Aniversário de 95 anos de FHC

A herança maldita do genocida Fernando Henrique Cardoso

Artigo canalha do jornal O Globo apresenta balanço positivo do presidente responsável pela morte de crianças por fome

No dia 29 de junho de 2026, o jornal O Globo publicou em sua seção de Opinião o artigo Feliz aniversário, Fernando Henrique, assinado pelo editor e diretor de cinema Miguel de Almeida. Disfarçado de homenagem aos 95 anos do ex-presidente tucano, o texto é uma peça de propaganda do genocídio econômico chamado de “neoliberalismo”. O Globo tenta vender para a juventude atual, que não viveu os terríveis anos 1990, a imagem de um Fernando Henrique Cardoso e injustiçado.

Miguel de Almeida abre sua coluna afirmando:

“O tempo obrigou os brasileiros atentos e honestos a reconhecer a importância de seu governo.”

Para a imprensa que mama nas tetas do gapital financeiro, “brasileiro honesto” é o banqueiro do Itaú, o megaespeculador de Wall Street e o latifundiário do agronegócio. Para a esmagadora maioria da população, o tempo só consolidou a certeza de que a era FHC foi um período tenebroso.

Quem não viveu a época precisa olhar para os dados oficiais. Sob o governo tucano, o desemprego aberto saltou de 6% em 1994 para o recorde histórico de 12,2% em 1999, segundo o IBGE. Na Grande São Paulo, a taxa de desemprego total medida pelo Seade/Dieese bateu na casa dos 20%. Um em cada cinco trabalhadores estava na rua da amargura. O Brasil de FHC era um país atolado na miséria absoluta, carimbado oficialmente no Mapa da Fome da ONU. O salário mínimo era uma esmola humilhante que flutuava entre 60 e 80 dólares mensais.

A “importância” que O Globo celebra é a da pacificação da miséria, onde o trabalhador passava o dia na fila do osso enquanto a burguesia se deleitava com o governo FHC.

O colunista de O Globo repete, de forma mecânica, o maior mito de propaganda do PSDB:

“Seus oito anos de Presidência deixaram duas heranças fundamentais: primeira, a estabilidade econômica…”

A suposta “estabilidade” de Fernando Henrique Cardoso foi uma das maiores fraudes da história do País. Para sustentar a paridade artificial do Real com o Dólar e garantir a reeleição do tucano, o governo elevou as taxas de juros a patamares pornográficos e destrutivos, que chegaram a surreais 45% ao ano, quebrando a indústria nacional de forma deliberada.

A dívida pública líquida do Brasil explodiu, saltando de 30% do PIB em 1994 para mais de 56% do PIB em 2002. O país faliu três vezes no período. FHC teve que ir de pires na mão implorar por três pacotes de socorro financeiro ao Fundo Monetário Internacional (FMI) (1998, 1999 e 2002).

Em janeiro de 1999, logo após garantir seu segundo mandato, a bolha estourou. FHC promoveu uma maxidesvalorização violenta do Real, derretendo o poder de compra da classe trabalhadora da noite para o dia. A “estabilidade” tucana era uma agonia financiada com juros agiotas e tutela estrangeira sobre o orçamento nacional.

Utilizando o jargão gerencial predileto da direita para mascarar o roubo do patrimônio público, Miguel de Almeida escreve:

“De centro-esquerda, buscou a modernização do Estado, com intenção de superar as amarras getulistas ainda presentes na máquina e na administração.”

Chamar o governo FHC de “centro-esquerda” é um deboche; classificar o crime de lesa-pátria como “modernização” é canalhice. O que o articulista chama de “superar as amarras getulistas” foi, na realidade, a liquidação a preço de banana das riquezas construídas pelo suor de gerações de operários brasileiros para satisfazer o apetite de monopólios estrangeiros.

Em 1997, a maior mineradora do planeta, estratégica para a soberania nacional, foi entregue ao capital privado pelo valor ridículo de R$ 3,3 bilhões — uma quantia inferior ao lucro que a própria empresa gerou poucos meses depois de privatizada. O sistema Telebras foi fatiado e doado em 1998 sob o manto do escândalo do “Grampogate” do BNDES, onde gravações flagraram ministros de FHC articulando para direcionar o leilão e beneficiar consórcios amigos.

Bancos estaduais como o Banespa e empresas de energia elétrica foram rifados. O resultado prático para o povo não foi a modernização, mas sim a demissão em massa de milhares de técnicos e servidores, o encarecimento brutal das tarifas e a destruição dos serviços.

O jornal da família Marinho tenta conferir uma aura de prestígio internacional e sofisticação acadêmica ao ex-presidente:

“Cidadão do mundo, como intelectual teve acesso a ideias e discussões travadas em diferentes universidades europeias e americanas.”

Esse suposto trânsito internacional de FHC traduziu-se na mais humilhante política de submissão externa que o Brasil já testemunhou. Fernando Henrique não agia como um chefe de Estado soberano, mas como um gerente regional do grande capital, dedicado a aplicar a ferro e fogo o Consenso de Washington — a cartilha neoliberal desenhada pelos EUA para espoliar a América Latina.

FHC tentou empurrar goela abaixo do país a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), um tratado comercial desenhado pelo governo norte-americano para anexar economicamente a América Latina, destruindo o parque industrial brasileiro e transformando o país em mero exportador de matéria-prima barata. O símbolo máximo da degradação diplomática da era tucana ocorreu quando o ministro das Relações Exteriores de FHC, Celso Lafer, aceitou tirar os sapatos para ser revistado em uma alfândega de aeroporto nos Estados Unidos.

Ao tratar da aprovação da emenda constitucional que permitiu a reeleição para cargos executivos no Brasil, o colunista adota um tom quase místico, esquivando-se dos fatos criminosos:

“A emenda da reeleição tornou-se uma maldição em todas as instâncias de cargos eletivos. O primeiro atingido pelo mau feitiço foi o próprio FH…”

Não houve “mau feitiço”, “maldição” ou um erro abstrato. O que houve em 1997 foi uma operação de corrupção explícita de Estado montada de dentro do Palácio do Planalto. A emenda da reeleição foi comprada a dinheiro vivo dentro do Congresso Nacional para garantir que FHC continuasse na presidência e concluísse o plano de liquidação das estatais.

Deputados federais da base governista (como Ronivon Santiago e João Maia) foram flagrados em gravações de áudio confessando abertamente que receberam parcelas de R$ 200 mil de governadores e emissários do governo federal para votar a favor da reeleição de FHC. O escândalo que deveria ter resultado no impeachment e na prisão de Fernando Henrique foi sistematicamente abafado por Geraldo Brindeiro, o Procurador-Geral da República blindado pelo governo, que ganhou o apelido nacional e histórico de “Engavetador-Geral da República” por sentar em cima de todas as denúncias contra o tucanato.

Miguel de Almeida encerra o seu artigo atacando a caracterização histórica feita pelos opositores do PSDB no início dos anos 2000, alegando ressentimento político:

“Ao chegar à Presidência, Lula forjou a expressão ‘herança maldita’ para qualificar os governos do tucano. Cuspiu no prato que comeria.”

A expressão “herança maldita” não foi um artifício de retórica eleitoral; foi a constatação óbiva do estado de terra arrasada em que o PSDB deixou o país. O desmonte neoliberal de FHC foi tão criminoso que o Estado perdeu a capacidade mínima de planejar a sobrevivência básica da população.

O símbolo supremo do fracasso absoluto do modelo tucano ocorreu em 2001 com o histórico Apagão Energético. Enquanto o governo focava todas as suas energias em desmontar o setor elétrico para vendê-lo ao capital privado, os investimentos públicos em geração e transmissão de energia foram zerados. O resultado foi o colapso do sistema. O país que FHC dizia ter “modernizado” não conseguia sequer manter as lâmpadas acesas. O governo impôs um racionamento severo de energia, obrigando os trabalhadores a cortar o consumo sob ameaça de multas abusivas e cortes sumários na fiação. Os hospitais, as indústrias e as casas da classe operária pagaram o preço da escuridão privatista.

Até mesmo um defensor confesso de FHC como o articulista d’O Globo é obrigado a admitir, ainda que de forma torta, o impacto das escolhas institucionais daquela gestão:

“Não esqueço sua indicação de Gilmar Mendes para o Supremo — aquele que matou a Operação Lava-Jato e agora trabalha para aliviar os Vorcaros.”

Ao contrário do que sugere o tom anedótico do colunista, a nomeação de Gilmar Mendes para o Supremo Tribunal Federal (STF) em 2002 não foi um desvio casual, mas uma indicação consciente de FHC. Advogado-Geral da União do tucano, Gilmar Mendes foi um dos principais defensores da legalidade dos leilões fraudulentos das privatizações e por esmagar o direito de greve dos trabalhadores — como fez contra os petroleiros em 1995.

Para tentar salvar alguma dignidade do período, o artigo de opinião recorre à velha propaganda oficial do PSDB sobre os ministérios da Saúde e da Educação:

“Seu ministro da Saúde, José Serra, deu ao Brasil os remédios genéricos (…). Paulo Renato, na Educação, obteve a universalização do acesso ao ensino fundamental para crianças entre 7 e 14 anos. Bateu em 97%.”

A realidade vivida pela população pobre nos anos 1990 desmente a frieza dos números maquiados. Os remédios genéricos foram, na verdade, a cortina de fumaça para o congelamento severo das verbas da saúde pública. Foi na era FHC que o Sistema Único de Saúde (SUS) enfrentou sua pior crise de financiamento, com hospitais sucateados, falta crônica de leitos e a introdução de lógicas de privatização disfarçadas de gestão.

A suposta “universalização” de Paulo Renato na Educação foi obtida por meio da política de aprovação automática e do rebaixamento brutal da qualidade do ensino público. Enquanto celebravam matrículas no papel, o governo cortava o orçamento das Universidades Federais, congelava os salários dos professores por oito anos e reprimia com violência as greves da categoria.

O trecho mais revelador do artigo de Miguel de Almeida expõe a verdadeira angústia da imprensa capitalista:

“Diante do time que concorre à Presidência neste 2026, a pergunta que vale ouro: onde erramos? Depois de eleger um intelectual, professor universitário (…), como agora os candidatos só discutem a corrupção Master? FH tinha ideias.”

A pergunta “onde erramos?” resume o desespero da burguesia liberal em 2026. Após apoiarem golpes de Estado, a destruição de direitos com a reforma trabalhista e a ascensão da extrema direita , os capitalistas olham para o tabuleiro eleitoral e percebem que destruíram sua própria representação política tradicional. O PSDB acabou, virou um espectro eleitoral, e a chamada “Terceira Via” é um natimorto político.

A nostalgia por FHC não é a defesa de um homem, mas o lamento de uma classe social que perdeu a capacidade de governar por meio de gerentes “sofisticados” e “civilizados”. Eles têm saudades da época em que podiam saquear o País inteiro, entregar o petróleo e as telecomunicações ao imperialismo, sem que as massas trabalhadoras incendiassem as ruas.

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