Larissa Amorim morreu aos 29 anos depois de esperar 59 dias por um medicamento que nunca chegou. Mãe de Benjamim, de oito anos, e Sophia, de sete, ela tinha uma decisão judicial que obrigava a União a fornecer imediatamente o tratamento indicado pelos médicos. O Ministério da Saúde não cumpriu a ordem.
A jovem enfrentava a leucemia desde os seis anos. Diagnosticada inicialmente com leucemia mieloide crônica, conseguiu controlar a doença durante mais de duas décadas. Em julho de 2025, porém, o câncer evoluiu para uma crise blástica linfoide B. Para chegar ao transplante de medula óssea, Larissa precisava primeiro eliminar as células doentes.
Dois protocolos de quimioterapia não conseguiram conter o avanço da doença. Os médicos, então, indicaram o blinatumomabe, uma imunoterapia, e o ponatinibe. Como os remédios não estavam disponíveis na rede pública, a família recorreu à Justiça.
O primeiro pedido foi negado. Em 13 de março, a desembargadora Monica Nobre, do Tribunal Regional Federal da 3ª Região, concedeu a liminar e determinou o fornecimento imediato. Larissa recebeu a notícia com esperança. Segundo o marido, Murillo Barbosa, ela telefonou chorando de emoção.
A União, porém, deixou o tempo passar. Enquanto o remédio não chegava, os médicos repetiram a quimioterapia para evitar que Larissa ficasse sem tratamento. Já muito debilitada, ela contraiu uma infecção e morreu em 14 de maio.
“Para quem tem câncer, o tempo faz parte do tratamento. Não pode esperar”, declarou Murillo ao portal Metrópoles.
O Ministério da Saúde alegou que adotou “todas as providências necessárias” e que, diante da indisponibilidade imediata do medicamento, pediu autorização judicial para fazer um depósito em juízo. A pasta também afirmou que o blinatumomabe foi incorporado ao SUS apenas para indicações específicas de leucemia linfoblástica aguda e que isso não abrangia o caso de Larissa.
A justificativa entra em contradição com a própria decisão judicial, segundo a qual Larissa tinha leucemia linfoblástica aguda B, desenvolvida a partir da leucemia diagnosticada na infância. O governo tenta transformar em discussão técnica o que foi uma questão de vida ou morte: o remédio foi prescrito, a Justiça ordenou seu fornecimento e o Ministério não o entregou.
O caso de Larissa repete o mecanismo que levou à morte de Natália Pimenta, dirigente nacional do Partido da Causa Operária, em 22 de novembro de 2025. Natália precisava do Revumenib para combater uma leucemia mieloide aguda causada pelo tratamento de um câncer de mama. O medicamento tinha sido aprovado nos Estados Unidos, mas ainda não possuía registro no Brasil.
A família, os militantes do PCO e seu departamento jurídico organizaram uma campanha para obter o remédio. A juíza Anita Villani negou a liminar duas vezes. Depois que a decisão foi derrubada em segunda instância, a compra ficou presa no Ministério da Saúde.
A Advocacia-Geral da União pediu 90 dias para providenciar o medicamento, embora Natália não tivesse esse tempo. O processo passou por uma sequência de departamentos, exigências e procedimentos sem que ninguém assumisse a responsabilidade por autorizar a compra. Mesmo informado da gravidade do caso, o ministro Alexandre Padilha não assinou o documento necessário.
Natália morreu 55 dias depois da descoberta de que o Revumenib poderia tratar sua leucemia. Logo após a morte, a máquina estatal recuperou a rapidez: a Justiça extinguiu o processo por “perda de objeto”, e a União deixou de ter de fornecer o remédio.
No caso de Larissa, os dois medicamentos indicados já tinham sido incorporados ao SUS. O ponatinibe entrou no sistema em janeiro de 2025, e o blinatumomabe, em julho daquele ano. A legislação concede até 180 dias para que um remédio incorporado chegue aos pacientes. O prazo venceu e Larissa continuou sem tratamento.
A Associação Brasileira de Câncer do Sangue denunciou ao Ministério Público Federal e à Procuradoria-Geral da República as falhas reiteradas que impedem pacientes de receber medicamentos reconhecidos pelo próprio Estado. Segundo a entidade, depois da incorporação ao SUS, a definição de quem compra, quem paga e como distribui pode demorar anos.
Essa demora não é uma fatalidade. É uma política. Enquanto o governo reserva centenas de bilhões de reais para banqueiros, pacientes com câncer são submetidos a um labirinto de pareceres, prazos e repartições. Medicamentos que custam entre R$11.900,00 e R$43.000,00 por caixa são tratados como gastos excessivos, enquanto não existe limite para o pagamento dos juros da dívida pública.
Larissa tinha uma prescrição médica, uma ordem judicial e um remédio já incorporado ao SUS. Morreu sem receber o tratamento. O Ministério da Saúde não pode esconder esse fato atrás de portarias e notas burocráticas.





