O aumento do Bolsa Família é positivo e necessário. Após três anos de defasagem, os beneficiários precisam recuperar o poder de compra. Lula, porém, deixou o reajuste para o momento em que sua reeleição está ameaçada pela sabotagem da burguesia e pelo crescimento dos concorrentes. A questão é se essa medida será suficiente para recuperar o apoio de quem passou quase quatro anos sofrendo os efeitos da política do governo.
O atraso no reajuste tem relação direta com a submissão dos gastos sociais ao arcabouço fiscal. Enquanto o benefício perdia valor, Haddad ampliava os impostos sobre o consumo popular e o indicado de Lula para o Banco Central mantinha os juros na estratosfera. A promessa de não privatizar deu lugar à entrega de infraestrutura estratégica sob o nome de “concessões”.
O projeto de orçamento para 2027 previa menos recursos para o Bolsa Família e o congelamento do benefício. Também estabeleceu restrições aos reajustes dos servidores e autorizou cortes de até R$16,6 bilhões na saúde e na educação. A mudança anunciada no auxílio convive, assim, com a preparação de novos ataques.
Dario Durigan consulta Pedro Malan e Armínio Fraga para formular mais um ajuste fiscal. Defende superávits crescentes e a redução das despesas obrigatórias, enquanto a equipe econômica estuda diminuir os reajustes de aposentadorias e pensões. Avançam também as privatizações de rodovias e ferrovias e os planos de abrir os Correios a parcerias privadas. No programa para outro mandato, foram retiradas propostas como a reforma agrária, o combate às privatizações e a tarifa zero.
A adesão do governo às arbitrariedades do STF agravou o problema. Em nome do combate ao bolsonarismo, Lula e o PT apoiaram ataques às liberdades de expressão, imprensa e organização. Agora, o escândalo Vorcaro-Moraes expõe o apodrecimento das instituições que defenderam e amplia o desgaste da candidatura presidencial.
A frente ampla levou o governo a atacar sua própria base social para atender à direita. Os capitalistas receberam juros altos, privatizações e cortes de gastos. Nem por isso deixaram de trabalhar contra Lula: aproveitam a insatisfação produzida por essas medidas para enfraquecê-lo.
O Bolsa Família deve aumentar. Mas seus beneficiários também pagam impostos, enfrentam serviços deteriorados e precisam de emprego e salário. Um reajuste não apaga esses problemas, sobretudo quando o governo prepara mais ajustes para depois da eleição. Para recuperar o apoio popular, Lula precisa romper com a política que o fez perder. Mas nada indica que o fará, dada a profundidade de sua adaptação ao regime que se mostra caindo aos pedaços.





