A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no domingo não resolveu a crise política brasileira. O presidente derrotou Flávio Bolsonaro por 51,79% a 48,21% dos votos válidos. Mas, enquanto reelegia Lula, o eleitorado entregou à direita uma posição ainda mais forte no Congresso e nos governos estaduais. O quarto mandato do petista começa sob o signo da crise.
O resultado presidencial está longe de representar uma derrota do bolsonarismo. Flávio recebeu quase 60 milhões de votos. Seu partido, o PL, elegeu 121 deputados federais e terá 28 senadores, as maiores bancadas das duas Casas. O PT terá apenas 70 deputados e nove senadores. Lula enfrentará um Congresso ainda mais hostil.
Nos estados, o quadro não é diferente. Dos 27 governadores eleitos, 16 apoiaram Flávio, sete apoiaram Lula e quatro ficaram neutros. Os aliados do candidato derrotado venceram em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, além de todos os estados do Sul e do Centro-Oeste. O PL elegeu seis governadores; o PT, quatro. A direita saiu derrotada na Presidência, mas fortalecida nas demais disputas.
Os números desmentem a tese de que uma frente ampla seria suficiente para derrotar politicamente a direita. A coligação reelegeu o presidente, mas não desarticulou o bloco de seus adversários. Deixou intacta sua capacidade de preparar novas ofensivas.
A própria composição da frente ampla é outra fonte de crise. Lula está amarrado a uma aliança que reúne partidos de esquerda e figuras tradicionais da direita. Seu vice é Geraldo Alckmin, antigo dirigente do PSDB. Para garantir maioria parlamentar, dependerá de partidos que defendem privatizações, cortes de gastos e medidas contrárias aos interesses dos trabalhadores.
Cada votação relevante poderá virar uma operação de chantagem. Cargos, emendas e verbas serão usados pelos partidos do centrão para arrancar concessões. Quanto mais Lula depender desses acordos, menos condições terá de atender às reivindicações populares.
O capital financeiro continuará exigindo contenção dos gastos sociais, pagamento da dívida pública e novas privatizações. Os trabalhadores continuarão enfrentando baixos salários, serviços públicos deteriorados e as consequências das reformas trabalhista e previdenciária. Os interesses desses dois campos são incompatíveis, por mais que os dirigentes petistas tentem conciliá-los.
A campanha eleitoral procurou encobrir esse conflito com discursos sobre a defesa da “democracia”. Mas a vitória eleitoral não acaba com a influência dos bancos, dos grandes empresários e dos partidos que os representam. Tampouco elimina a direita, que conserva bancadas, governadores e vastos recursos para fazer oposição.
Se Lula ceder às exigências da direita, provocará novas frustrações entre os que votaram nele esperando melhorias nas condições de vida. Se tentar atender às reivindicações dos trabalhadores, encontrará resistência dos capitalistas e do Congresso. Se optar por administrar tudo com acordos de cúpula, apenas adiará as crises, tornando o governo cada vez mais dependente daqueles que dizem combatê-lo.
O governo que saiu das urnas está preso a uma coalizão contraditória, diante de um Congresso dominado pela direita e cercado por governadores adversários. As eleições terminaram. A crise política, não. Tudo indica que ela entrará em uma nova fase.





