A declaração de Lula contra o uso da inteligência artificial nas eleições serviu de ponto de partida para uma nova ofensiva censória no interior da esquerda governista. Em artigo publicado no Brasil 247, Emir Sader levou a frase infeliz do presidente às últimas consequências: apresentou a IA como uma ameaça à “democracia”, tratou a mentira política como caso de polícia e defendeu a regulamentação da tecnologia como se o problema da manipulação eleitoral tivesse nascido dos computadores.
Lula afirmou, em Camaçari, na Bahia, que seria preciso restringir o uso de inteligência artificial nas eleições, dizendo que a manipulação de imagens e vozes pode favorecer “mentirosos”. A fala foi feita durante evento do Minha Casa, Minha Vida, em 14 de maio. Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por sua vez, já aprovou regras para as eleições de 2026 que tratam do uso de IA por partidos, candidatos e plataformas, incluindo exigência de aviso em conteúdos sintéticos e restrições específicas em torno do dia da votação.
O problema começa com Lula, que apresentou a inteligência artificial como se ela fosse uma fábrica automática de mentiras. Mas Sader consegue piorar a formulação. Logo no início de seu artigo, afirma: “as funções da Inteligência Artificial aumentam cada vez mais”. Em seguida, conclui que “o tema da sua regulamentação” teria se tornado “essencial”.
Essa passagem resume o erro de todo o texto. O avanço da inteligência artificial é tratado como ameaça, quando deveria ser compreendido como progresso técnico. Toda tecnologia amplia a capacidade humana de agir sobre o mundo. A imprensa, o rádio, a televisão, a Internet, os programas de edição, os celulares e agora a IA são instrumentos. O caráter progressista ou reacionário de seu uso não está na máquina, mas nas relações sociais em que ela é empregada.
Sader, no entanto, desloca o problema. Em vez de discutir quem controla os meios de comunicação, quem domina as plataformas, quem financia campanhas milionárias e quem tem o monopólio da informação, ele aponta o dedo para a ferramenta.
O centro do artigo é o caso da chamada “Dona Maria”. Sader escreve que houve uma “impressionante revelação da existência de um perfil na internet com o nome de Dona Maria”. Depois acrescenta que o perfil teria tido “mais de 100 milhões de acessos”. A partir daí, sem apresentar uma demonstração concreta no próprio texto, conclui que se trata de um dos “excessos descontrolados da Inteligência Artificial”.
Mas o que exatamente foi feito? O próprio Sader admite: “não se sabe exatamente o que foi difundido”. Essa frase desmonta o artigo inteiro. Se “não se sabe exatamente” o conteúdo divulgado, como transformar o caso em prova de que a IA ameaça a “democracia”? Como defender regulamentação, controle e punição com base em algo que o próprio autor reconhece não estar esclarecido?
Primeiro, Sader afirma não saber se foram divulgadas “críticas a posições reais da esquerda” ou “afirmações inventadas”. Depois, trata o episódio como crime político evidente. Ou seja: não se sabe o conteúdo, não se sabe a origem, não se sabe o método, mas já se sabe a conclusão — é preciso reprimir.
Esse é o método típico da censura. Parte-se de uma ameaça mal definida, cria-se um clima de pânico e, no fim, entrega-se ao Estado o poder de decidir o que pode circular.
Sader chega a escrever: “a primeira questão é: não será possível saber quem criou o perfil da Dona Maria?”. E responde: “sempre é possível descobrir”. Para ele, o mais importante não é o debate político e passa a ser a investigação. Depois vem a afirmação mais frágil do texto: “a segunda é que ninguém duvida de que foram bolsonaristas os responsáveis por isso”. Ninguém quem? Com base em quê? E o que são “os bolsonaristas”? São todos os eleitores de Jair Bolsonaro? São os empresários que financiaram sua campanha?
Em outro trecho, ele escreve que Lula estaria pensando na “utilização da Inteligência Artificial para forjar perfis com claros objetivos políticos”. A formulação é absurda. Toda campanha eleitoral trabalha com “objetivos políticos”. Um jornal tem objetivo político. Um partido tem objetivo político. Uma conta de rede social tem objetivo político. Um panfleto tem objetivo político. O que Sader chama de perigo é, na verdade, a própria natureza da disputa eleitoral.
Se um perfil critica Lula, Sader quer saber quem está por trás. Se alcança milhões, passa a ser ameaça. Se usa IA, vira caso de regulamentação. O raciocínio conduz diretamente à proibição da propaganda política que escape do controle dos grandes meios, do Judiciário e das plataformas.
O artigo insiste: “a campanha eleitoral será, certamente, um cenário propício para esse tipo de manipulação”. Mas desde quando campanha eleitoral não é cenário de manipulação? A televisão manipula. Os jornais manipulam. Os institutos de pesquisa manipulam. As campanhas milionárias manipulam. A diferença é que, quando a manipulação vem dos monopólios tradicionais, Sader chama de jornalismo; quando vem de uma conta nas redes, ele chama de ameaça à “democracia”.
Outro trecho deixa isso ainda mais claro: “a regulamentação da Inteligência Artificial é uma necessidade premente”. Não é. O que é uma necessidade premente é defender a liberdade de expressão contra o avanço do Judiciário, do TSE e das plataformas imperialistas. Regulamentar a IA em nome do combate à mentira significa criar mais um instrumento para perseguir opiniões políticas.
O Estado não pode ser árbitro da verdade política. Em uma eleição, uma acusação pode ser exagerada, injusta, parcial, falsa, verdadeira ou simplesmente polêmica. Quem decide isso deve ser o debate público, não um tribunal.
Quando Sader escreve que Lula considera “intolerável o uso desse tipo de recurso na campanha eleitoral”, ele revela o caráter atrasado da posição do presidente. Lula não está apenas criticando uma fraude específica. Está flertando com a proibição de uma tecnologia inteira no momento mais importante da luta política. É como se, em outra época, alguém quisesse proibir o rádio porque ele poderia espalhar boatos, ou a imprensa porque poderia publicar calúnias.
A inteligência artificial permite fazer vídeos, traduzir textos, melhorar som, produzir imagens, organizar dados, legendar materiais, resumir documentos, montar peças gráficas e ampliar a propaganda de quem não tem dinheiro. Para partidos pequenos, movimentos populares e militantes sem acesso à televisão, ela é uma arma extremamente democrática. Proibi-la favorece quem já tem jornais, emissoras, agências, marqueteiros e milhões.
Por isso, o artigo de Sader é tão grave. Ao dizer que os adversários da regulamentação seriam “exatamente os que se valem desses mecanismos imorais”, ele tenta transformar a defesa da liberdade em cumplicidade com o bolsonarismo. É uma chantagem política. Quem não aceita censura vira aliado da mentira.
No final, Sader escreve: “o grande adversário de Lula, assim, serão as fake news”. A frase é uma capitulação completa. O adversário de Lula não é a crise social, não é a direita organizada, não é o imperialismo, não é a burguesia, não é a política de conciliação que desarma os trabalhadores. O adversário seria uma abstração: “fake news”.
Com isso, a política desaparece. A luta de classes desaparece. Tudo vira um conflito moral entre “verdade” e “mentira”. E é aí que Sader chega à sua conclusão mais perigosa: “será a democracia contra o autoritarismo, a verdade contra a mentira”.
A frase é profundamente reacionária. Quem fala em nome da “verdade” contra a “mentira” geralmente está preparando a censura. Toda autoridade que quer calar alguém diz estar protegendo a sociedade de um perigo.
Contra a direita, a saída não está na censura. É a propaganda, a organização independente e a mobilização. A mentira se combate no debate público, não com tribunal.





