Nesta sexta-feira (22), a marchas de camponeses indígenas, operários, mineiros, transportadores, professores e outros setores do povo trabalhador ocuparam as ruas de La Paz, capital do país, em protesto contra o presidente Rodrigo Paz.
As manifestações ocorrem depois de três semanas de bloqueios de estradas em diferentes regiões do país. Segundo os relatos dos setores mobilizados, os bloqueios provocaram o isolamento da sede de governo e agravaram problemas de abastecimento, com falta de alimentos, combustíveis e medicamentos.
Durante os atos em La Paz, manifestantes gritaram palavras de ordem pela renúncia do presidente. A principal reivindicação apresentada nas marchas é a saída do governo, além de medidas contra o aumento dos preços e a crise de abastecimento.
Rodrigo Paz está há cerca de seis meses no poder e enfrenta uma crise econômica marcada pela alta dos preços. A inflação interanual registrada em abril foi de 14%, segundo os dados divulgados no material de referência. Entre os manifestantes, a principal queixa é o encarecimento da cesta básica.
Uma das participantes da marcha, Melina Apaza, de 50 anos, da região mineira de Oruro, afirmou que a população passou a ter de escolher entre produtos básicos. “Temos que escolher entre comprar carne ou comprar leite”, disse.
A resposta do governo às mobilizações em La Paz foi uma operação policial com uso de gás lacrimogêneo. De acordo com denúncias dos manifestantes, houve detenções em massa e agressões durante a repressão.
Entre as pessoas detidas estão Adriana Guzmán e Diana Vargas, ligadas às Feministas Comunitárias e Feministas do Abya Yala. Segundo as denúncias, as duas foram presas enquanto transmitiam a repressão nas ruas.
Os setores mobilizados também denunciaram a prisão de mais de 40 pessoas durante os protestos. As organizações que acompanham as manifestações exigem a libertação imediata de Adriana Guzmán, Diana Vargas e dos demais detidos.
As denúncias divulgadas pelos manifestantes afirmam ainda que, após três semanas de greve geral e bloqueios, a repressão teria deixado dezenas de feridos, vários presos e três mortos em ações de forças policiais e militares. Também foi relatada agressão contra um fotógrafo que registrava os acontecimentos.
No mesmo dia, Mario Argollo, dirigente da Central Operária Boliviana (COB), divulgou uma mensagem gravada desde a clandestinidade. Há uma ordem de prisão contra ele.
Na gravação, Argollo afirmou que não deixou o país e que segue acompanhando a mobilização. Segundo ele, sua ausência pública se deve à perseguição contra dirigentes sindicais.
“Estamos aqui presentes na luta, talvez afastados de nossas bases, mas estamos aí”, declarou.
O dirigente da COB acusou o governo de perseguir os manifestantes e de responder às reivindicações com intimidação e operações policiais. Ele também denunciou violação do foro sindical, dos direitos trabalhistas e de garantias constitucionais.
Argollo afirmou que as mobilizações não têm caráter eleitoral ou setorial. Segundo ele, a greve e os bloqueios são uma resposta à crise econômica, ao aumento da cesta básica, à falta de combustíveis e à ausência de medidas do governo para resolver a situação.
“Não é um conflito político, é uma luta pelas reivindicações da nossa população”, afirmou.
Segundo Argollo, as mobilizações seguem em diferentes regiões do país, incluindo La Paz, Oruro, Cochabamba, Sucre, Potosí e Santa Cruz de la Sierra. Ele também afirmou que há participação de organizações sociais, transportadores e outros setores populares.
O dirigente pediu que a Polícia não confronte os manifestantes. “Não somos inimigos do povo”, disse.
Apesar da ordem de prisão, Argollo declarou que continuará apoiando as mobilizações. “Muito independentemente de sermos perseguidos, vamos estar onde nos toque estar. E, se nos prenderem também, vamos estar com vocês”, afirmou.
Outro ponto levantado pelo dirigente da COB foi o pacote de leis anunciado pelo governo. Segundo Argollo, há preocupação entre os trabalhadores com possíveis mudanças nas áreas mineradora, hidrocarbonífera e energética.
Os manifestantes mantêm a exigência de renúncia de Rodrigo Paz, o fim da repressão e a libertação dos presos. Até o momento, os bloqueios continuam e novas ações devem ser mantidas enquanto o governo não responder às reivindicações apresentadas.





