Ex-ministros de Fernando Henrique Cardoso, antigos dirigentes tucanos e a filha do ex-presidente, Beatriz Cardoso, assinaram uma carta de apoio à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), anunciada neste sábado (17), no centro de São Paulo. O documento reúne 15 signatários, entre eles Miguel Reale Júnior, um dos autores do pedido de impeachment utilizado para derrubar Dilma Rousseff em 2016.
Também assinam os ex-ministros José Carlos Dias, Claudia Costin e José Carlos Carvalho, o ex-senador Aloysio Nunes, o diplomata Rubens Ricupero, o economista Eduardo Giannetti, o ambientalista Fábio Feldmann e o advogado Oscar Vilhena Vieira, colunista da Folha de S.Paulo. O encontro contou com a presença do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), de Fernando Haddad (PT), Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede).
A carta apresenta a eleição como uma escolha que “ultrapassa diferenças partidárias e preferências ideológicas”. Seus autores afirmam que Lula oferece melhores condições para assegurar o “equilíbrio institucional” e preservar direitos e liberdades. Ao mesmo tempo, apontam a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) como uma ameaça a esses princípios.
Marina classificou os signatários como “pessoas do campo democrático, mas não necessariamente dos partidos de esquerda”. Alckmin destacou a presença de Beatriz Cardoso e o apoio de Mário Covas Neto, filho do ex-governador Mário Covas, anunciado no dia anterior. Na capital paulista, Lula recebeu 46,58% dos votos no primeiro turno, contra 42,13% de Flávio.
A reunião mostra o conteúdo da aliança apresentada pela campanha petista como uma união de toda a população em defesa da democracia. Uma ala da burguesia, representada por antigos integrantes do governo FHC e dirigentes tucanos, apoia Lula contra o setor que se agrupou em torno de Flávio Bolsonaro. A candidatura petista serve, assim, à disputa entre esses setores pelo controle do governo.
O apoio dos trabalhadores a Lula é utilizado para sustentar esse acordo. Os antigos tucanos entram na campanha para influenciar o próximo governo e defender seus interesses, aproveitando a base popular que o PT ainda conserva. Apresentar sua adesão como uma vitória da esquerda significa pedir aos trabalhadores que comemorem o fortalecimento da burguesia dentro da própria coligação.
A presença de Miguel Reale Júnior expõe até onde chegou a capitulação petista. Um dos responsáveis pelo pedido que preparou o golpe de Estado contra Dilma é recebido na campanha pela reeleição de Lula como defensor da democracia. O PT oferece reconhecimento político a quem ajudou a derrubar seu governo.
O ingresso de Reale Júnior nesse grupo não chega a surpreender. Alckmin, antigo inimigo dos trabalhadores e principal nome do PSDB paulista durante anos, ocupa a Vice-Presidência. Tebet, que votou pela deposição de Dilma no Senado, também foi incorporada ao governo e à campanha. O apoio eleitoral a Lula tornou-se suficiente para que a direção petista acolha os participantes do golpe de 2016.
Esse acordo demonstra a falência política da direção do PT. O partido procura nos antigos inimigos uma garantia para sua permanência no governo e apresenta a adesão dessas figuras como uma conquista dos trabalhadores. Em vez de organizar sua base para enfrentar a direita, pede votos para uma coligação que concede cada vez mais espaço a representantes dela.
A alegação de que todos estão unidos pela “democracia” encobre a política desses aliados. A participação no golpe contra Dilma não impede que sejam elogiados pelos dirigentes petistas. Tampouco precisam abandonar as posições que defenderam contra os trabalhadores: basta declarar oposição a Flávio Bolsonaro.
A aproximação também atende à necessidade de sobrevivência dos antigos representantes do PSDB. O partido que comandou o governo federal e governou São Paulo durante décadas perdeu sua força eleitoral. A ala da burguesia que se apoiava nos tucanos já não consegue disputar a Presidência com uma candidatura própria de peso e procura outros meios para continuar no poder.
A decadência da sigla não levou seus dirigentes a abandonar a política. Alckmin encontrou lugar na chapa de Lula; outros passaram a apoiar o petista. A campanha oferece a essas figuras a possibilidade de recuperar influência por meio de um partido que conserva ligações com sindicatos, organizações populares e milhões de trabalhadores.
A falência eleitoral do PSDB passa, dessa maneira, a ser compensada pela disposição do PT de incorporar seus antigos quadros. Políticos que perderam a capacidade de conquistar votos com sua própria legenda podem continuar participando do governo graças ao apoio que a direção petista lhes oferece.
O PT virou uma clínica de reabilitação de golpistas e tucanos falidos. Além de lhes dar uma oportunidade de sobrevivência, coloca sua base eleitoral a serviço da recuperação política dessa direita. Com Alckmin na Vice-Presidência e Reale Júnior entre os apoiadores, a direção petista aprofunda a transformação do partido no novo PSDB.





