e peças para colocar equipamentos em funcionamento.
Diante dos obstáculos impostos à entrada de mercadorias, as equipes de socorro procuram reaproveitar materiais encontrados entre as ruínas. Pedaços de madeira, chapas metálicas e outros objetos retirados de prédios destruídos são utilizados para reforçar tendas e levantar pequenas estruturas.
Esses recursos improvisados não conseguem compensar a destruição provocada pela guerra. Centenas de milhares de palestinos continuam vivendo sem proteção suficiente contra a chuva, enquanto o material destinado a socorrê-los permanece retido nas fronteiras.
A crise ocorre aproximadamente um ano depois do anúncio de um cessar-fogo. Mesmo com a redução das grandes operações militares, a população continua sofrendo as consequências dos bombardeios e das restrições impostas pelas forças de ocupação.
Os sobreviventes enfrentam não apenas a falta de moradia, mas também os danos às redes de água, eletricidade, transporte e saúde. Uma tempestade pode se transformar numa catástrofe quando praticamente toda a infraestrutura de uma região foi destruída.
A OIM exige a entrada imediata dos suprimentos e a autorização para realizar obras emergenciais de recuperação. Até agora, porém, milhares de equipamentos necessários à proteção das famílias palestinas continuam impedidos de chegar a Gaza.





