O ex-presidente boliviano Luis Arce Catacora denunciou estar sendo submetido a “tortura psicológica” e a um “sequestro a margem da lei” sob as ordens do governo de Rodrigo Paz. O relato foi feito por meio por meio de uma carta manuscrita enviada do presídio de San Pedro nesta segunda-feira (6).
Detido preventivamente desde dezembro de 2025, o ex-mandatário assinou o documento como “preso político” e afirmou que a privação de sua liberdade ocorreu sem a existência de uma ordem legal de apreensão ou notificação prévia de processo. Arce é investigado por suposta corrupção no caso conhecido como Fundo Indígena, referente ao período em que atuou como ministro da Economia.
De acordo com a denúncia do ex-presidente, o sistema penitenciário e judicial tem rejeitado sistematicamente os pedidos de sua defesa para a realização de exames cardiológicos, ignorando recomendações médicas e colocando sua integridade física em risco. Na carta divulgada pela rede Erbol, Arce descreveu que foi alojado em celas sem condições mínimas de serem habitadas e submetido a um regime de vigilância ostensiva, que inclui registros constantes em fotos e vídeos durante o banho de sol no pátio da unidade em La Paz. A carta aponta ainda uma operação recente de busca e apreensão em sua residência, ação que o ex-mandatário classifica como parte de uma estratégia de “morte civil e política”.
O atual cenário de perseguição contra elementos da oposição marcam a consolidação do governo de Rodrigo Paz, que assumiu o poder após a crise que acometeu o Movimento ao Socialismo (MAS). Antes de sua prisão, Luis Arce havia rompido com a base de seu partido e dado respaldo institucional à proscrição e perseguição judicial do líder Evo Morales, medidas que abriram o caminho para a vitória eleitoral da direita.
A crise do MAS se desenvolveu quando o governo Arce, através do Ministério da Justiça, validou as sentenças do Tribunal Constitucional Plurinacional que proscreveram o movimento de Evo Morales e ratificaram sua inelegibilidade para o pleito de 2025. Naquele período, o governo utilizou o aparato de segurança do Estado para reprimir setores camponeses que protestavam contra o que classificavam como uma exclusão do movimento popular do regime político, resultando em detenções de dirigentes sindicais sob acusações de “terrorismo”.
A repressão aos trabalhadores, que haviam sido o motor da resistência ao governo golpista de Jeanine Áñez em 2019, ocorreu simultaneamente ao fortalecimento de uma burocracia estatal que passou a depender exclusivamente de decisões judiciais e decretos para governar, pavimentando o terreno para a ascensão da extrema direita.
A derrota eleitoral Arce foi seguida por uma rápida reestruturação do Ministério Público, que passou a ser ocupado por quadros ligados ao novo governo. A nova gestão utilizou os mesmos precedentes jurídicos e os instrumentos validados durante o mandato de Arce para dar início às investigações sobre o Fundo Indígena e outros expedientes de corrupção. A atual detenção do ex-presidente em San Pedro reflete a aplicação da máquina repressiva e judicial que, durante seu próprio governo, foi direcionada contra antigos aliados políticos e movimentos de protesto.




