Mais uma vez nos deparamos com artigos como A crise global de alimentos – o aquecimento dos oceanos, de Sanket Jain, publicado no sítio A Terra é Redonda nesta terça-feira (19), e é preciso desmascarar a farsa da “crise climática” que, dentre muitos pontos negativos, acumula ainda a função de desviar a atenção para o verdadeiro problema: o imperialismo.
O primeiro parágrafo revela o fundo do problema. Jain diz que “os agricultores de Jambhali, uma vila de 5.000 habitantes no oeste da Índia, há muito tempo recorrem a Satgonda Patil, de 80 anos, para obter conselhos sobre a época ideal para plantar e colher suas plantações. Por mais de seis décadas, seu profundo conhecimento e instinto apurado ajudaram ele e seus vizinhos a prosperar e evitar perdas relacionadas ao clima”. Em pleno século XXI, temos agricultores dependendo de adivinhos para saber o melhor período para o plantio. Lembrando que a Índia tem um programa espacial avançado e produz seus próprios satélites.
Segundo o artigo, “em outubro de 2025, Patil plantou couve-flor em seu campo de 0,6 hectares, mas não conseguiu colher a safra. Ela murchou devido a uma doença fúngica transmitida pelo solo, favorecida por temperaturas mais altas. Um mês depois, Patil tentou plantar repolho, mas as pragas chegaram cedo e se espalharam rapidamente. Ele gastou mais de 50.000 rúpias indianas (US$ 527) em pesticidas, mas não conseguiu salvar a plantação”.
Um campo de futebol corresponde a 0,71 hectare, maior que os 0,6 de Patil. Na índia, mais da metade da população depende da agricultura para sobreviver. Cerca de 85% dos agricultores são pequenos ou marginais, possuindo menos de dois hectares de terras. Qualquer alteração no clima vai pode acarretar fome. O problema, contudo está claramente na estrutura fundiária.
No que diz respeito ao uso de pesticidas, a chamada Revolução Verde (nas décadas de 1960 e 1970), introduziu sementes transgênicas, fertilizantes químicos e forte necessidade de irrigação. O resultado foi ter amarrado o pequeno agricultor aos insumos e ao endividamento. Nas últimas décadas, centenas de milhares de agricultores suicidaram por não conseguirem pagar suas dívidas.
A maior incidência de pragas relativas ao aumento da temperatura, como alega o texto, nos leva à seguinte questão: por que não existe um programa de desenvolvimento tecnológico, mapeamento de genoma, etc., para controlar essas pragas? A verdade é que os agricultores estão dependendo da própria sorte. Em vez de se exigir a participação do Estado, é muito mais fácil culpar as mudanças climáticas.
O capitalismo é um fator de atraso
Sanket Jain é obrigado a reconhecer que “hoje, a agricultura global produz alimentos mais do que suficientes, mas essa oferta é distribuída de forma desigual devido à desigualdade de renda, à volatilidade dos preços e às lacunas de acesso e infraestrutura, deixando muitas pessoas subnutridas”. Então para que serve toda essa discussão das “mudanças climáticas”?
Se o clima ficar previsível, como se espera, ainda continuará a tragédia de uma pessoa morrer de fome no mundo a cada 4 segundos – segundo dados da ONU.
No mundo se produz alimento suficiente para alimentar o planeta tranquilamente. As quebras de safra são problemáticas para comunidades que vivem de subsistência ou em isolamento. Quem vive nessas condições não tem dinheiro para comprar alimentos.
O imperialismo também controla a grande produção, transporte e venda de alimentos, que também são negociados em bolsas de valores, onde ocorre a especulação financeira. Quebras de safras fazem os preços disparar, o que inviabiliza a aquisição de alimentos por famílias de baixa renda.
Não bastasse isso, cerca de 33,33% dos alimentos produzidos no mundo são perdidos ou desperdiçados. Nos países pobres, as causas são as mais variadas: falta de infraestrutura de armazenamento, estradas ruins para transporte e falta de tecnologia de refrigeração). A comida estraga antes de chegar ao mercado.
Os oceanos
Quase na metade de seu texto, Jain traz a opinião de cientistas para falar da questão do controle de temperatura dos oceanos e de como isso muda a precipitação de chuvas. Diz, por exemplo, que “as mudanças climáticas estão alterando os padrões que antes tornavam as estações do ano previsíveis.”, e que “um estudo publicado na revista Nature Communications descobriu que as ligações entre as temperaturas oceânicas e a precipitação estão mudando, tornando as previsões sazonais menos confiáveis em algumas regiões”.
Daí em diante, é uma lista de catástrofes como “as mudanças climáticas também estão alterando o momento dos eventos sazonais”; “mesmo pequenas mudanças em eventos sazonais, como enchentes que chegam uma semana antes, podem ter impactos ecológicos em cascata”; “se chover por 10 minutos, perco tudo”, etc. Nada disso, no entanto, toca no problema.
É engraçado, mas o texto diz que “especialistas afirmam que a solução para o clima cada vez mais imprevisível reside não apenas em previsões melhores, mas em repensar como se preparar para eventos extremos”. Isso não passa de uma grande fantasia. Se os pequenos agricultores não conseguem tratar com pequenas mudanças de clima, o que dizer se houver um “evento extremo”?
Toda essa discussão é inútil se não apontar para a raiz do problema: o capitalismo impede o desenvolvimento social humano.
A esquerda pequeno-burguesa abandonou o socialismo e entrou de cabeça nessa discussão do clima que, além de ser uma invenção do imperialismo, tem sido utilizada para impedir o desenvolvimento dos países pobres, cuja consequência o aumento da fome.
Mundialmente, as vozes de cientistas que contestam as tais “mudanças climáticas” são silenciadas sistematicamente, pois os países ricos controlam também a divulgação de pesquisas científicas, e quaisquer opiniões contrárias são sumariamente bloqueadas.





