O presidente argentino Javier Milei desembarca no Brasil nesta sexta-feira (24) para participar, no dia seguinte, da convenção do Partido Liberal que oficializará a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República. A presença do argentino no ato servirá como uma bênção política ao candidato que procura se apresentar como representante de uma direita “antissistema”.
Antes da convenção, marcada para a Arena Livre Pacaembu, em São Paulo, Milei deverá se encontrar com o governador paulista Tarcísio de Freitas no Palácio dos Bandeirantes. Também pretendia visitar Jair Bolsonaro, mas o encontro foi impedido pela decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que suspendeu por 30 dias as visitas ao ex-presidente.
Milei não deverá se reunir com o presidente Lula. A viagem possui caráter exclusivamente partidário: o chefe do governo argentino vem ao Brasil para apoiar Flávio Bolsonaro, reunir-se com Tarcísio e fortalecer a articulação da direita brasileira.
A escolha do padrinho mostra o verdadeiro conteúdo da candidatura bolsonarista. Milei chegou ao governo apresentando-se como inimigo da “casta”, dos políticos tradicionais e do Estado. Desde então, aplica um programa integralmente favorável aos bancos, aos grandes empresários e ao imperialismo.
Enquanto prepara sua participação na convenção do PL, Milei enfrenta uma nova onda de mobilizações na Argentina. Nesta quarta-feira (22), forças federais reprimiram manifestantes que tentavam atravessar o Puente Pueyrredón, entre Avellaneda e Buenos Aires, para participar de uma marcha convocada pela Confederação Geral do Trabalho (CGT), pelas duas centrais CTA e pela União dos Trabalhadores da Economia Popular (UTEP).
A polícia utilizou gás de pimenta e cassetetes para impedir o avanço das colunas. Também houve repressão contra manifestantes que marchavam pela avenida Maipú, em Vicente López, com o objetivo de atravessar a região da Puente Saavedra.
Participaram dos atos organizações como Polo Obrero, Movimento de Trabalhadores Excluídos, Barrios de Pie, Libres del Sur e Territorios en Lucha. Também ocorreram protestos em Rosário e Mar del Plata.
As manifestações foram convocadas contra a retirada de mais de um milhão de benefícios do programa Volver al Trabajo, antigo Potenciar Trabajo, e contra o ataque do governo às aposentadorias, aos salários e aos serviços públicos.
A CGT anunciou um plano de luta que inclui uma greve geral de 36 horas, acompanhada de mobilização nacional. Os sindicatos denunciam a recessão, o fechamento de empresas e o rápido empobrecimento da população.
Segundo os dirigentes da central, uma em cada quatro famílias argentinas já não consegue pagar o aluguel. As tarifas de serviços públicos aumentaram mais de 300%, enquanto o consumo permanece paralisado. Os aposentados recebem cerca de 600 mil pesos, valor insuficiente para pagar comida e medicamentos. Ao mesmo tempo, os vencimentos dos senadores aproximam-se de 12 milhões de pesos.
Esse é o governante escolhido pelo bolsonarismo para conferir prestígio internacional à candidatura de Flávio Bolsonaro. A operação procura reunir sob o rótulo de “antissistema” políticos profundamente ligados ao aparelho de Estado, ao grande capital e ao imperialismo.
Milei governa por meio da repressão, do corte de gastos sociais, das privatizações e da entrega dos recursos nacionais. Sua política busca transferir o peso da crise para os trabalhadores, os aposentados e a população pobre. A polícia é utilizada para impedir manifestações contra a fome e o desemprego.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, pertence a uma família que ocupou cargos públicos durante décadas. Seu pai foi deputado federal por quase 30 anos e presidente da República. Flávio passou pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e pelo Senado. Seus irmãos também fizeram carreira dentro das instituições.
O bolsonarismo procura esconder essa trajetória apresentando-se como uma força de ruptura. A presença de Milei na convenção mostra o conteúdo dessa suposta ruptura: maior submissão aos Estados Unidos, ataques aos direitos trabalhistas, entrega do patrimônio público e repressão contra as organizações populares.
A passagem do presidente argentino pelo Palácio dos Bandeirantes também aproxima Tarcísio de Freitas dessa articulação. O governador paulista aparece como uma das alternativas preferidas da burguesia para substituir Flávio Bolsonaro caso sua candidatura encontre dificuldades.
Milei, Tarcísio e Flávio representam setores distintos da mesma política. Todos defendem um governo submetido aos bancos, aos monopólios e ao imperialismo. A disputa entre eles diz respeito à escolha de quem terá melhores condições para executar esse programa no Brasil.





