O Departamento de Justiça dos EUA indiciou, nesta quarta-feira (20), o ex-presidente cubano Raúl Castro, de 96 anos, em mais uma etapa da ofensiva imperialista contra Cuba. A acusação está relacionada à derrubada, em 1996, de duas aeronaves operadas por exilados cubanos anticomunistas ligados à organização Irmãos ao Resgate.
O indiciamento acusa Castro e outros cinco funcionários cubanos de conspiração para matar cidadãos norte-americanos, destruição de aeronaves e quatro acusações de assassinato, uma para cada um dos cubano-americanos mortos no episódio. À época, Raúl Castro era ministro da Defesa de Cuba.
O procurador-geral interino dos EUA, Todd Blanche, afirmou, em entrevista coletiva em Miami, que Castro “participou de uma conspiração que terminou com aeronaves militares cubanas disparando mísseis contra aqueles aviões civis e matando quatro norte-americanos”.
O caso foi apresentado pouco antes de uma cerimônia em Miami em homenagem aos mortos no incidente, o que reforça o caráter político da medida. A acusação ocorre meses depois de Donald Trump afirmar que Cuba seria “a próxima” depois da agressão norte-americana contra a Venezuela.
Em janeiro, forças especiais dos EUA sequestraram o presidente venezuelano Nicolás Maduro em uma ação contra sua residência em Caracas. Antes disso, o Departamento de Justiça norte-americano também havia indiciado Maduro, em uma sequência semelhante à usada agora contra Raúl Castro.
Trump e o secretário de Estado, Marco Rubio, fizeram repetidas ameaças contra Cuba neste ano. Após o sequestro de Maduro, Trump impôs um bloqueio quase total de energia contra a ilha e declarou que “Cuba é a próxima” na lista de alvos de mudança de regime.
Nesta quarta-feira, Trump afirmou que “a América não tolerará um Estado rebelde abrigando operações militares, de inteligência e terroristas estrangeiras hostis a apenas noventa milhas do território norte-americano”.
A declaração foi acompanhada por novas acusações contra Havana. No início da semana, serviços de espionagem norte-americanos disseram ao portal Axios acreditar que Cuba adquiriu mais de 300 VANTs militares para preparar um ataque contra a base militar dos EUA em Guantánamo e contra alvos como Key West, na Flórida. O governo cubano ridicularizou as acusações e afirmou que os EUA fabricam um “caso fraudulento” para justificar uma intervenção militar.
Também nesta quarta-feira, o Pentágono anunciou a chegada ao Caribe do grupo de ataque do porta-aviões USS Nimitz. A movimentação militar repete a escalada que antecedeu a operação norte-americana contra Maduro. O Nimitz leva mais de 60 aeronaves de combate e pode ser usado para lançar ataques militares contra Cuba, caso Trump dê a ordem.
Questionado por repórteres se pretende acompanhar o indiciamento de Raúl Castro com ação militar, Trump respondeu: “não quero dizer isso”.
O governo cubano classificou a acusação como uma manobra política sem fundamento jurídico. Em publicação nas redes sociais, o presidente Miguel Díaz-Canel afirmou:
“A acusação apenas revela a arrogância e a frustração que os representantes do império sentem diante da determinação inabalável da Revolução Cubana. Esta é uma manobra política, desprovida de qualquer fundamento legal, destinada apenas a engrossar o dossiê fabricado que usam para justificar a loucura de uma agressão militar contra Cuba.”
Díaz-Canel também advertiu que qualquer ação militar contra Cuba resultará em “um banho de sangue com consequências incalculáveis” para os EUA. Em outra publicação, na segunda-feira, afirmou que Cuba “não representa ameaça” e não abriga “planos ou intenções agressivas contra qualquer país”.
O episódio usado pelo Departamento de Justiça ocorreu em 24 de fevereiro de 1996, quando caças cubanos derrubaram duas aeronaves leves Cessna 337 Skymaster operadas pela organização Irmãos ao Resgate. Cuba afirmou que os aviões violavam seu espaço aéreo e haviam sido advertidos a se desviar antes de serem abatidos.
A organização Irmãos ao Resgate era dirigida por José Basulto, agente da CIA, e reunia cubanos e norte-americanos anticomunistas. Oficialmente, o grupo dizia ajudar dissidentes a deixar Cuba e “apoiar os esforços do povo cubano para se libertar da ditadura por meio da não violência ativa”.
No entanto, Juan Pablo Roque, ex-piloto da organização, desertou para Cuba dois dias antes da derrubada dos aviões e afirmou que o grupo transportava armas para a ilha, destinadas a guerrilhas antigovernamentais.
A Embaixada de Cuba nos EUA declarou, na terça-feira (19), que as aeronaves da organização cometeram “mais de 25 violações graves, deliberadas e sistemáticas” do espaço aéreo cubano entre 1994 e 1996. Como os EUA ignoraram advertências formais de Havana, Cuba afirmou que não teve alternativa a não ser a defesa direta de suas fronteiras.
Documentos desclassificados da Administração Federal de Aviação dos EUA (FAA), divulgados pelo Arquivo de Segurança Nacional, reforçam que autoridades norte-americanas tinham conhecimento do risco. Relatórios e correios internos da FAA antecipavam “o pior cenário possível” e indicavam que altos funcionários advertiram: “algum dia os cubanos derrubarão um desses aviões”. Ou seja, os documentos mostram que, meses antes do incidente, funcionários dos EUA alertaram que as incursões repetidas sobre território cubano podiam terminar em tragédia.
Apesar da acusação, não há indicação de que Raúl Castro compareça a um tribunal dos EUA. Cuba mantém relações diplomáticas limitadas com o imperialismo norte-americano e não possui tratado de extradição com os EUA. O governo cubano também não entregaria Castro, ex-presidente e dirigente histórico da Revolução Cubana, a um tribunal norte-americano, onde pode receber pena de morte em caso de condenação.
Ao ser perguntado sobre a possibilidade de Castro ser levado aos EUA, Blanche afirmou: “esperamos que ele apareça aqui por sua vontade, ou de outra forma”.
Marco Rubio também interveio na ofensiva. Em um vídeo em espanhol, divulgado por ocasião do aniversário da independência cubana, o secretário de Estado ofereceu US$100 milhões em ajuda a Cuba, desde que o dinheiro seja distribuído “pela Igreja Católica ou outros grupos de caridade confiáveis”, e prometeu ajudar a construir “uma nova Cuba”.
O chanceler cubano Bruno Rodríguez respondeu chamando Rubio de “porta-voz de interesses corruptos e vingativos”, em referência aos exilados anticomunistas concentrados no sul da Flórida.




