Uma fonte aparentemente inesgotável de provas da importância de Neymar no futebol é justamente sua onipresença como assunto para seus detratores na imprensa esportiva. Qualquer coisa que aconteça, mesmo que não guarde qualquer relação com o craque, vira uma manchete com seu nome.
Na última quarta-feira, a identitária Milly Lacombe foi exaltar a despedida do egípcio Mohamed Salah do clube inglês Liverpool e lançou a seguinte manchete em sua coluna no UOL: “Mohamed Salah, Neymar e o efeito da idolatria na luta contra o ódio”. Neymar e Salah nunca jogaram juntos; se enfrentaram em campo apenas duas vezes: um empate entre Barcelona e Roma e uma vitória brasileira sobre o Egito nas Olimpíadas de 2012, em Londres, com cada um marcando um gol.
Fosse uma jornalista esportiva preocupada com o futebol, precisaria de grande habilidade para comparar jogadores de estilos tão diferentes. Mas o assunto preferido de Lacombe são as questões morais, que ela consegue direcionar sempre contra jogadores brasileiros. Não houvesse essa imensa disposição em acusar os brasileiros, seu texto de exaltação a Salah poderia se resumir na tese apresentada de que o jogador muçulmano seria responsável por queda significativa nos chamados “crimes de ódio” na região de Liverpool. Citando estudo feito por universidade norte-americana em 2019, Lacombe apresenta a tese de que sua chegada à cidade, dois anos antes, e seu comportamento positivo teriam esse impacto no comportamento dos ingleses:
“As hipóteses falam a respeito da idolatria acompanhada de comportamento sensível fora de campo. Salah fala abertamente sobre sua religião, é ligado a causas humanitárias e quebra barreiras na percepção negativa e discriminatória que a fabricação de consensos instaura sobre formas de vida alternativas àquela central e considerada ‘europeia’” (Mohamed Salah, Neymar e o efeito da idolatria na luta contra o ódio, UOL, Milly Lacombe, 27/05/2026).
Uma tese, no mínimo, ousada. E muito repercutida na época aqui no Brasil. Independentemente das possíveis qualidades pessoais do egípcio, é bastante óbvio para quem acompanha futebol que a simpatia geral de uma torcida com determinados jogadores depende muito do seu desempenho dentro de campo. Não por acaso, no momento do estudo, Salah vivia sua fase mais goleadora no Liverpool. No site Vox, em 2018, uma matéria abordou o assunto, mas trazendo ao menos alguns contrapontos à tese de que a popularidade do jogador guardava relação com uma redução real do preconceito contra muçulmanos:
“A islamofobia, portanto, não termina com a valorização de muçulmanos excepcionais — que são, por definição, exceções — mas sim com a aceitação dos muçulmanos comuns. Resta saber se existe um caminho para esta última passando pela primeira” (A enorme popularidade do astro do futebol Mo Salah está mudando a percepção dos muçulmanos no Reino Unido, Vox, Andi Thomas, 19/06/2018).
Mas voltemos ao caminho da argumentação de Lacombe: o foco na falta de caráter dos brasileiros. Apesar de figurar na manchete, Neymar só é citado no final do texto, ao lado de Éder Militão — criticado em outras matérias por polêmicas em relação ao pagamento de pensão à mãe da filha do jogador —, Robinho — desde que foi acusado de estupro na Itália — e Messi, criticado após troca de afagos com Donald Trump na Casa Branca. No caso de Robinho, o veneno sobrou até para seu filho, Robinho Júnior.
Em julho de 2025, quando o jovem jogador de 17 anos de idade iniciava sua trajetória no time principal do Santos, Lacombe soltou a manchete “Vai ser impossível escutar as narrações os jogos do Santos”, procurando “cancelar” o jogador apenas por ser filho e carregar o mesmo nome de Robinho. Para a colunista do UOL, não se importar com a vida privada dos atletas é uma postura que cria uma sociedade “violenta, individualizada e dessensibilizada”:
“O estudo mostrou também que aquilo que o ídolo faz fora de campo tem impacto direto na vida comunitária. Aos que dizem não se importar com o que Neymar, Militão, Robinho, Messi e muitos outros atores ligados ao esporte fazem quando não estão trabalhando, eis aí um recado e um exemplo. Esse tipo de posicionamento na vida, esse que se isenta de responsabilidades, constrói uma sociedade violenta, individualizada e dessensibilizada” (Mohamed Salah, Neymar e o efeito da idolatria na luta contra o ódio, UOL, Milly Lacombe, 27/05/2026).
Para além de reforçar o quanto é estranho procurar ranquear a qualidade dos jogadores por suas posições políticas ou comportamentos na vida privada, cabe expor, mais uma vez, como esse tipo de abordagem identitária é sempre seletiva. Cabe citar dois episódios envolvendo Salah que nada têm de relevante no julgamento moral do jogador como pessoa, mas que, se fossem com Neymar, serviriam de argumento para demonstrar que o brasileiro é moralmente execrável. Em 2019, o meia Amr Warda foi acusado de assédio sexual e afastado da seleção egípcia, que disputava a Copa Africana de Nações. Salah liderou o grupo de jogadores que se mobilizou pelo retorno do meia à seleção, o que ocorreu dois dias depois do afastamento.
Mais recentemente, em má fase no Liverpool, fez declarações à imprensa criticando a escolha do treinador Arne Slot de colocá-lo no banco: “Agora estou no banco e não sei por quê. Parece que o clube me abandonou à própria sorte, é assim que me sinto”. Em ambos os casos, situações comuns: diante de uma acusação, ainda em investigação, de um companheiro, demonstrar apoio — afinal, a presunção de inocência é (ou era) um valor social importante — e, recentemente, expressar seu descontentamento com a perda da titularidade; situações corriqueiras no mundo do futebol, que jornalistas como Lacombe selecionam para atacar seus alvos.





