Faltando dois dias para o segundo turno, Luiz Marques resolveu recorrer a William Shakespeare para defender a reeleição de Lula. No artigo Brasil – ser ou não ser, publicado nesta sexta-feira (23) por A Terra É Redonda, apresenta a eleição de domingo como a escolha entre a existência de uma nação soberana e sua transformação numa colônia. A derrota petista seria, praticamente, o fim do Brasil.
Nem Hamlet esconde o fato principal de que após quatro anos governando com Alckmin, fazendo concessões aos bancos e incorporando antigos adversários, o PT chegou ao segundo turno atrás de Flávio Bolsonaro. O professor transforma o resultado dessa política numa tragédia da qual a frente ampla não teria responsabilidade.
Marques pergunta como chegamos “até a beira desse abismo”. A resposta está nas concessões da esquerda à burguesia e no abandono das reivindicações dos trabalhadores.
O artigo responsabiliza a Rede Globo e a Operação Lava Jato pela ascensão da extrema direita. De fato a grande imprensa apoiou a ofensiva contra o PT, o golpe de 2016 e a perseguição judicial que levou Lula à prisão e impediu sua candidatura em 2018. Mas o que fez a própria direção petista depois dessa experiência?
O PT passou a apresentar setores do mesmo regime como salvadores da democracia. Alexandre de Moraes, nomeado ao STF por Michel Temer, votou contra o habeas corpus de Lula em 2018. Depois, tornou-se herói da esquerda que apoia a censura e os poderes excepcionais do Tribunal.
Um dos casos mais escabrosos, como publicamos (leia aqui), é o de Miguel Reale Júnior. Ex-ministro de Fernando Henrique Cardoso e coautor do pedido de impeachment de Dilma Rousseff, declarou voto em Lula e, em outubro, apareceu fazendo o sinal de apoio à candidatura petista. Segundo Reale, a escolha seria necessária para preservar a democracia. Ele não precisou se arrepender do impeachment. Bastou mudar de lado na disputa eleitoral para ser recebido na frente dos democratas.
Marques denuncia a reabilitação dos torturadores da ditadura, mas ignora a reabilitação dos responsáveis pela derrubada de Dilma. O PT escolheu Alckmin como vice e entregou ministérios à direita por decisão de sua direção.
Marques afirma que o capital financeiro e o agronegócio não aceitam o projeto de “reindustrialização sustentável” de Lula. Mas o que o governo fez para enfrentar esses interesses? Manteve a autonomia do Banco Central, administrou o País sob o arcabouço fiscal e deixou a política de juros restringir a atividade econômica, encarecer o crédito e transferir recursos ao capital financeiro.
Em junho, o BNDES anunciou R$ 140 bilhões em recursos seus e da Finep até o fim de 2026 para a Nova Indústria Brasil. Essas linhas de crédito, no entanto, não superarão por si mesmas a desindustrialização enquanto persistirem juros elevados e a entrega de infraestrutura a concessionários privados.
O governo não reestatizou a Eletrobrás, não revogou as reformas trabalhista e previdenciária e ampliou concessões de transportes. Juros elevados e promessa de reindustrialização convivem no mesmo governo.
Em vez de examinar a política econômica do governo, Marques dedica parágrafos às moedas retiradas por Michelle Bolsonaro do espelho d’água do Planalto, às joias sauditas e ao comportamento de Flávio nos debates. O adversário é chamado de “palhaço sem graça de um circo mambembe”. É o rebaixamento da política a uma coleção de ofensas pessoais.
Nada disso interessa ao trabalhador. A discussão sobre juros, privatizações e direitos trabalhistas cede lugar aos escândalos morais destinados à classe média.
A capitulação avança também nas propostas. Em 15 de outubro, Lula se declarou favorável à redução da maioridade penal, acompanhando uma reivindicação tradicional da direita. Em lugar de combater o endurecimento repressivo contra a juventude pobre, a candidatura decidiu disputar eleitores bolsonaristas com uma versão própria da proposta.
As concessões à direita são chamadas de estratégia eleitoral; o descontentamento dos trabalhadores, de ameaça de vitória do fascismo.
O professor recorda as mobilizações da juventude, fala em Prometeu levando o fogo à civilização e cita Hegel. Mas a frase mais extraordinária aparece no fim: “O programa dos progressistas, sintetizado no binômio Lula-Geraldo Alckmin”, seria fundado na liberdade, na igualdade e na solidariedade. Em seguida promete o “reencantamento utópico das relações sociais”.
Alckmin governou São Paulo pelo PSDB, partido das privatizações e da repressão policial. Foi colocado na chapa como garantia de que Lula não enfrentaria o regime. Agora, a aliança com esse dirigente da direita, inacreditavelmente, tornou-se um ideal progressista.
Há poucos meses, em junho, durante a reunião do G7 na França, Lula foi ouvido dizendo “Eu nunca fui esquerdista”. O que revela a facilidade com que o dirigente petista se distancia dessa identificação diante de representantes das grandes potências e do Fundo Monetário Internacional. Seus admiradores, contudo, continuam atribuindo ao governo um projeto socialista que nem seu chefe reivindicou naquela ocasião.
A frente ampla, anunciada como exceção para derrotar Bolsonaro em 2022, virou política permanente. Fortaleceu os partidos burgueses dentro do governo e chegou às eleições enfrentando uma direita poderosa.
Para Marques, a escolha de domingo é entre o ser e o não ser. Para os trabalhadores, os problemas continuarão na segunda-feira com bancos cobrando juros extorsivos, empresas explorando empregados, serviços públicos insuficientes e uma polícia que mata pobres.
Shakespeare não escreveu uma peça capaz de converter Geraldo Alckmin em representante da emancipação social. Essa façanha ficou para os defensores da frente ampla.





