O Hamas afirmou, em meio às violações sistemáticas do cessar-fogo pelo Estado sionista, que mantém disposição para prosseguir com as negociações sobre a segunda fase da trégua na Faixa de Gaza. Ao mesmo tempo, as autoridades palestinas denunciam que “Israel” já rompeu o acordo 2.400 vezes desde sua entrada em vigor, em 11 de outubro de 2025, o que agravou ainda mais a situação humanitária no enclave sitiado.
Em comunicado divulgado após reuniões e consultas realizadas no Cairo com os mediadores e com organizações palestinas, o principal partido da Palestina informou que os debates trataram da conclusão das obrigações pendentes da primeira etapa do acordo e da preparação da fase seguinte das negociações. Segundo o Hamas, as propostas apresentadas foram examinadas com “alto grau de responsabilidade e positividade”, com o objetivo de alcançar um entendimento que atenda aos interesses do povo palestino. A organização informou ainda que apresentará sua resposta formal após concluir as consultas internas com sua direção e com as demais forças palestinas.
A posição do Hamas foi apresentada em um momento em que a ocupação sionista segue bloqueando pontos essenciais do acordo. Entre os principais impasses estão a não reabertura plena da passagem de Rafá e a manutenção de restrições à entrada de ajuda humanitária na Faixa de Gaza. Esses dois pontos são decisivos para aliviar a calamidade imposta à população, submetida à destruição de sua infraestrutura, à falta de alimentos, medicamentos e combustível e à limitação de deslocamento dos feridos e doentes que necessitam de tratamento fora do território.
Enquanto declara disposição para o diálogo, o Hamas responsabiliza a ocupação pelas sucessivas violações da trégua. Autoridades locais denunciaram a continuidade de ataques aéreos e de artilharia contra áreas onde se concentram civis deslocados, além de operações de demolição e destruição de edifícios na chamada “linha amarela”. Segundo o Gabinete de Imprensa do governo de Gaza, em nota de 14 de abril, as forças sionistas haviam cometido 2.400 violações do cessar-fogo em pouco mais de seis meses, com 754 palestinos assassinados e 2.100 feridos.
O detalhamento apresentado pelas autoridades de Gaza aponta 921 episódios de disparos, 1.109 bombardeios ou ações de ataque, 97 incursões de veículos militares em áreas residenciais e 273 demolições de casas e outros prédios. O mesmo comunicado classificou essas ações como violações “graves e sistemáticas” do cessar-fogo e do protocolo humanitário firmado junto com o acordo.
Dados mais recentes do Ministério da Saúde de Gaza indicaram aumento desse número. Segundo a pasta, ao menos 777 palestinos foram assassinados e 2.193 ficaram feridos em decorrência das violações cometidas desde o início da trégua, além da recuperação de 761 corpos no mesmo período. Em outro balanço geral sobre a guerra iniciada em 7 de outubro de 2023, as autoridades da Faixa de Gaza informaram que o número total de mortos chegou a 72.336, com 172.213 feridos, em meio a condições humanitárias e sanitárias definidas como catastróficas.
A continuidade dos ataques foi confirmada também durante a madrugada desta terça-feira (21). Segundo informações vindas de Gaza, três palestinos foram assassinados após um VANT israelense atacar uma instalação policial no bairro de al-Amal, a noroeste de Khan Iunis, no sul da Faixa. Em outra ação, uma mulher palestina foi assassinada quando forças navais sionistas abriram fogo contra tendas onde estavam abrigados civis deslocados na região de al-Salatin, a oeste de Beit Lahia, no norte do território. Também foram registrados disparos de veículos militares a leste de Khan Iunis.
Em meio a esse quadro, o Hamas também rejeitou uma proposta apoiada pelos Estados Unidos para o desarmamento da resistência. De acordo com fontes palestinas ouvidas pelo Middle East Eye, o plano foi apresentado neste mês, no Cairo, pelo enviado do chamado Gaza Board of Peace, Nickolay Mladenov, na presença de representantes norte-americanos. Segundo essas fontes, o partido palestino considera a proposta uma “armadilha” voltada a provocar guerra civil em Gaza e desestabilizar a sociedade palestina.
Uma fonte de Gaza afirmou ao jornal que o Hamas “rejeita completamente” a proposta e acrescentou que, nas Brigadas al-Qassam, o desarmamento é visto como “suicídio coletivo”. A avaliação é que entregar as armas deixaria o povo palestino à mercê da ocupação e de bandos armados apoiados por “Israel”. “Eles sabem que abrir mão das armas não é uma opção e isso não vai acontecer”, afirmou a fonte.
O plano também prevê a retirada de cerca de 20 mil funcionários civis da estrutura administrativa de Gaza, proposta considerada inviável pelo Hamas. Ainda segundo as fontes palestinas, a organização revolucionária insiste que qualquer debate sobre desarmamento só pode ocorrer depois da implementação integral da primeira fase do cessar-fogo, o que inclui a entrada efetiva da ajuda humanitária prometida. Na prática, porém, a ocupação permitiu apenas uma fração do que havia sido acertado.
As negociações das últimas semanas foram descritas como tensas. Mladenov, segundo as mesmas fontes, chegou a apresentar um ultimato de 48 horas, afirmando que os combates poderiam ser retomados caso o Hamas não respondesse à proposta. O Egito pressionou pela aceitação do plano, mas o partido palestino segue exigindo garantias firmes de que “Israel” cumprirá os compromissos assumidos antes de qualquer avanço para a segunda fase.
O dirigente do Hamas Bassem Naim rejeitou a proposta e denunciou Mladenov por atuar em consonância com os interesses de “Israel” e dos Estados Unidos. Também advertiu que vincular a reconstrução ao desarmamento contraria entendimentos firmados anteriormente. Ao mesmo tempo, o jornal Israel Hayom informou que o regime sionista prepara a retomada em larga escala do genocídio em Gaza caso a resistência não entregue suas armas, com a ameaça de “concluir a missão”.




