No artigo O grandioso Leão XIV diante do minúsculo Donald Trump, publicado no Brasil 247, Paulo Henrique Arantes oferece um retrato acabado da adaptação da esquerda pequeno-burguesa ao Partido Democrata norte-americano. Para criticar o presidente norte-americano Donald Trump, o articulista termina fazendo elogio da Igreja e do papa, como se uma instituição historicamente reacionária pudesse virar referência progressista só porque entrou em choque com a Casa Branca.
A operação aparece já no título: de um lado, “grandioso” Leão XIV; de outro, o “minúsculo” Trump. O artigo não se limita a criticar Trump, o que seria trivial. Ele precisa engrandecer o papa, transformá-lo em figura política superior, em autoridade moral e quase em líder da resistência mundial. Arantes escreve que “o Pontífice é inteligente”, que “Leão XIV domina o verbo” e conclui: “os católicos progressistas podem se orgulhar” dele. Aí está a essência do problema: o antitrumpismo chegou a tal ponto que agora serve para reabilitar a Igreja como entidade progressista. Afinal, se o papa é o chefe da Igreja, então a instituição estaria, segundo o articulista, levando adiante uma política progressista.
Isso não é um acidente. É o resultado lógico de anos de adaptação à política do Partido Democrata. Quando Trump é transformado no “mal maior”, toda força que o contrarie passa automaticamente a ser promovida a aliada da humanidade. Foi assim com setores do aparato imperialista “democrático”, foi assim com a imprensa burguesa dita “civilizada”, e agora é assim até com o Vaticano. O critério deixa de ser de classe, deixa de ser anti-imperialista, deixa de ser político. O critério passa a ser apenas este: quem bate em Trump vira “humanista”.
Arantes chega a dizer que Leão XIV estaria “liderando uma Igreja atuante contra as injustiças” e elogia seu papel na “defesa de valores humanistas”. Desaparece, assim, o caráter conservador da instituição, desaparece seu papel histórico de contenção política e moral das massas, desaparece tudo. Em seu lugar, entra uma fábula: o papa como consciência ética do mundo, contraposta ao bruto republicano.
O mais ridículo é que o artigo não se contenta em usar as declarações do papa contra a guerra. Trump teria batido num “muro inquebrantável” erguido por Leão XIV. Ou seja, a Igreja Católica, uma das instituições mais reacionárias da história da humanidade, é apresentada como fortaleza contra a barbárie. Isso mostra o tamanho da degeneração política: a esquerda pequeno-burguesa, em vez de ter uma política independente para os trabalhadores contra Trump e contra o imperialismo norte-americano como um todo, prefere buscar amparo em autoridades religiosas.
No fundo, o texto de Arantes mostra como o antitrumpismo imperialista corrói toda independência política. Já não basta denunciar Trump como representante de uma política agressiva. É preciso construir um campo oposto, supostamente virtuoso, onde cabem todos, até o papa. Com isso, a esquerda abandona qualquer crítica séria às instituições do regime e passa a se adaptar completamente ao seu grande inimigo de classe.





