A candidata do Partido da Causa Operária (PCO) ao governo de São Paulo, Izadora Dias, defendeu a reestatização das empresas privatizadas, sem indenização aos capitalistas, em entrevista ao jornalista Leandro Fortes, no canal Galo Preto, na quinta-feira (17). Durante a conversa, apresentou propostas para os serviços públicos e as mulheres trabalhadoras e denunciou os obstáculos impostos à participação do Partido nas eleições.
Ao tratar da Sabesp, Izadora afirmou que a reversão da privatização exige mobilizar os funcionários responsáveis pelo saneamento e a população prejudicada pelo serviço. São os trabalhadores que mantêm a empresa funcionando, enquanto os capitalistas se apropriam da receita e reduzem os gastos necessários ao atendimento.
“Quem mantém as coisas funcionando são os trabalhadores”, afirmou. Questionada sobre o pagamento de indenizações aos atuais proprietários, respondeu: “Eles que deveriam indenizar a população. Todos esses lucros que eles tiveram, que deveriam ter retornado para o orçamento público, eles que deveriam indenizar a população”.
A candidata também defendeu a estatização do transporte metroviário. Criticou a entrega aos empresários de estruturas construídas pelo Estado, com os impostos pagos pela população, e rejeitou o argumento de que a iniciativa privada é responsável pelas grandes obras. No encerramento da entrevista, confirmou seu apoio à tarifa zero.
Um programa dos trabalhadores
Izadora explicou que a campanha do PCO busca organizar os trabalhadores em torno de seu próprio programa, sem alimentar a ilusão de que a eleição de um governante resolveria seus problemas. Enfrentar os interesses dos grandes empresários exige a participação direta da população.
“Não tem como fazer algo positivo em relação à população sem a participação da própria população”, declarou. A candidata afirmou que um governo do Partido dependeria dessa mobilização para executar medidas como a reestatização da Sabesp.
Ao comparar Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad, criticou a continuidade da política tucana nas propostas dos dois candidatos. Também condenou as alianças do PT com Geraldo Alckmin e Simone Tebet, recordando a repressão durante os governos de Alckmin em São Paulo e o voto de Tebet pelo golpe contra Dilma Rousseff.
Izadora relatou uma conversa com um trabalhador que pretendia votar em Tebet por acreditar que ela defendia as mulheres. Quando soube de sua participação no golpe contra Dilma, ele mudou de posição. A candidata utilizou o episódio para explicar que cabe à esquerda esclarecer quem são os inimigos dos trabalhadores, em vez de apresentá-los como aliados.
Perseguição eleitoral
Na entrevista, Izadora informou que sua candidatura estava indeferida por uma questão relativa às contas do diretório estadual. Relatou que o Partido apresentou os documentos solicitados e pagou as multas exigidas, mas a regularização continuava sem solução.
Além de receber poucos recursos, o PCO precisa dedicar parte de sua atividade ao cumprimento de exigências burocráticas. A exclusão dos debates das grandes emissoras agrava a desigualdade na disputa: “Eu não apareço nem nos debates. Como que a população vai saber que eu existo para votar em mim?”, questionou.
Fortes criticou os setores da esquerda que protestam contra a exclusão dos debates, mas excluem o PCO de suas próprias iniciativas. Izadora respondeu que esses grupos atacam o Partido por posições como a defesa da liberdade de expressão, do armamento dos trabalhadores e dos países que enfrentam o imperialismo.
Restaurantes, lavanderias e creches
Coordenadora do Coletivo de Mulheres Rosa Luxemburgo, Izadora defendeu restaurantes públicos com refeições baratas ou gratuitas, lavanderias públicas e creches que funcionem 24 horas. As medidas permitiriam reduzir o trabalho doméstico que recai sobre as mulheres, obrigadas a cuidar da casa e dos filhos depois da jornada de trabalho.
A candidata explicou que as creches devem atender também quem trabalha à noite ou em horários diferentes dos convencionais. Defendeu a ampliação dos direitos ligados à maternidade, creches nos locais de trabalho e condições para que as mães possam amamentar após o retorno ao emprego.
Diante de comentários que classificavam essas propostas como utópicas, lembrou que os serviços já existem e podem ser ampliados. Citou os restaurantes populares e as lavanderias como exemplos de atividades que o Estado tem condições de oferecer à população.
“Não tem nenhum sonho. A gente não está vivendo na idade da pedra que não dá para construir mais restaurantes, construir lavanderias públicas”, afirmou.
Izadora vinculou a libertação das mulheres à luta contra a exploração capitalista. Criticou o feminismo burguês por apresentar os homens como inimigos e ignorar que as trabalhadoras são exploradas tanto por patrões quanto por patroas.
A candidata também manifestou apoio à associação Mátria e denunciou as perseguições contra suas integrantes e apoiadores. Defendeu que todas as pessoas tenham seus direitos atendidos pelo Estado, inclusive os transexuais, sem que isso sirva de pretexto para atacar os direitos das mulheres.
Autodefesa e direitos democráticos
Sobre segurança pública, Izadora defendeu o fim das forças policiais repressivas e sua substituição por uma organização dos próprios trabalhadores, com responsáveis escolhidos pelos moradores. Explicou que o direito ao armamento é necessário à autodefesa da população, tanto nos bairros operários quanto nas áreas de conflito pela terra.
A candidata denunciou as operações policiais que aterrorizam os moradores dos bairros pobres sob o pretexto de combater o crime. O programa do PCO também defende a legalização de todas as drogas, retirando da repressão policial o pretexto da guerra às drogas.
Ao discutir o Judiciário, Izadora defendeu a eleição dos juízes e criticou seus privilégios e a ausência de controle popular sobre suas decisões. Recordou a censura às redes sociais do Partido nas eleições de 2022 e sua inclusão no inquérito das notícias falsas por críticas a Alexandre de Moraes.
Religião e organização sindical
Questionada sobre os evangélicos, Izadora defendeu a liberdade religiosa e criticou a hostilidade de setores da esquerda contra os trabalhadores que frequentam igrejas. Afirmou que os sindicatos deveriam oferecer atividades culturais, aulas de música e espaços de lazer e convivência, em vez de permanecer de portas fechadas enquanto as igrejas acolhem a população.
A candidata também homenageou Natália Pimenta, dirigente do Partido que faleceu aos 40 anos de câncer, no ano passado. Destacou sua formação política, sua atuação em defesa da Palestina e a capacidade de conversar com jovens e operários. Relatou que a acompanhou no hospital e recordou a firmeza com que enfrentou a doença.
Durante a transmissão, espectadores enviaram manifestações de apoio à candidata. Uma participante anunciou que havia decidido votar em Izadora após ouvi-la. Ao encerrar a entrevista, Fortes elogiou sua clareza política e a convidou a voltar ao canal.




