Governo Lula

Antes de falar em ‘giro à esquerda’, é preciso romper com o STF

Esquerda pequeno-burguesa virou defensora da democracia liberal e, assim como o governo Lula, se afastou da classe trabalhadora, o que abre caminho para a direita

Lula

A esquerda pequeno-burguesa fala tanto em “luta contra o fascismo” que acabou acreditando que é isso que está polarizando a política no Brasil. É o que demonstra o artigo Giro de emergência à esquerda, de Valerio Arcary, publicado no sítio Esquerda Online no domingo (3). A derrota de Lula no Congresso, segundo acredita, “foi uma vitória da campanha dos neofascistas pela Anistia, beneficiando, em primeiríssimo lugar, Jair Bolsonaro, que pode ver sua sentença em prisão fechada reduzida para algo em torno de dois anos”.

A derrota de Lula é mais ampla, pois a rejeição de Jorge Messias para a vaga aberta no Supremo Tribunal Federal (STF) foi acordada de última hora. Nada indicava que seria puxado o tapete de Messias, muito menos se poderia crer que o próprio Alexandre de Moraes, até então considerado paladino da democracia, pudesse estar envolvido na trama.

Quanto à derrubada da PL da Dosimetria, que vai favorecer Bolsonaro e os manifestantes presos no julgamento-farsa da “trama golpista”, era previsível, uma vez que o STF está enfraquecido em função do envolvimento de vários de seus ministros estarem envolvidos no escândalo do Banco Master.

Arcary reconhece que o bolsonarismo tem “uma poderosa base social”, mas não vê que isso é um problema para a burguesia, que não quer um candidato com essas características, pois esse é sensível aos interesses dessa base, como ocorre com Lula. O grande capital procura um candidato “sem votos”, ou seja, um elemento da “terceira via” que esteja comprometido exclusivamente com o capital.

É um erro acreditar que “a incerteza eleitoral favorece uma reaproximação da imensa maioria do Centrão do bolsonarismo”, pois isso equivale a ignorar os interesses de classe. O “centrão” e o bolsonarismo nunca foram duas forças realmente antagônicas, o que revela que a “luta antifascista” não passa de uma ilusão.

A tese de que “a possibilidade de adiar para depois das eleições a indicação de um ministro que, somada às outras três vagas previstas por aposentadorias compulsórias, cria uma possível maioria pela anistia total de Bolsonaro e reversão da inelegibilidade” carrega um problema: foram forças poderosas que colocaram o ex-presidente na cadeia. Portanto, qual interesse real haveria em anistiá-lo? No mundo todo, o grande capital está tentando conter a extrema direita e no Brasil não seria diferente.

Conter a extrema direita é uma questão “provisória” da burguesia; pois, a depender da polarização política, não hesitará em utilizar esse recurso, como já fez inúmeras vezes.

Reação pífia

Segundo Arcary, “a luta de classes abriu um caminho no segundo semestre do ano passado, quando o governo Lula decidiu enfrentar o tarifaço do governo Trump, tomou a iniciativa de enfrentamento nas redes sociais pela aprovação da isenção do imposto de renda para quem ganha até cinco mil reais e alíquota de pelo 10% para os super-ricos, e se uniu à campanha contra a blindagem dos golpistas, procurando apoio nas mobilizações populares de 21 setembro e 14 de dezembro.”

Foram medidas muito tímidas. O governo tentou desesperadamente acordos com Donald Trump e até liberou um total de R$15 bilhões em empréstimos emergenciais. A isenção do imposto de renda no governo FHC era muito maior que a atual, correspondia a aproximadamente R$8 mil. A correção atual não cobre sequer as perdas provocadas pela inflação.

O fato do governo ter se unido “à campanha contra a blindagem dos golpistas, procurando apoio nas mobilizações populares de 21 setembro e 14 de dezembro”, foi um erro. Essa campanha, patrocinada pela rede Globo e pelo grande capital, arrastou inclusive a esquerda que se diz revolucionária, mas que serve como linha de auxilar do imperialismo dentro da classe trabalhadora.

Lula se uniu à campanha para fortalecer o Supremo e enfraquecer o Congresso, mas acabou sendo traído pelos dois.

De olho no voto

Diante do acirramento nas intenções de votos entre Lula e Flávio Bolsonaro, e das derrotas do governo, Valerio Arcary escreve que “são necessárias, pelo menos, três iniciativas: (a) um giro de emergência para a governabilidade a ‘quente’ iniciando uma ofensiva de agitação nas redes sociais, e mobilização nas ruas pela aprovação do fim da jornada seis por um e redução da jornada de trabalho, a defesa de uma estratégia de implantação do passe livre nas grandes metrópoles, começando por São Paulo e Rio de Janeiro; (b) um enfrentamento com o bolsonarismo em defesa da soberania nacional, associando a candidatura neofascista ao trumpismo, levantando a bandeira de domínio sobre as terras raras e minérios estratégicos; (c) apresentar uma nova indicação de ministro para o SFT, desta vez dialogando com o clamor por uma jurista mulher e negra deixando a responsabilidade de colocar em votação nas mãos de Alcolumbre.”

A jornada 6×1 já está sendo sabotada pelo próprio partido do presidente. A imprensa burguesa divulgou que “o líder do PT na Câmara, deputado Pedro Uczai (SC), defendeu nesta 4ª feira (6.mai.2026) que a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) do fim da escala 6 X 1 fixe uma jornada semanal de 40 e não de 36 horas semanais para não quebrar as empresas e viabilizar a aprovação da proposta.”

Quanto ao enfrentamento com o bolsonarismo em defesa da soberania nacional e a questão das terras raras, o governo tem dado mostras de que vai negociar a exploração de minérios no Brasil pelos EUA. A Serra Verde foi comprada pela USA Rare Earth por cerca de R$ 2,8 bi, o que coloca o Brasil na posição de vendedor de commodities.

Não poderia faltar a proposta pueril da “jurista mulher e negra” para o STF, como se o Congresso, que acabou de passar a perna no presidente, se curvaria diante de uma suposta pressão, ou que a “responsabilidade” recairia “nas mãos de Alcolumbre”. Apenas a esquerda pequeno-burguesa, identitária e moralista, se sente pressionada por esse tipo de reivindicação. O grande capital se move por interesses muito específicos e não dá a mínima para o identitarismo que, na verdade, até controla.

O grande problema dessa esquerda, além de ser uma defensora da democracia liberal, é ter abandonado as bandeiras do socialismo, e assim não têm nada a oferecer para a classe trabalhadora.

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