São Paulo

Família palestina é detida por uma semana em Aeroporto de Guarulhos

Enquanto isso, governo realiza evento junto ao lobby sionista para promover o "combate ao antissemitismo"

Nesta semana, o portal Monitor do Oriente denunciou mais um caso de uma família palestina detida no Aeroporto Internacional de Guarulhos, na Grande São Paulo.

Hani Alghoul, Etimad Alghoul e o filho do casal, Kenan, de um ano, desembarcaram no País no dia 16 de abril, com visto de turismo válido, mas tiveram a entrada barrada pelas autoridades migratórias. A família deixou Gaza em meio ao genocídio praticado pelo Estado de “Israel” e viajou ao Brasil a partir da cidade de Cairo, no Egito, rota frequentemente utilizada por palestinos que conseguem sair da região.

Mesmo assim, a família palestina foi impedida de ingressar no País, sendo obrigada a permanecer por dias no aeroporto, sem definição clara sobre o desfecho do caso. Em 17 de abril, um pedido formal de refúgio foi apresentado ao Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), órgão vinculado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública. Até a quarta-feira (22), não havia manifestação conclusiva das autoridades sobre a situação da família, nem um posicionamento oficial da Polícia Federal a respeito dos fundamentos concretos que levaram ao impedimento da entrada.

A defesa destacou ainda que Hani possuía visto de turismo emitido por representação diplomática brasileira no Egito, com validade até dezembro de 2026. Também informou ter solicitado à Delegacia de Polícia Federal no Aeroporto de Guarulhos esclarecimentos formais sobre as razões da retenção, justamente porque a documentação apresentada pela família indicava condição regular de entrada no País.

Amigos e integrantes da comunidade palestina haviam preparado uma casa para receber a família, com móveis, mantimentos e estrutura mínima de acolhimento. Uma declaração de acolhimento assinada por Nahla Elrifai foi anexada ao processo judicial. Apesar de não falarem português, Hani e Etimad contavam com pessoas dispostas a acompanhá-los desde a chegada ao Brasil.

A retenção da família Alghoul se soma a outras denúncias recentes de dificuldades impostas a palestinos em aeroportos brasileiros, especialmente em Guarulhos. Há, no Brasil, um padrão de tratamento marcado por demora, arbitrariedade e falta de sensibilidade diante da condição humanitária dessas famílias.

A gravidade do caso foi ampliada pelas circunstâncias pessoais da família. Etimad, além de estar grávida, enfrenta anemia severa. Kenan, ainda bebê, também necessita de cuidados. Em vez de um acolhimento imediato, a família foi mantida por dias em uma área restrita do aeroporto, mesmo tendo saído de uma região devastada pela guerra e mesmo havendo pedido de refúgio em tramitação.

A situação dos palestinos detidos no Brasil já havia sido levantada, inclusive, em uma sessão pública organizada há cerca de duas semanas pelo deputado federal João Daniel, na Câmara dos Deputados. Parte dos representantes dos órgãos públicos convocados sequer compareceu. Os que se fizeram presentes, no entanto, não prestaram qualquer esclarecimento satisfatório.

Com tom de ironia e indignação, Victor Assis, apresentador do programa Plantão Irã, da Causa Operária TV, comentou o caso:

“Eu imagino que esse pessoal da Polícia Federal, do Ministério da Justiça, do Ministério de Relações Exteriores, eles têm muito o que fazer, eles têm muito trabalho, então é difícil chegar para ouvir um depoimento na Câmara dos Deputados, é difícil assinar um papel para liberar uma família de refugiados. Agora, o que me surpreende é que um povo tão ocupado consegue encontrar tempo, por exemplo, para organizar um seminário com a Conib [Confederação Israelita do Brasil], com o pessoal do lobby sionista no Brasil, que aconteceu no dia 16, para defender que se você criticar o Estado de ‘Israel’ no Brasil, você vai para cadeia. Para organizar seminário pro-‘Israel’ do lobby sionista, aí você consegue encontrar um Estado mobilizado, preparado, com funcionários, com estrutura.”

O caso da família Alghoul demonstra que o problema não decorre de dificuldade técnica ou administrativa, mas de ausência de vontade política para garantir acolhimento digno a pessoas que fogem da guerra. Diante de uma família composta por uma mulher grávida, uma criança doente e um homem que deixou Gaza em meio ao conflito, o mínimo esperado de um governo de esquerda seria permitir a entrada imediata e assegurar proteção humanitária.

Victor Assis reforçou este ponto ao analisar a vulnerabilidade dos refugiados:

“O pessoal saiu de uma zona de guerra, esse pessoal está muito mais vulnerável do que o povo brasileiro, então deveria ter um tratamento superior, de respeito, acolhimento, cuidado. Imagine a quantidade de trauma, de perturbação que a pessoa tem, de ter saído da guerra, do esforço que é sair da guerra, porque não é assim, ‘ah, eu estou aqui numa guerra, eu quero ir embora’. Não é assim. Você tem que fugir, porque ‘Israel’ não permite que os palestinos saiam de lá. Aí você leva adiante toda uma peregrinação… Chega aqui, o mínimo do mínimo de um governo solidário era abrir as portas, tratar da melhor maneira possível. Mas não, você tem um maltrato, um descaso absoluto… Resolver isso aqui não dá trabalho nenhum. É um problema exclusivamente de vontade política.”

O tratamento dispensado à família de Hani e Etimad contrasta com o discurso do governo brasileiro de denúncia dos crimes do sionismo e revela, na prática, um comportamento marcado por barreiras burocráticas e pela marginalização de refugiados que tentam escapar de um processo de limpeza étnica. Victor Assis aponta ainda uma contradição na atuação das forças de segurança:

“E o que prova que é um problema de vontade política, é que essa mesma Polícia Federal, que está infiltrada por esses agentes do Mossad, por esse pessoal aí que vem de fora para colocar as instituições brasileiras a serviço do estado de Israel, essa Polícia Federal, quando apareceu aqui um soldado israelense, criminoso de guerra, responsável por assassinatos de crianças na faixa de Gaza, quando veio o soldado aí para passar férias na Bahia e apareceu uma denúncia contra ele, a Polícia Federal ajudou o cara a fugir. Isso aqui é um negócio vergonhoso, isso aqui mostra como o Estado brasileiro inteiro está a serviço de países estrangeiros dos Estados Unidos, de Israel, e pior, de países estrangeiros que são países opressores.”

De acordo com matéria publicada pelo jornal Metrópoles, a família obteve um habeas corpus na noite da quarta-feira (22), quase uma semana após a chegada dos palestinos ao Brasil.

A liberação foi obtida por meio de um habeas corpus com pedido de liminar apresentado à 6ª Vara Federal de Guarulhos pelo advogado Willian Fernandes. Na petição, a defesa sustentou que a retenção da família configurava “constrangimento ilegal à liberdade de locomoção, agravado por circunstâncias pessoais de elevada vulnerabilidade”. Segundo o documento, não havia possibilidade de retorno seguro à região de origem e tampouco existia país terceiro disposto a acolher a família, o que agravava o risco humanitário e evidenciava a ilegalidade da manutenção do casal e da criança na zona de trânsito do aeroporto.

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