A diretora de Inteligência Nacional dos Estados Unidos, Tulsi Gabbard, anunciou sua demissão do governo de Donald Trump, segundo carta publicada por ela em sua conta no X. A saída foi confirmada pelo presidente norte-americano em publicação no Truth Social, na qual afirmou que Gabbard deixará o governo em 30 de junho.
A demissão ocorre em meio a uma crise no setor de Inteligência do governo Trump, atingido por baixas sucessivas relacionadas à guerra contra o Irã. Além de Gabbard, Amaryllis Fox Kennedy, funcionária de alto escalão ligada à diretora de Inteligência Nacional, deixará dois postos importantes no governo. Segundo o jornal norte-americano Washington Post, cinco pessoas familiarizadas com o caso apontaram a oposição de Kennedy à guerra de Trump contra o Irã como motivo de sua saída.
Em sua carta, Gabbard declarou estar “profundamente grata pela confiança” depositada por Trump e pela “oportunidade de liderar o Escritório do Diretor de Inteligência Nacional pelo último ano e meio”. A justificativa apresentada foi o diagnóstico recente de uma forma rara de câncer ósseo em seu marido.
Trump afirmou: “infelizmente, depois de ter feito um grande trabalho, Tulsi Gabbard deixará a administração em 30 de junho”. O presidente acrescentou que ela “fez um trabalho incrível” e que será substituída interinamente por Aaron Lukas, principal vice-diretor de Inteligência Nacional.
Quando chegou ao governo Trump, Gabbard já era associada à oposição às intervenções militares dos Estados Unidos. Ex-deputada pelo Partido Democrata entre 2013 e 2021, ela foi integrante da Guarda Nacional do Havaí e participou da invasão norte-americana do Iraque. Essa experiência foi apresentada por ela, em várias ocasiões, como base de sua oposição às guerras promovidas pelos EUA.
Ao romper com o Partido Democrata e apoiar Trump, Gabbard afirmou que a promessa de encerrar o aventureirismo militar norte-americano no exterior havia motivado sua decisão. Em ato de campanha de Trump em Detroit, no estado de Michigan, ela disse que o governo de Joe Biden havia colocado os Estados Unidos “enfrentando múltiplas guerras em várias frentes em regiões ao redor do mundo e mais perto da beira de uma guerra nuclear do que jamais estivemos antes”.
A política do governo Trump, no entanto, seguiu sentido oposto. O governo norte-americano lançou uma guerra contra o Irã ao lado de “Israel”, além de ter sequestrado o presidente venezuelano Nicolás Maduro. Gabbard foi apontada como afastada das decisões em torno da operação contra a Venezuela.
No caso do Irã, Gabbard inicialmente se manteve em silêncio. Depois, passou a defender a decisão do governo Trump de participar da guerra junto a “Israel”, alegando que cabia ao presidente, e não à comunidade de Inteligência, determinar “o que é ou não uma ameaça iminente”.
A demissão de Amaryllis Fox Kennedy amplia o quadro de crise. Kennedy foi agente clandestina da CIA no Leste Asiático e é nora do secretário de Saúde e Serviços Humanos, Robert F. Kennedy Jr. Ela era aliada próxima de Gabbard e acumulava três funções no setor de Inteligência.
Kennedy deixará o cargo de vice de Gabbard no Escritório do Diretor de Inteligência Nacional e o posto de diretora associada no Escritório de Administração e Orçamento, onde supervisionava orçamentos sigilosos de Inteligência. Ela pretende permanecer como integrante do Conselho Consultivo de Inteligência do presidente, órgão que fornece ao chefe de Estado pareceres independentes sobre a legalidade e a eficácia dos programas de espionagem norte-americanos.
Em mensagem enviada a colegas, Kennedy afirmou que pretendia retornar ao setor privado e passar mais tempo com a família. “Ser mãe é o maior presente de Deus, e depois de dois anos na campanha e um ano servindo nesta extraordinária administração, tenho de garantir que minha família tenha tudo de que precisa”, escreveu. A mensagem não mencionou a guerra contra o Irã.
Ainda assim, segundo o Washington Post, fontes próximas ao caso atribuíram a saída à discordância com a guerra. O jornal também destacou que o acúmulo de três cargos por Kennedy, envolvendo política de Inteligência, orçamento e fiscalização, causou incômodo entre funcionários atuais e antigos do governo norte-americano.
Gabbard divulgou uma nota oficial sobre a saída de Kennedy. “Somos gratos a Amaryllis Fox Kennedy por sua liderança e serviço excepcional”, afirmou. “Sob sua liderança, alinhamos com sucesso as agências da Comunidade de Inteligência aos objetivos da administração e do ODNI, impulsionando uma abordagem unificada para nossa missão”.
Antes de ocupar o cargo sob Gabbard, Kennedy havia se manifestado contra intervenções militares dos Estados Unidos no exterior, incluindo a participação norte-americana na guerra entre Ucrânia e Rússia e uma guerra contra o Irã. Após a eleição de Trump, ela tentou se tornar vice-diretora da CIA, mas sua candidatura foi rejeitada por senadores republicanos preocupados com possíveis mudanças bruscas na agência de espionagem.
A renúncia de Kennedy sucede a de Joe Kent, que servia sob Gabbard como diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo. Kent, também ex-agente da CIA, deixou o cargo em março e citou publicamente sua oposição à guerra contra o Irã como razão da saída.
Em entrevistas posteriores, Kent afirmou que a guerra estava sendo travada em favor de “Israel” e que o Irã não representava uma ameaça aos Estados Unidos, ao contrário do que Trump alegava. Na quarta-feira (20), ele declarou: “a ideia de que eles poderiam colocar uma arma nuclear em um sistema de mísseis balísticos e fazê-la chegar aos Estados Unidos é simplesmente absurda”.
A passagem de Gabbard pelo comando da Inteligência também foi marcada por episódios de atrito dentro do próprio aparato estatal. Entre eles, a demissão de funcionários do Conselho Nacional de Inteligência pouco depois da publicação de um relatório que contrariava a alegação do governo Trump de que a Venezuela trabalhava em coordenação com a gangue Tren de Aragua.
Gabbard afirmava que sua atuação buscava pôr fim à “instrumentalização” e à “politização” da comunidade de Inteligência. Com sua saída, parlamentares republicanos elogiaram sua passagem pelo cargo. O senador Eric Schmitt afirmou no X que Gabbard “trabalhou para estabelecer um tom de prestação de contas em todo o governo federal” e lamentou sua saída.
Outras figuras, porém, afirmaram que a demissão pode abrir espaço para novas revelações sobre a guerra contra o Irã. Matt Duss, ex-assessor de política externa de Bernie Sanders e vice-presidente executivo do Centro de Política Internacional, declarou à Al Jazeera: “Tulsi Gabbard concorreu à Presidência fazendo campanha contra guerras de mudança de regime e acabou servindo em uma administração que lançou a mais estúpida delas contra o Irã”.
“Espero que, uma vez fora do serviço de Trump, ela fale sobre como os Estados Unidos foram levados a mais um conflito desnecessário”, completou.



