Em pouco mais de um mês, as manifestações de junho de 2013 completarão 13 anos. Rememorando o evento, o colunista Eduardo Guimarães publicou nesta semana no Brasil 247 o texto 2013 + 13.
Na sua visão, os protestos populares contra o aumento nas passagens de ônibus e metrô tiveram como alvo o governo Dilma Rousseff. E, treze anos depois, a esquerda estaria cometendo um erro parecido ao se posicionar contra os mandos, desmandos e envolvimento com o Banco Master dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
Guimarães chega a afirmar que, em junho de 2013, o Brasil vivia o “melhor momento econômico e social de sua história”. Quando, de repente, “um ajuntamento de imbecis autoproclamados ‘esquerdistas’ resolveu atacar Dilma Rousseff por 20 centavos de aumento no preço das passagens no transporte público”. Essa versão só pode ser apresentada por alguém que não acompanhou nem pela Internet o que ocorreu nesse período. Ou por má fé.
Em primeiro lugar, é preciso esclarecer que os alvos iniciais dos protestos eram os governadores de direita nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Ninguém menos do que Geraldo Alckmin (PSDB) e Sérgio Cabral (PMDB), respectivamente. Essas manifestações foram crescendo na medida em que foram sendo violentamente reprimidas pela Polícia Militar (PM) ligada a esses governos, adquirindo um caráter popular de oposição ao aparato de repressão do Estado. Não havia nem sombra de direitistas nas ruas. Ninguém falava do governo federal. Foi a confluência de uma série de demandas que opunham a classe trabalhadora e o projeto neoliberal levado adiante pelos governos de direita. O aumento do custo do transporte público foi a gota que fez transbordar a indignação do povo.
Quanto maior a violência, mais adesão popular. O compartilhamento dos relatos e vídeos da repressão nas redes sociais foi fundamental para impedir que a realidade fosse encoberta pela imprensa burguesa. Não adiantava afirmar uma coisa nos telejornais enquanto vídeos feitos no local mostravam outra. Sim, nas redes sociais. Essa forma de interação pela Internet que a burguesia conseguiu vender a ideia de que são perigosas e que precisam ser rigidamente censuradas. A esquerda, que usou as redes sociais para se organizar em 2013, agora quer que os juízes controlem ainda mais esses fóruns de troca de informações.
Graças à falta de organização necessária, pois o Movimento Passe Livre (MPL) defendia uma perspectiva da ação anarquista, sem carro de som para organizar a multidão, a burguesia teve espaço para se infiltrar nos atos e manipular o movimento. Os mesmos jornais que até 13 de junho pediam por mais repressão policial, depois do fracasso em inibir a mobilização pela violência passaram a manipular o conteúdo das manifestações. Questões como combate à corrupção passaram a ser impulsionadas de forma intensa durante o final de semana que antecedia a próxima manifestação marcada. No dia 17 de junho, a diluição das reivindicações originais já podia ser percebida. Muitos policiais à paisana estiveram presentes dali em diante, especialmente para atacar grupos de esquerda.
Em São Paulo, o prefeito petista Fernando Haddad correu para socorrer Alckmin, num momento em que ninguém falava sobre a prefeitura da cidade. Ambos apareceram juntos para anunciar um plano de contenção dos aumentos na passagem. Depois, Dilma reuniu prefeitos e governadores para organizar uma resposta às demandas originais do movimento e às reivindicações infiltradas pela burguesia. Uma solidariedade unilateral dos petistas com os políticos da direita. A falta de habilidade política do PT também foi muito bem explorada. Ao invés de impulsionar os atos, convocar a militância contra os aumentos, contra a violência policial, se lançaram entre o povo e os governadores da direita. Isso quando a base petista estava nas ruas desde o começo dos atos. Os atos não eram contra Dilma, mas a forma como o governo se colocou ajudou a embasar a versão da imprensa burguesa.
Após a rejeição da indicação de Jorge Messias ao STF, o colunista Eduardo Guimarães enxergou uma semelhança com 2013. Pois setores da esquerda, ainda que tardiamente, pararam de defender as loucuras antidemocráticas da Corte diante do escandaloso envolvimento dos ministros do STF com o caso do Banco Master. Para o colunista, o STF é um ponto de apoio da “democracia”, ao contrário dos manifestantes de junho de 2013. O mesmo STF que validou o golpe de Estado contra Dilma Rousseff em 2016. Vale a pena reproduzir um trecho que mostra o nível da exaltação que ele faz:
“No estertor de 2025, o Brasil vivia um sonho: o mesmo STF que impedira Jair Bolsonaro de produzir um genocidio muito maior, fez o que deveria ter sido feito 40 anos antes: prendeu militares golpistas. E defendeu indígenas, negros, mulheres, homossexuais, trabalhadores e a democracia como nunca antes na história deste país. A extrema-direita prometeu vingança contra o Supremo, mas jamais suspeitou que receberia ajuda tão inestimável das esquerdas” (2013 + 13, Brasil 247, Eduardo Guimarães, 29/04/2026).
Essa mitologia, que confunde a tarefa do STF de domesticar o governo Bolsonaro para a burguesia com “luta antifascista” como alguns chegaram a propagar, falsifica o papel da Corte no golpe de Estado e durante o último governo Lula. O STF é inimigo do povo brasileiro, é inimigo da esquerda. Seus embates pontuais com figuras da extrema direita não mudam o papel que cumpre para a classe dominante. Não apenas para o setor principal da burguesia nacional, mas especialmente para a burguesia imperialista. Não foram os jovens do MPL que validaram as manobras do Poder Legislativo durante o processo de impeachment de Dilma, foram os ministros do STF.





