Um documento desclassificado da Agência Central de Inteligência dos EUA (CIA) reconhece que o serviço de espionagem norte-americano não encontrou provas de fraude eletrônica em grande escala nas eleições da Venezuela.
A nota, datada de 29 de junho, resume relatórios produzidos entre 2004 e 2020 sobre a possibilidade de o governo venezuelano alterar resultados por meio das máquinas de votação.
Donald Trump apresentou o documento durante seu discurso anual ao Congresso como prova de uma operação eleitoral organizada pelos governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro. O próprio texto divulgado pela Casa Branca desmente a declaração.
Segundo a CIA, os relatórios registraram suspeitas persistentes sobre possíveis interferências nos equipamentos eletrônicos. A agência admite, porém, que “não confirmou de maneira definitiva que uma fraude eletrônica em grande escala tenha sido executada em eleições venezuelanas específicas”.
O documento acrescenta que “outros fatores explicavam melhor os resultados eleitorais”. Após quase duas décadas de investigações, a CIA não conseguiu demonstrar que o governo venezuelano tenha utilizado as máquinas para alterar o resultado de uma eleição.
A agência atribuiu a funcionários venezuelanos algum conhecimento técnico para interferir no sistema, mas reconheceu que as vulnerabilidades identificadas permaneciam no terreno das possibilidades. As acusações sobre métodos mais avançados também provinham de poucas fontes.
A nota não examina a eleição presidencial venezuelana de 2024. Suas conclusões atingem, contudo, a acusação de que o sistema eleitoral usado durante os governos Chávez e Maduro funcionava com base na fraude.
Essa foi a acusação retomada pela direita venezuelana e pelos governos imperialistas depois da vitória de Maduro em 2024. Sem apresentar provas de adulteração dos votos, seus adversários exigiram que o presidente venezuelano demonstrasse a legitimidade de sua própria eleição.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aderiu à pressão e cobrou de Maduro a publicação das atas eleitorais. Dessa maneira, colocou sobre o governo venezuelano a responsabilidade de refutar uma fraude que seus acusadores não haviam comprovado.
Os documentos agora publicados mostram que nem mesmo a CIA, com todos os recursos do aparelho de espionagem norte-americano, encontrou provas de fraude eletrônica nas eleições venezuelanas investigadas entre 2004 e 2020.
A agência também rejeitou a tese de que o governo da Venezuela ou a empresa Smartmatic possuíam meios para alterar votações realizadas em outros países. Segundo a nota, nenhum dos dois tinha capacidade para manipular o resultado de uma eleição fora do território venezuelano.
A conclusão desmente uma das principais acusações feitas por Trump após sua derrota para Joe Biden nas eleições norte-americanas de 2020 — eleição que foi, de fato, manipulada pelo imperialismo. Seus advogados Rudy Giuliani e Sidney Powell acusaram a Smartmatic e a Dominion Voting Systems de participar de um plano venezuelano para modificar votos nos EUA.
Os aliados de Trump afirmaram ainda que Hugo Chávez havia participado da criação de um programa secreto capaz de alterar os resultados sem deixar vestígios. Nenhuma prova foi apresentada.
Um relatório de 2021, assinado por John Ratcliffe, diretor de Inteligência Nacional nomeado pelo próprio Trump, já havia concluído que não existiam informações sobre qualquer participação dos governos venezuelanos em tentativas de atingir a estrutura eleitoral dos EUA.
Mesmo assim, Trump voltou a afirmar que os novos documentos comprovavam um plano para beneficiar Maduro. Os jornais norte-americanos The New York Times e The Washington Post apontaram que a declaração contrariava as conclusões da própria CIA.





