Em seu artigo Face à onda de calor, a negação através da adaptação, publicado no sítio Revista Movimento nesta quinta-feira (2), Romaric Godin sustenta que o discurso da adaptação às ondas de calor representa uma nova forma de negacionismo climático. A tese se sustenta sobre um falso dilema: ou a sociedade combate as causas do aquecimento global, ou adapta-se aos seus efeitos. A própria ideia de “aquecimento global é controversa e, ainda que fosse aceita, combatê-la e adaptar-se não se excluem entre si.
O tom geral do artigo é de uma completa histeria, pinta um cenário apocalíptico e sua primeira grande contradição está na tentativa de classificar o fenômeno atual como um colapso civilizatório inédito. O autor afirma, categoricamente, que há uma (“onda de calor histórica que assola a França e a Europa neste final de junho de 2026”) e classifica o cenário como um “desastre sem precedentes”. Uma afirmação totalmente imprecisa, sem base empírica, e que ignora os registros da climatologia histórica europeia.
Ao contrário do que o tom apocalíptico sugere, a Europa já enfrentou períodos substancialmente mais quentes muito antes da consolidação da era industrial. O Período Quente Medieval (entre os séculos X e XIV), por exemplo, registrou temperaturas anomalamente altas que permitiram, como este Diário já apontou, o cultivo de videiras no norte da Inglaterra e o degelo de áreas da Groenlândia hoje cobertas por permafrost.
O próprio século XX testemunhou verões devastadores, como a histórica onda de calor de 1911 na França, que durou mais de dois meses e causou milhares de fatalidades em uma época em que as emissões de carbono eram residuais se comparadas às atuais. Tratar o verão de 2026 como “sem precedentes” é um insulto à ciência climática e à história.
Não existe sustentação na afirmação de que “o discurso sobre a adaptação face a fenômenos meteorológicos extremos é uma continuação da negação das alterações climáticas. A verdadeira prioridade continua a ser não questionar as causas reais da catástrofe”. Tratar uma onde de calor como catástrofe é ignorar o que tem ocorrido no clima terrestre historicamente. Se existe alguma “negação”, é do próprio autor do texto.
“As causas deste desastre sem precedentes”, continua o autor, “são ocultadas ou vagamente mencionadas sob a forma de um aquecimento global ainda percebido como uma força neutra, independente da ação humana.” Acontece que as mudanças climáticas atuam majoritariamente alheias à vontade humana, ainda que a produção industrial e agrícola contibuam, sim, para as mudanças. No entanto, não se sabe ao certo o quanto a humanidade interfere.
Outro dado alarmista é o autor dizer que “os recordes de temperatura sucedem-se e, perante eles, trata-se apenas de discutir medidas de acompanhamento e de adaptação individual.” Além de essas temperaturas não serem recordes, se a temperatura subir um milésimo, pronto, se estabelece aí uma nova marca que, na verdade, está dentro da margem de erro dos próprios aparelhos de medição.
Futurologia
Godin afirma que “há uma ideia forte que estrutura o debate: as “ondas de calor” são o novo normal, por isso temos de nos adaptar.” Por que haveria um “novo normal”, se as temperaturas experimentam alterações drástricas ao longo do tempo?Uma onde de calor não determina que daqui em diante o clima vai obedecer uma curva ascendente.
“O discurso da adaptação é um discurso fundamentalmente derrotista, de passividade, que permite ocultar qualquer possibilidade, não tanto de um regresso a uma normalidade climática” Classificar a adaptação humana como “passividade” é uma inversão completa da lógica. Desde os primórdios, a humanidade prosperou no planeta justamente por sua capacidade de adaptar-se aos mais severos ambientes e intempéries.
Atacar as medidas de mitigação e proteção individual — como o uso de tecnologias de refrigeração e orientações básicas de saúde pública — demonstra um descolamento perigoso da realidade prática em nome de um purismo teórico estéril.
Para Godin, “o caos climático é incompreensível sem ter em conta a própria natureza do nosso sistema econômico.” O tal “caos” é uma invenção que o autor utiliza para tentar vender sua visão apocalíptica e religiosa da natureza.
O ser humano se caracteriza, no reino animal, pelo modo como produz. Como afirma Karl Marx, “o que distingue o pior arquiteto da melhor abelha é que ele figura a colmeia em sua mente antes de construírá-la na cera.”
O animal produz por instinto, por uma necessidade biológica imediata e repetitiva. O ser humano, por sua vez, projeta mentalmente, antecipa o resultado, cria ferramentas complexas e transforma a natureza de forma deliberada.
Se, como escreve Godin, “paralelamente, o capital “transforma a natureza à sua imagem”, fragmentando-a e homogeneizando-a. Este movimento dá origem a uma ‘socionatureza’, ‘perfeitamente adequada às exigências da reprodução do capital’”, o fato é que não existe uma “natureza primordial”, uma espécie de paraíso perdido para retornarmos. Os seres humanos continuarão a transformar a natureza. E não se pode esquecer que a humanidade é parte da natureza, não um elemento estranho.
A “salvação” da natureza que esses beatos do ecossocialismo tanto desejam, só pode ser alcançada com a derrota da burguesia e com a implantação de uma economia planificada.
O domínio da tecnologia, fruto do desenvolvimento econômico, também será fundamental para essa finalidade. No entanto, é preciso combater essa visão religiosa e reacionária de uma natureza intocada, que os ecossocialistas defendem. Pois a visão deles coloca a natureza acima das pessoas.




