América Latina

Desesperada, população argentina passa a comer carne de burro

Desde que assumiu a presidência, em dezembro de 2023, Milei vem aplicando um programa econômico de choque baseado no corte de gastos públicos

A crise econômica na Argentina, aprofundada sob o governo ultraneoliberal de Javier Milei, chegou a um ponto em que a tradicional carne bovina, um dos principais alimentos do país, passou a se tornar artigo de luxo para amplos setores da população. Diante da disparada dos preços, parte dos argentinos vem sendo empurrada para alternativas cada vez mais baratas, entre elas a carne de burro, que começou a ganhar espaço no mercado.

A situação mostra o grau de deterioração das condições de vida no país vizinho. De acordo com as informações divulgadas, a carne bovina registrou alta superior a 10% em apenas um mês, e cortes comuns já ultrapassam os 25 mil pesos por quilo. O resultado é uma mudança forçada no padrão alimentar da população: primeiro, muitos consumidores migraram para o frango e a carne suína; depois, com a alta também desses produtos, passaram a recorrer a opções ainda mais baratas, como ovos e, agora, a carne de burro.

O encarecimento dos alimentos ocorre no marco de uma inflação persistente. Segundo dados citados do Indec, o índice de preços ao consumidor subiu 3,4% em março, acima dos 2,9% registrados em fevereiro, alcançando o maior nível em um ano. No acumulado de 12 meses, a inflação chegou a 32,6%.

Desde que assumiu a presidência, em dezembro de 2023, Milei vem aplicando um programa econômico de choque baseado no corte de gastos públicos, na paralisação de obras federais, na suspensão de repasses às províncias e na retirada de subsídios em áreas essenciais, como energia, transporte e serviços básicos. A consequência direta dessa política foi o aumento do custo de vida e o aprofundamento da recessão.

O açougueiro Gonzalo Moreira, de Buenos Aires, descreveu a situação de maneira bastante clara. Segundo ele, o comércio atravessa uma recessão importante e praticamente todos os comerciantes estão em dificuldade. Ele afirmou que a carne bovina teve queda de cerca de 20% nas compras, enquanto os consumidores passaram a buscar produtos mais baratos, como carne suína e frango. Mesmo essas alternativas, porém, já pesam no bolso da população.

Foi nesse cenário que surgiu a proposta de vender carne de burro, comercializada a cerca de 7.500 pesos o quilo, valor bastante inferior ao da carne bovina. O próprio Moreira reconheceu que a alternativa aparece como produto de necessidade. Embora tenha manifestado resistência ao consumo desse tipo de carne, admitiu que há pessoas que, pelo menos assim, conseguem ter acesso a algum alimento.

A iniciativa partiu do produtor rural Julio Cittadini, responsável pelo projeto “Burros Patagones”. Segundo ele, a procura foi imediata: tudo o que foi colocado à venda acabou em apenas um dia. O empreendimento, de acordo com as informações divulgadas, conta com autorização do Ministério da Produção de Chubut e funciona dentro das normas sanitárias.

Num país historicamente identificado com o consumo de carne bovina, a substituição desse alimento por carne de burro indica o nível de empobrecimento a que está sendo submetida a população.  A imagem de argentinos tendo de abandonar a carne bovina e buscar alternativas cada vez mais precárias resume, de maneira brutal, o conteúdo real do experimento criminoso argentino: enquanto o governo permite que os bancos assaltem o Estado, a população é empurrada para uma situação de miséria crescente.

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