A confusão provocada no debate eleitoral da Faculdade de Saúde Pública da USP ultrapassou rapidamente os limites do movimento estudantil. O episódio envolvendo Izadora Dias, candidata do Partido da Causa Operária ao governo paulista, chegou à Folha de S.Paulo e abriu uma discussão entre leitores do jornal. Parte significativa dos comentários publicados na página da reportagem foi favorável à posição apresentada pela candidata ou contrária à tentativa de interrompê-la.
O debate aconteceu na quarta-feira (30), organizado pela Associação Paulista de Saúde Pública e pela Faculdade de Saúde Pública da USP. Além de Izadora, participaram Carlos Machado, do PCB, Vivian Mendes, da Unidade Popular, e uma representante da candidatura de Fernando Haddad, do PT. A discussão saiu do roteiro quando Izadora respondeu a uma pergunta sobre mulheres encarceradas e defendeu que os presídios fossem separados segundo o sexo dos presos.
“Os presídios precisam ser definidos pelo sexo. Há muita denúncia de mulheres que estão sendo ameaçadas, que estão sofrendo com a presença de mulheres trans”, declarou a candidata. Izadora também defendeu que a diferença entre os sexos constitui uma realidade biológica e disse que o Partido não alteraria sua posição para se adaptar à pressão dentro do auditório.
A resposta provocou intervenção de estudantes ligados ao Centro Acadêmico Emílio Ribas e à Unidade Popular pelo Socialismo (UP). Uma representante da entidade acusou a candidata de “transfobia” e contestou sua argumentação. Histéricos abandonaram o debate e a atividade terminou depois da discussão. Izadora afirmou posteriormente que a polícia chegou a ser acionada, mas não compareceu ao local.
A Folha publicou uma reportagem específica sobre o episódio. A página de comentários manteve inclusive o título Candidata do PCO causa tumulto em debate após defender mulheres trans em prisões masculinas, enquanto a reportagem passou a destacar que estudantes interromperam o debate. O espaço reservado aos assinantes recebeu manifestações muito diferentes da reação ocorrida dentro da universidade.
Um dos comentários mais reveladores começava assim: “eu nunca imaginei que assinaria embaixo de qualquer coisa que alguém do PCO dissesse!”. O leitor prosseguia afirmando que, em sua avaliação, não havia sido Izadora quem provocara a confusão. Outro comentário reproduzido na discussão afirmava que seu autor nunca esperava concordar integralmente com alguém do Partido.
Esse tipo de manifestação é politicamente mais significativo que uma simples concordância entre militantes. São pessoas que fazem questão de começar a mensagem estabelecendo distância em relação ao PCO e, mesmo assim, dizem concordar com a candidata naquela discussão.
Outros leitores criticaram diretamente a maneira como o debate foi interrompido. Um deles classificou a reação como “patrulhamento ideológico”. Outro escreveu que setores identitários não aceitariam discordância e recorreriam rapidamente à acusação de discurso de ódio, à polícia ou ao Judiciário. Houve ainda quem comparasse o episódio a outros casos ocorridos dentro de universidades nos quais, segundo o comentarista, a discussão política acabou substituída por tentativas de impedir a fala do adversário.
Este Diário publicou na sexta-feira (2) uma matéria reunindo episódios ocorridos em universidades de São Paulo, Brasília e Santa Catarina. Candidatos do PCO vêm entrando em choque com setores do movimento estudantil ligados à política identitária em discussões sobre sexo, cotas para pessoas transexuais e livre ingresso nas universidades.
Na UnB, por exemplo, Expedito Mendonça, candidato do Partido ao governo do Distrito Federal, defendeu o fim do vestibular e o livre ingresso no ensino superior enquanto era contestado por sua oposição às cotas específicas para pessoas trans. Em Santa Catarina, Bruno Pedreiro denunciou sua exclusão de um debate organizado pelo DCE da UFSC.





