O governo de transição do Sudão voltou oficialmente a operar em Cartum neste domingo (11), segundo anúncio do primeiro-ministro Kamil Idris, marcando a primeira ida formal da administração à capital desde o início do conflito armado, em 2023. Idris chegou de Porto Sudão, cidade do Mar Vermelho que vinha funcionando como sede temporária do Executivo, e falou a apoiadores reunidos no local.
“Hoje retornamos, e conosco retorna o governo da esperança à capital nacional”, declarou Idris. “Assumimos o compromisso de melhorar os serviços e elevar as condições de vida do nosso povo”, completou. Entre as promessas, o primeiro-ministro citou a reativação dos setores de saúde e educação, com reconstrução de hospitais e reabilitação de escolas, universidades e serviços de eletricidade, mencionando em especial a Universidade de Cartum.
Na área econômica, Idris afirmou que o orçamento estatal de 2026 foi apresentado “sem impor novos encargos” à população. De acordo com ele, o objetivo do governo é reduzir a inflação para 70%. Pelos números oficiais mais recentes, de novembro, a inflação estava em 74,2%. O primeiro-ministro também disse que o plano prevê elevar o crescimento do PIB a 10% e conter oscilações do câmbio no mercado paralelo, chamando 2026 de “o ano de uma paz corajosa e vitoriosa”.
O retorno a Cartum ocorre após o Exército sudanês declarar a retomada do Estado de Cartum em 20 de maio de 2025, depois de uma ofensiva iniciada em março do mesmo ano contra as Forças de Apoio Rápido (RSF, na sigla em inglês). Em 21 de março de 2025, tropas do Exército retomaram o Palácio Republicano, e, nos dias seguintes, ampliaram o controle sobre áreas centrais, anunciando em 28 de março que a capital estava em grande medida “livre” da presença das RSF, com a retomada do aeroporto e de outras posições. Em julho, o presidente do Conselho Soberano de Transição, Abdel Fattah al-Burhan, expediu decreto criando um comitê nacional para preparar o retorno urgente das instituições federais e dos moradores.
O Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) informou que ao menos 9,3 milhões de pessoas foram deslocadas internamente desde abril de 2023 e mais de 4,3 milhões fugiram para países vizinhos. Segundo o OCHA, cerca de 21 milhões enfrentam fome aguda. “Todos os dias, civis vêm pagando o preço de uma guerra que não escolheram”, afirmou o órgão em nota divulgada na sexta-feira anterior ao anúncio do retorno a Cartum.
Há registros de famílias voltando à capital, mas autoridades da ONU advertiram que a cidade ainda apresenta riscos, como a presença de artefatos explosivos não detonados. Em outras regiões, os combates continuam. O OCHA citou situação grave no Córdofão, com cercos que atingem Kadugli (capital do Córdofão do Sul) e Dilling, restringindo acesso a alimentos, saúde, fazendas e mercados. Em Darfur, persistem confrontos terrestres e ataques com drones, além de bombardeios de longo alcance que atingem infraestrutura civil. Crianças também foram citadas entre as vítimas: a ONU registrou mortes e ferimentos de menores, incluindo oito crianças mortas em ataque em Al Obeid, no Córdofão do Norte, no início da semana.




