Europa

Chanceler da Alemanha tem pior aprovação em quase 30 anos

Apenas 13% dos alemães aprovam o chanceler, enquanto a AfD aparece cinco pontos à frente da CDU/CSU em levantamento da ARD

O chanceler alemão Friedrich Merz atingiu o pior índice de aprovação de um chefe de governo da Alemanha desde que o instituto Infratest Dimap começou a realizar levantamentos mensais para a emissora ARD, em 1997. Segundo a pesquisa ARD-DeutschlandTrend divulgada na quinta-feira (3), apenas 13% dos alemães aprovam o governo do dirigente da União Democrata Cristã (CDU).

O dado mais significativo, no entanto, não está apenas no tamanho da rejeição nacional. O levantamento aponta que 84% dos entrevistados estão insatisfeitos com o desempenho de Merz. Entre os próprios eleitores da CDU, 51% declararam descontentamento com o chanceler. Trata-se, portanto, de uma crise que já atravessa a própria base do governo.

Merz chegou ao governo como representante direto da velha direita alemã, comprometida com a política do imperialismo europeu, com a Otan, com as sanções contra a Rússia e com a continuidade do apoio ao regime ucraniano. Em poucos meses, no entanto, ficou evidente que esse programa não oferece saída para a crise alemã. Pelo contrário, aprofunda o desgaste do país, em particular de sua indústria.

A pesquisa mostra que 78% dos alemães estão preocupados com a perda de atratividade da Alemanha para os negócios. O dado expressa o problema central enfrentado pelo país: a destruição da base econômica alemã, diretamente atingida pela ruptura com a Rússia. A Alemanha construiu parte decisiva de sua força industrial sobre o acesso à energia barata russa. Ao aderir à política de guerra dos Estados Unidos e da Otan, o governo alemão aceitou cortar uma das principais condições de funcionamento de sua própria economia.

A consequência aparece no crescimento da Alternativa para a Alemanha (AfD), partido de direita que se apresenta como oposição à política de imigração do governo, ao envio de recursos para a Ucrânia e às sanções contra a Rússia. Segundo o mesmo levantamento, se as eleições fossem realizadas agora, a AfD ficaria com 27% dos votos. A aliança CDU/CSU, de Merz, teria apenas 22%.

A copresidente da AfD, Alice Weidel, aparece com apoio de 25% dos entrevistados. Em declaração recente à Reuters, ela afirmou que a única maneira de recuperar a economia alemã seria retomar as relações econômicas com a Rússia. “A energia barata da Rússia foi o segredo do sucesso do ‘Made in Germany’. Precisamos tê-la de volta”, declarou.

A declaração aponta para o centro da crise. A política seguida pelos governos alemães desde o início da guerra na Ucrânia subordinou a Alemanha aos interesses norte-americanos. As sanções contra a Rússia não destruíram a economia russa, como prometiam os governos europeus. Ao contrário, atingiram duramente os próprios países da Europa, em especial a Alemanha, cuja indústria dependia de energia abundante e barata.

Diante do avanço da AfD, a coalizão formada por CDU/CSU e Partido Social-Democrata (SPD) anunciou um pacote de medidas apresentado como tentativa de recuperar a economia. Entre os pontos divulgados estão cortes no imposto de renda para famílias de baixa e média renda, mudanças no sistema de aposentadorias e regras mais rígidas para afastamentos por doença.

Merz tentou apresentar o pacote como uma demonstração de força. “Não há razão para pessimismo”, afirmou. “Os melhores anos do nosso país não ficaram para trás, há anos muito bons pela frente.” A fala contrasta com os números da própria pesquisa e com a situação concreta da economia alemã, que encolheu em 2023 e 2024.

Weidel criticou o pacote, classificando as medidas como “mais redistribuição de esquerda e compromissos mínimos que não merecem ser chamados de reformas”. A dirigente da AfD afirmou ainda que o anúncio mostra a “incapacidade completa” do governo de realizar mudanças.

A crise de Merz é mais uma demonstração do esgotamento político dos partidos tradicionais na Europa. A social-democracia e a direita clássica governaram por décadas aplicando a mesma política fundamental: submissão à Otan, ataques aos trabalhadores, defesa dos monopólios europeus e alinhamento aos Estados Unidos. Agora, quando essa política se choca com a crise econômica e com a guerra contra a Rússia, os mesmos partidos aparecem como incapazes de controlar a situação.

A Alemanha, principal potência econômica da União Europeia, encontra-se diante de uma crise política que expressa o impasse de todo o imperialismo europeu. A tentativa de impor uma derrota à Rússia se voltou contra a própria Europa. A indústria alemã perdeu competitividade, os preços da energia aumentaram e os governos que sustentaram essa política estão sendo cobrados pela população.

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