No artigo Liberdade para a opinião antissemita, publicado na Folha de S.Paulo, o sociólogo Demétrio Magnoli saiu em defesa da liberdade de expressão de José Maria de Almeida, dirigente do PSTU, condenado por suas declarações contra o Estado de “Israel”. A posição de Magnoli, nesse ponto, é correta e consequente: ele afirma que “a decisão judicial é um erro amparado pela lei” e conclui com a palavra de ordem “Liberdade para Zé Maria!”. O problema é que, ao mesmo tempo em que defende corretamente o direito de expressão, Magnoli utiliza seu artigo para repetir uma das fraudes ideológicas mais batidas da propaganda sionista: a tese de que criticar “Israel”, defender o fim do Estado sionista ou apoiar a Palestina “do rio até o mar” seria antissemitismo.
É preciso reconhecer, antes de tudo, que Magnoli está à frente de quase toda a direita e da extrema direita brasileira no tema da liberdade de expressão. Ao escrever que “liberdade é sempre, exclusivamente, a liberdade de quem pensa diferente de nós”, citando Rosa Luxemburgo, ele assume uma posição que a direita brasileira, em geral, só defende quando lhe convém. Para essa gente, liberdade de expressão é a liberdade para caluniar a esquerda, os trabalhadores, os palestinos, os movimentos populares. Quando são criticados, correm para o Judiciário. O caso do deputado federal Kim Kataguiri (UNIÃO-SP) é exemplar. Ele processou o presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta, por ter comparado sua política ao nazismo.
Mas é aí que termina o mérito do artigo.
Magnoli escreve: “sim: o discurso de José Maria foi antissemita”. Segundo ele, José Maria usaria “o truque vulgar” de vestir seu discurso “nas roupagens do ‘antissionismo’”. Essa é precisamente a falsificação central do texto. Para Magnoli, atacar o Estado de “Israel” seria, no fundo, atacar os judeus. Mas o Estado de “Israel” não é o povo judeu. É uma entidade política concreta, colonial, militar, patrocinada pelo imperialismo e erguida sobre a expulsão e a opressão do povo palestino.
Magnoli diz que as acusações contra “Israel” — Estado “racista”, “colonialista”, que pratica “genocídio” — “não são suas verdadeiras motivações”. E conclui: “O problema dele é que Israel é um Estado judeu”. Aqui está a canalhice fundamental. Magnoli não demonstra que a motivação real seja ódio aos judeus. Ele simplesmente afirma. Substitui o debate político por uma acusação moral. É o mesmo expediente usado há décadas pela propaganda sionista: diante de qualquer denúncia contra “Israel”, grita-se “antissemitismo”.
O texto pergunta: “Israel, Estado ‘racista’? Falso.” Mas falso por quê? Magnoli não explica. Apenas muda de assunto: “Mas, e se fosse? Por que nunca se exigiu a extinção dos EUA, que manteve leis de discriminação racial até 1967?” O fato de os Estados Unidos serem também um Estado racista, colonial e imperialista não absolve “Israel”. Pelo contrário: aproxima os dois. O imperialismo norte-americano é justamente o principal sustentáculo do Estado sionista.
A comparação com os EUA, o Canadá, a Austrália e o Brasil também não ajuda Magnoli. Ele escreve que ninguém sugeriu “varrer do mapa” esses países, “nações de colonos implantadas sobre as ruínas de povos autóctones”. Mas a questão não é “varrer do mapa” uma população. A questão é pôr fim a um regime político de opressão nacional. Defender o fim do Estado sionista não é defender o extermínio dos judeus; é defender o fim de um Estado baseado na supremacia de um grupo nacional sobre outro.
Magnoli sabe disso. Por isso precisa falsificar a posição adversária. Ele afirma que quem defende a Palestina “do rio até o mar” estaria “batendo bumbo para uma guerra de aniquilação nacional”. Não é verdade. A consigna “Palestina do rio até o mar” expressa a reivindicação de libertação integral do território palestino, não o massacre dos judeus. A própria fórmula que Magnoli menciona em tom de deboche — uma “Palestina laica e democrática” — é justamente a negação do antissemitismo: um Estado em que judeus, muçulmanos, cristãos e ateus tenham direitos iguais.
O que Magnoli chama de “contrato nacional” é, na realidade, a forma jurídica e política da opressão. Ele escreve que o Estado judeu “garante direitos políticos e civis para seus 10,1 milhões de cidadãos” e pergunta: “Com que autoridade moral um não israelense brada pelo cancelamento do contrato dos outros?” Ora, e os palestinos expulsos? E os habitantes dos territórios ocupados? E os refugiados? Eles assinaram esse “contrato”? Foram consultados quando suas terras foram tomadas, suas casas destruídas, suas famílias expulsas?
A pergunta de Magnoli inverte o problema. Ele quer saber com que autoridade um estrangeiro critica “Israel”. A pergunta correta é outra: com que autoridade o imperialismo e o sionismo impuseram aos palestinos um Estado que os transforma em estrangeiros dentro de sua própria terra?
O trecho mais revelador do artigo é quando Magnoli escreve: “Israel pratica ‘genocídio’? Debate válido.” A formulação é escandalosa. Depois de admitir que a acusação de genocídio é um “debate válido”, ele usa a própria gravidade do tema para defender que, mesmo assim, não se poderia questionar a existência do Estado responsável por essa política. O argumento é absurdo. Se um Estado se organiza para esmagar, expulsar e massacrar um povo, é perfeitamente legítimo defender o fim desse regime.
Magnoli cita Turquia, Alemanha, Camboja e Ruanda para dizer que ninguém propôs “remover do planeta” esses países. Mais uma vez, ele troca o conteúdo político por uma caricatura. Ninguém está falando em “remover do planeta” pessoas, cidades, línguas ou culturas. Está-se falando em derrubar uma forma estatal determinada. A Alemanha nazista, para ficar em um dos exemplos citados por Magnoli, foi derrotada militarmente e seu regime foi destruído. O problema não era a existência física dos alemães, mas o regime político nazista. Do mesmo modo, o problema não é a existência física dos judeus, mas o Estado sionista.
Magnoli tenta apresentar a defesa da Palestina como uma obsessão antissemita contra “o Estado judeu”. Mas a singularidade de “Israel” não vem de uma perseguição imaginária da esquerda aos judeus. Vem do papel concreto que esse Estado cumpre no Oriente Médio: uma base militar do imperialismo, armada até os dentes, sustentada pelos Estados Unidos, usada para esmagar o povo palestino e ameaçar todos os povos da região.
É por isso que o debate sobre “Israel” não é igual ao debate abstrato sobre qualquer outro país. “Israel” não é apenas um país com problemas internos, como quer Magnoli. É um Estado colonial em guerra permanente contra um povo oprimido. A denúncia do sionismo é, portanto, parte da luta contra o imperialismo.
A posição democrática consequente é defender o direito de José Maria falar e, ao mesmo tempo, defender o direito dos palestinos de lutar contra o Estado que os oprime. Magnoli aceita o primeiro ponto, mas falsifica o segundo. Sua defesa da liberdade de expressão é correta; sua defesa ideológica de “Israel” é uma fraude.





