Nesta segunda-feira (5), a organização jornalistica Declassified UK publicou um artigo intitulado Como a Grã-Bretanha ajudou Trump a desestabilizar a Venezuela assinado, por John McEvoy. O artigo expõe o apoio da Grã-Bretanha à agressão dos EUA contra a Venezuela, enquanto demonstra a falsa neutralidade britânica que condena a ação de autodefesa da Rússia na Ucrânia.
Silêncio sobre o ataque a Caracas
Após o bombardeio a Caracas e o sequestro do Presidente Nicolás Maduro nas primeiras horas do sábado (3), foi escandaloso o silêncio do Reino sobre o ocorrido. Inicialmente havendo somente a manifestação do primeiro-ministro, Keir Starmer, à BBC: “Quero reunir todos os fatos concretos e, no momento, simplesmente não temos o quadro completo”.
Todavia, como indicado no artigo: “ele levou menos de 24 horas para classificar a invasão da Ucrânia por Vladimir Putin como uma ‘guerra de agressão’”.
Chama atenção a ausência de condenação da iniciativa belicosa de Trump, por Starmer, como sua insistência em afirmar “não houve envolvimento do Reino Unido nesta operação”. Essa insistência é devida à integração de militares da Marinha Real Britânica na frota norte-americana na Venezuela.
Um peso, duas medidas
Longe de leigo, Starmer, é um ex-advogado com atuação nos direitos humanos, não há como ventilar a hipótese de que ignore a ilegalidade flagrante da agressão norte-americana. Ainda assim, o primeiro-ministro britânico alegou não poder exercer juízo com as informações disponíveis.
Na Ucrânia, onde o conflito se arrastava, inclusive com a tentativa da Rússia em negociar para evitar um confronto, sua condenação da iniciativa de autodefesa russa foi imediata. Em relação à Venezuela, onde não havia um conflito direto, Starmer alegou que não tinha como se posicionar.
O texto demonstra que o direito internacional para o Starmer, e demais representantes do imperialismo, tem um caráter mais parcial que a máxima encontrada no maquiavelismo popular: “Aos amigos do Rei, exceções e favores. Aos desconhecidos e inimigos, nada além do que o rigor da lei”.
Interesse direto
McEvoy ainda apontou o interesse e ações diretas da Grã-Bretanha contra a Venezuela.
Recordando uma declaração do ex-ministro das Relações Exteriores, Alan Duncan em 2018: “A revitalização da indústria petrolífera [na Venezuela] será um elemento essencial em qualquer recuperação [econômica], e imagino que empresas britânicas como a Shell e a BP (British Petroleum) queiram fazer parte disso”. Além da política do ex-secretário de Relações Exteriores britânico, Jeremy Hunt, de “reconhecimento” de Juan Guaidó como presidente da Venezuela, há 7 anos.
Agente externo Guaidó
O caso Guaidó aparenta um enredo de uma revolução colorida com realismo fantástico. Não é que Guaidó não conseguiu se eleger, ele não chegou a se candidatar à presidência venezuelana.
Em 23 de janeiro de 2019, Guaidó se autoproclamou “presidente interino” da Venezuela, supostamente lastreado no Artigo 233 da Constituição venezuelana. Alegando haver um “vácuo absoluto de poder” deixado pelo abandono de Maduro do cargo.
Houve no mesmo período a adesão da representante de Guaidó em Londres, Vanessa Neumann, à reivindicação imperialista sobre o território venezuelano: “A principal questão identificada pelo Ministério das Relações Exteriores e da Commonwealth é que eles não nos apoiarão enquanto continuarmos com a linha oficial de que queremos retomar o rio Essequibo da Guiana”.
Mesmo com todas as justificativas, a parcialidade transparece, Starmer publicou em suas nas redes sociais que a Grã-Bretanha: “considerava Maduro um presidente ilegítimo e não derramamos lágrimas pelo fim do seu regime”.
Unidade imperialista
Um ponto importante denunciado na matéria é o esforço para unidade imperialista em seus crimes, mesmo com diferenças de abordagens:
“Os diários publicados de Duncan registram como, no dia seguinte, Hunt disse: ‘Precisamos usar a Venezuela como uma questão na qual possamos estar o mais alinhados possível com os EUA, porque [Hunt] está em desacordo em várias questões, como a Síria’.”
…
Aparentemente citando Hunt, Duncan acrescentou: ‘A Venezuela está no quintal deles, e provavelmente é a única aventura no exterior que eles poderiam empreender’.”
Nessa altura o artigo já desmontou o trabalho político e militar, dos governos britânicos e norte-americanos, mas essa unidade transpassa a questão econômica, como demonstrado na questão do congelamento das reservas de ouro venezuelanas.
O reconhecimento de Gauidó em detrimento de Maduro, como representante do Estado venezuelano, fui a desculpa utilizada para congelamento dos depósitos em ouro, uma evolução da iniciativa política para econômica, que posteriormente tornou-se militar.
A necessidade da justificava era oriunda do medo da instituição financeira de desmoraliza-se perante outros depositários, proporcionando uma onda de saques.
O texto reproduz uma conversa em 25 de janeiro de 2019, entre Duncan e o então governador do Banco da Inglaterra, Mark Carney.
“Digo a Carney que compreendo perfeitamente que, embora seja uma decisão do Banco, ele precise de alguma proteção política da nossa parte. Digo-lhe que lhe escreverei a carta mais contundente que conseguir obter através dos advogados do Ministério dos Negócios Estrangeiros, e que nela constarão as crescentes dúvidas sobre a legitimidade de Maduro e explicarei que muitos países já não o consideram o Presidente do país.”
Esse congelamento permaneceu limitando a ação internacional do Estado venezuelano, apesar do litígio em 2020 por parte de Maduro. Desconsiderando as repetidas condenações sobre o impacto negativo das sanções unilaterais à Venezuela, da relatora especial da ONU, Alena Douhan.
Em 2021, Douhan atestou a gravidade dos danos à população que as “repetidas recusas de bancos no Reino Unido em liberar ativos venezuelanos, mesmo para a compra de medicamentos, vacinas e kits de proteção” durante a pandemia de Covid-19.
Oposição financiada pelo imperialismo
Um dos pontos ressaltados no artigo é a criação pelo governo britânico do órgão secreto “Unidade de Reconstrução da Venezuela (VRU, do inglês Venezuela Reconstruction Unit)”. A unidade pertenceria ao Ministério das Relações Exteriores, sendo dirigida pelo diplomata John Saville, contendo outros três funcionários vinculados, entre estes um “consultor externo”.
A embaixada britânica em Caracas teria externado insatisfação com o artigo: “Artigos sobre nossos programas/operações aqui (particularmente os de McEvoy) são especialmente sensíveis”.
No momento, o Ministério das Relações Exteriores se recusa a divulgar quais organizações não governamentais financiou na Venezuela. Alegando que estas informações precisam permanecer confidenciais, considerando “que poderiam prejudicar as relações entre o Reino Unido e o outro Estado”.




