O governo dos Estados Unidos anunciou, nesta quarta-feira (1º), sanções contra dois brasileiros, três empresas brasileiras e uma empresa portuguesa, sob a alegação de que todos fariam parte de uma rede de lavagem de dinheiro ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC). A medida foi aplicada pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC), órgão do Departamento do Tesouro norte-americano, e é a primeira ofensiva desse tipo depois que o governo de Donald Trump classificou o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações “terroristas” internacionais.
Foram incluídos na lista de sanções Victor Henrique de Oliveira Shimada e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira. Também entraram na relação quatro empresas: Victory Trading Intermediação de Negócios, Cobranças e Tecnologia Ltda.; Pixwave Soluções de Pagamentos Ltda.; Wave Construções Inteligentes Ltda.; e Avenidas Flutuantes Unipessoal Ltda., esta última sediada em Portugal.
Segundo o comunicado divulgado pela Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, a medida foi tomada com base nas Ordens Executivas 14.059, voltada ao combate à proliferação internacional de drogas ilícitas, e 13.224, usada contra “terroristas” e seus apoiadores.
As empresas Victory Trading e Pixwave foram descritas pelos EUA como empresas de serviços financeiros ligadas ao crime organizado. No entanto, segundo o UOL/Folha de S.Paulo, nenhum dos CNPJs tinha autorização do Banco Central do Brasil para atuar como instituição financeira no País.
A autorização do Banco Central é a condição legal para que uma empresa atue como instituição financeira no Brasil. Nos registros da Junta Comercial do Estado de São Paulo (Jucesp), as companhias aparecem como intermediadoras e auxiliares de serviços financeiros. Uma instituição financeira pode emprestar recursos próprios ou de investidores. Já uma intermediadora apenas facilita a ligação entre cliente e credor, sem operar como banco, financeira ou instituição autorizada pelo Banco Central.
De acordo com o Departamento do Tesouro dos EUA, Shimada morava em São Paulo e teria sido um elo entre operadores do PCC na Flórida e traficantes internacionais. O comunicado afirma que ele e sua organização lavaram mais de US$30 milhões em receitas ilícitas geradas em várias cidades dos Estados Unidos, usando criptomoedas para transferir recursos ao Brasil em nome do PCC.
O governo norte-americano afirma ainda que a rede funcionava a partir de dois polos principais: Flórida e São Paulo. Em janeiro de 2026, o FBI prendeu seis pessoas no estado norte-americano, acusadas de integrar o grupo sediado na Flórida. A ação anunciada agora mirou o que os EUA chamam de núcleo paulista da rede, supostamente comandado por Shimada e Stella.
Stella é apresentada pelo Tesouro norte-americano como parente próxima e associada de Shimada. Segundo o comunicado, ela trabalhava como secretária e intermediária na coleta de grandes quantias de dinheiro em espécie, prestando apoio logístico às operações de lavagem.
O governo dos EUA afirma também que Shimada utilizava uma rede de empresas para receber recursos ilícitos gerados nos EUA e lavá-los no Brasil. Entre elas estariam a Victory Trading, a Pixwave, a Wave Construções Inteligentes e a Avenidas Flutuantes Unipessoal, sediada nas proximidades de Lisboa, em Portugal.
O comunicado norte-americano afirma que o PCC é a “maior organização criminosa transnacional do Hemisfério Ocidental” e que teria presença em países como Reino Unido, Turquia e Japão. O documento acrescenta que, nos EUA, a facção representa uma ameaça crescente, particularmente na Flórida, onde integrantes e operadores ligados ao grupo lavariam dinheiro do tráfico de drogas.
O próprio comunicado usa esse argumento para justificar a ação do OFAC. “Esta designação é mais um passo do governo dos Estados Unidos para enfrentar e reconhecer a crescente presença da geração de receitas ilícitas do Primeiro Comando da Capital dentro de nossas fronteiras”, declarou Gene Lange, subsecretário interino de Terrorismo e Inteligência Financeira.
Shimada já era conhecido das autoridades brasileiras antes da sanção norte-americana. Ele é citado em investigações sobre o contrato de patrocínio entre o Corinthians e a casa de apostas VaideBet. Segundo as apurações no Brasil, uma fraude envolvendo a intermediação do acordo teria provocado prejuízo de cerca de R$40 milhões ao clube.
As investigações apontam que a Victory Trading teria sido usada para lavar dinheiro desviado do contrato de patrocínio. A empresa aparece como uma das peças de uma movimentação financeira envolvendo repasses de recursos ligados à intermediação do acordo. O UOL informou que as quebras de sigilo bancário indicaram que R$1,4 milhão do total pago pela VaideBet para intermediar o contrato foi direcionado à facção.
A BBC Brasil informou que Shimada foi denunciado pelo Ministério Público de São Paulo em julho de 2025 por lavagem de dinheiro no caso VaideBet. Segundo a reportagem, o Ministério Público afirmou que ele teria lavado R$35 milhões por meio de diversas contas em forma de criptomoeda. A BBC também informou que o empresário foi condenado pela Justiça Federal a cinco anos de reclusão, em regime semiaberto, por lavagem de dinheiro e furto qualificado mediante fraude eletrônica.
A mesma reportagem trouxe um dado revelador sobre a investigação brasileira: o promotor Lincoln Gakiya, do Ministério Público de São Paulo, afirmou desconhecer ligação de Shimada e Stella com o PCC. “Desconheço que esse casal ou essas empresas tenham envolvimento com o PCC”, disse ele à BBC, ressalvando que não tinha conhecimento das investigações conduzidas pelo FBI e pelo Departamento de Justiça dos EUA a partir de alvos ligados à facção em Miami.
A investigação brasileira atribui a Shimada crimes financeiros e lavagem de dinheiro no caso Corinthians-VaideBet, mas, segundo a própria reportagem da BBC, não estabeleceu a mesma ligação com o PCC apresentada pelo governo norte-americano. A acusação mais grave, portanto, vem dos EUA e está ligada à ofensiva internacional inaugurada pela classificação do PCC como organização “terrorista”.
A defesa de Shimada afirmou que tomou conhecimento das sanções pela imprensa e que ainda não teve acesso aos documentos oficiais que fundamentaram a decisão das autoridades norte-americanas. Os advogados negaram qualquer envolvimento do empresário com organização criminosa ou com lavagem de dinheiro.
As sanções do OFAC têm alcance amplo. Todos os bens e interesses sobre bens dos sancionados que estejam nos Estados Unidos, ou sob posse ou controle de pessoas norte-americanas, ficam bloqueados. Qualquer empresa controlada direta ou indiretamente em 50% ou mais por uma ou mais pessoas sancionadas também fica automaticamente bloqueada.
Além disso, pessoas e empresas dos EUA ficam proibidas de fazer transações com os sancionados. A proibição inclui transferência de fundos, bens, serviços, doações e qualquer operação que envolva propriedade ou interesse dos alvos incluídos na lista.
O alcance vai além dos EUA. Instituições financeiras estrangeiras que realizem ou facilitem transações consideradas significativas em nome de pessoas sancionadas podem sofrer sanções secundárias. Na prática, um banco fora dos EUA pode ser punido se mantiver relação com os alvos. O governo norte-americano pode proibir ou restringir a abertura e a manutenção de contas correspondentes nos EUA, mecanismo vital para bancos que operam em dólar.
Embora apresentadas como medidas contra indivíduos e empresas específicos, as sanções funcionam como instrumento de coerção sobre todo o sistema financeiro internacional. Bancos brasileiros, empresas de tecnologia, casas de pagamento, operadores de criptoativos, fornecedores e prestadores de serviço passam a ficar sob ameaça de punição caso sejam considerados, pelos EUA, ligados a pessoas incluídas na lista do OFAC.
O comunicado norte-americano também menciona que indivíduos nos EUA ou fora deles podem receber recompensas financeiras da Rede de Fiscalização de Crimes Financeiros (FinCEN) caso forneçam informações que resultem em ações com multas superiores a US$1 milhão.
O comunicado da Embaixada dos EUA afirma que esta é a terceira ação do OFAC contra o PCC e seus agentes. Em 15 de dezembro de 2021, o órgão incluiu o PCC em suas listas de sanções com base na Ordem Executiva 14.059, por suposta participação em atividades ligadas à proliferação internacional de drogas ilícitas. Em 14 de março de 2024, o OFAC sancionou Diego Macedo Gonçalves do Carmo, apontado como operador de lavagem de dinheiro para a facção.
A novidade de 2026 é que a ofensiva ocorre depois da classificação do PCC e do CV como organizações “terroristas” pelo Departamento de Estado. A decisão foi anunciada em 28 de maio e entrou em vigor em 5 de junho. A medida foi defendida por setores da direita brasileira, entre eles o senador Flávio Bolsonaro (PL), e foi apresentada pelos EUA como parte do combate à expansão de facções brasileiras.





