O artigo Um “super El Niño” ameaça provocar uma catástrofe, de Terry Conway, publicado no sítio Revista Movimento, nesta sexta-feira (3), procura convencer o leitor de que o planeta estaria às portas de uma grande catástrofe climática e que decisões do governo Donald Trump colocariam milhões de pessoas em risco.
Embora apresente algumas informações corretas sobre o fenômeno El Niño e sobre a importância do monitoramento dos oceanos, o texto também recorre a paralelos históricos discutíveis, extrapola o alcance das previsões climáticas e atribui intenções políticas que em nenhum momento demonstra.
Logo no título, o autor afirma que um “super El Niño ameaça provocar uma catástrofe”. Esse tipo de formulação serve para produzir forte impacto emocional, mas não corresponde ao grau de certeza apresentado pelo próprio texto. Mais adiante, Conway informa que existe “63% de probabilidade” de o fenômeno atingir intensidade muito forte. Em outras palavras, trata-se de uma previsão probabilística, não de uma certeza científica. A intensidade do El Niño também não determina, por si só, a ocorrência de uma catástrofe global. Seus efeitos variam conforme a circulação atmosférica, as condições dos demais oceanos, a geografia de cada região e, principalmente, o nível de preparação, das política públicas das áreas eventualmente afetadas.
Outro ponto que merece muita cautela é a comparação com a tragédia de 1877. Conway escreve que o fenômeno “foi um fator determinante em um dos piores desastres ambientais da história” e relaciona o episódio diretamente à Grande Fome, que matou dezenas de milhões de pessoas.
Esse tipo de argumento simplifica ao extremo um tema bastante estudado. Pesquisas demonstraram que a seca provocada pelo El Niño foi apenas um dos muitos elementos envolvidos. A elevada mortalidade decorreu também de políticas coloniais, da continuidade das exportações agrícolas durante a crise, da ausência de assistência governamental e da extrema pobreza das populações atingidas. Portanto, transformar uma tragédia em exemplo da falta de monitoramento climático ignora fatores políticos e econômicos que tiveram importância decisiva.
Conway diz que “o governo Trump tem tentado paralisar nossas capacidades de previsão. Nesta primavera, a Fundação Nacional para a Ciência (NSF) começou a “reduzir o escopo” da Iniciativa de Observatórios Oceânicos, uma rede que fornece dados oceânicos em tempo real a partir de mais de 900 sensores.”
Ao abordar a redução da infraestrutura de observação oceânica, o autor afirma que o Trump estaria “tentando paralisar nossas capacidades de previsão”. No entanto, o próprio artigo reconhece, poucas linhas depois, que “esses sensores não detectam a formação do El Niño”.
Essa admissão enfraquece um dos principais argumentos do texto. Os equipamentos citados medem parâmetros para pesquisas oceanográficas e para o aperfeiçoamento de modelos climáticos, mas a identificação do El Niño depende de uma ampla rede internacional de observação que inclui satélites, boias oceânicas, flutuadores do programa Argo, navios científicos e sistemas de monitoramento mantidos por diversos países.
Isso significa que uma eventual redução de parte da rede representa perda de dados científicos relevantes, mas está longe de significar que meteorologistas deixariam de identificar ou acompanhar o fenômeno.
O artigo também afirma que a retirada dos sensores deveria ser vista como “uma extensão do ataque generalizado do governo Trump contra a ciência climática federal” e conclui que o objetivo seria “enfraquecer os programas que medem as mudanças climáticas para, posteriormente, afirmar que o problema é incerto”.
Trata-se, porém, de uma atribuição de intenção, não de um fato demonstrado. O texto não apresenta documentos, decisões oficiais ou declarações que comprovem essa motivação. Em qualquer governo, cortes ou reorganizações administrativas podem decorrer de diferentes razões, como restrições orçamentárias, revisão de prioridades ou avaliação da eficiência de programas existentes. Criticar essas decisões é uma coisa; agora, presumir intenções sem evidências é outra questão.
Também merece cuidado a comparação entre o custo anual da rede — “apenas 56 milhões de dólares” — e os “115 bilhões de dólares” em prejuízos causados por desastres naturais.
A relação sugere que preservar integralmente essa infraestrutura evitaria perdas bilionárias. Entretanto, o artigo não demonstra essa conexão causal. Os danos provocados por enchentes, secas e tempestades dependem igualmente da ocupação de áreas de risco, da qualidade da infraestrutura, dos sistemas de drenagem, da atuação da defesa civil e das políticas de adaptação. Previsões mais precisas contribuem para reduzir riscos, mas não eliminam automaticamente os impactos dos eventos.
Na conclusão, Conway afirma que, caso esses sistemas permaneçam vulneráveis, “um fenômeno extremo acabará nos pegando de surpresa”. A frase transmite uma inevitabilidade que a própria climatologia não sustenta. Os modelos meteorológicos trabalham com probabilidades e são constantemente revisados à medida que novos dados são incorporados. A incerteza faz parte da ciência climática e, naturalmente, reconhecer suas limitações não significa negar sua importância.
É claro que é necessária a preservação das redes de observação oceânica. Em qualquer ciência, dados de qualidade aperfeiçoam previsões, auxiliam pesquisadores, etc. O que não se pode aceitar são analogias históricas simplificadas, linguagem alarmista e conclusões que extrapolam as evidências disponíveis.
O alarmismo tem cumprido um papel importante para o imperialismo, que utiliza o clima para impor uma série de medidas sobre os países atrasados, como na política de importação de produtos agropecuários, na exploração de recursos naturais, e mesmo obstáculos para a construção de hidrelétricas, ou construção de estradas.
A esquerda pequeno-burguesa tem servido como uma correia de transmissão dessa política imperialista junto à classe trabalhadora, o que demonstra o quanto tem avançado à direita.



