O número de brasileiros com contas vencidas chegou a 84,2 milhões em setembro, segundo levantamento da Serasa divulgado nesta segunda-feira, 2 de novembro. Em agosto, eram 83,9 milhões. As dívidas somam R$597,4 bilhões, ou R$7.093,83 por pessoa negativada. O valor médio equivale a cerca de 4,4 salários mínimos. Para quitar esse débito, o trabalhador pode ter de comprometer meses de salário.
Bancos e cartões respondem por 27,16% dos débitos em atraso; financeiras, por 20,66%. Quase metade das dívidas registradas está nessas duas categorias. Luz, água e gás representam mais 20,32%. O levantamento conta pagamentos atrasados, não todas as compras a prazo. São 300 mil negativados a mais em um mês e uma alta de 6% sobre setembro de 2025. Desde 2020, o número cresceu 34,17%.
Há poucas semanas, quando o governo Lula anunciou sua ofensiva contra as bets, o DCO mostrou que o endividamento em massa não começou com as apostas pela Internet. Em novembro de 2022, 78,9% das famílias brasileiras já possuíam alguma dívida. A operação nacional das casas de apostas sob as regras atuais começou em janeiro de 2025. A aposta pode até arruinar uma pessoa. Não explica, porém, por que milhões já dependiam de empréstimos antes de sua expansão. A campanha pela proibição oferece um culpado conveniente e poupa os bancos, que aparecem no topo das contas atrasadas.
O caminho até a inadimplência é conhecido por quem recebe pouco. Alimentos, gás, passagem e aluguel são pagos primeiro; para o que falta, usa-se o cartão. No mês seguinte chega a fatura junto com todas as despesas que não desapareceram. Atrasado o pagamento, o banco acrescenta juros; oferecida a renegociação, o trabalhador ganha prazo, mas pode continuar devendo mais do que recebeu emprestado. A dívida cresce justamente porque a renda já não bastava para as contas do mês.
Os governos que se sucederam desde Fernando Henrique Cardoso favoreceram os grandes credores (tubarões do capital financeiro) e entregaram empresas e serviços públicos ao capital privado. Os preços da luz e do transporte também dependem de contratos, impostos e custos. Mas as empresas que exploram esses serviços precisam dar lucro aos seus proprietários, e a população não pode deixar de usá-los, ficando refém do aumento do preço dos serviços que sempre ocorre quando se privatiza. Se a tarifa de energia ou a passagem sobe, a família precisa arranjar o dinheiro. Quando não consegue, o banco oferece crédito e cobra por ele. O capitalista que explora o serviço recebe; o banqueiro também. O trabalhador perde o dinheiro para esses parasitas e se afunda em dívidas e depois na pobreza.
A reforma trabalhista aprovada em 2017 ampliou o poder dos patrões para impor condições desfavoráveis; a reforma da Previdência de 2019 tornou mais distante a aposentadoria. A queda do desemprego é uma miragem, pois quase metade dos empregados está na informalidade e um percentual ainda encontra-se em subempregos que não deveriam fazer parte da conta mágica do governo. Fora que, nos cálculos do DIEESE, o salário mínimo deveria ser em torno de R$ 7.500,00 para que o trabalhador consiga sobreviver durante o mês, mas ele é quase cinco vezes menos que isso. Com o salário mínimo fixado em R$1.621, a dívida média registrada pela Serasa corresponde a vários meses de trabalho, durante os quais o devedor ainda precisa sustentar a casa.
À insuficiência do salário soma-se a política de juros do Banco Central. Desde a aprovação da autonomia em 2021, o Comitê de Política Monetária decide a taxa básica sem subordinação direta ao governo eleito. A Selic chegou a 15% ao ano durante o mandato de Lula e ficou nesse nível por meses. Caiu para 13,75% em setembro de 2026, taxa que continua elevadíssima. O juro cobrado do trabalhador no cartão ou no empréstimo pessoal é muito maior que a Selic. Ou seja, os banqueiros controlam o Banco Central autônomo do governo para que ele deixe os juros nas alturas, beneficiando esses mesmos bancos.
Lula protestou contra os juros e criticou a autonomia do Banco Central. Isso foi tudo encenação, porque ele não extinguiu essa autonomia. Também não enfrentou o domínio dos bancos privados sobre o crédito. Enquanto os trabalhadores recorrem ao cartão para fechar o mês, os detentores de títulos públicos recebem juros elevados e pressionam o governo para limitar gastos sociais e investimentos. A meta fiscal cobra contenção de despesas, mas não trata os rendimentos dos credores como uma conta a cortar. O banco lucra quando empresta à família e quando empresta ao Estado; para quem depende do salário e dos serviços públicos, chegam a cobrança e os cortes.
Renegociar dívidas pode dar algum fôlego a quem já teve o nome negativado. O desconto não altera a conta que virá no mês seguinte. O aluguel não cai porque o prazo da dívida foi estendido; o salário não aumenta porque o banco aceitou receber uma parcela atrasada por menos. O avanço de 83,9 milhões para 84,2 milhões de inadimplentes entre agosto e setembro mostra que, enquanto alguns poucos conseguem sair da lista, muitos outros entram nela. Tratar esse movimento como falha de educação financeira seria culpar cada devedor pela relação entre seu pagamento e o custo de viver.
A maioria dos negativados está em idade de trabalho: 35,7% têm entre 41 e 60 anos, e 33,2%, entre 26 e 40. Os maiores de 60 anos representam 20,1% do total. Mulheres são 50,5% dos inadimplentes. São pessoas que trabalham, sustentam filhos ou vivem da aposentadoria.
A única solução para essa calamidade que afeta as famílias trabalhadoras é acabar com a autonomia do Banco Central, reduzir imediatamente os juros e estatizar todo o sistema financeiro sob controle dos trabalhadores. Também é preciso anular as dívidas dos trabalhadores com os bancos, reverter as privatizações, revogar as reformas trabalhista e previdenciária e elevar os salários, começando pelo mínimo. São reivindicações que atingem a origem da dívida: a renda insuficiente e o poder dos banqueiros de cobrar pelo dinheiro necessário à sobrevivência. Proibir apostas não paga a conta de luz de ninguém, nem retira um centavo dos juros cobrados no cartão.





