Polêmica

A esquerda que não é socialista, mas ‘anticapitalista’

Sob pressão social da classe média, uma esquerda envergonhada vem a público para falar não mais em socialismo, mas em anticapitalismo

Anticapitalismo

O editorial Duas táticas para enfrentar a extrema direita, publicado no sítio Revista Movimento (ligado ao MES-PSOL) neste domingo (10), revela o quanto setores que se dizem revolucionários se afastam do socialismo.

No texto encontramos o termo “esquerda anticapitalista” e isso chama a atenção porque se trata apenas de uma negação, não de uma proposição. Quando a esquerda se diz socialista, está propondo o socialismo, naturalmente, e isso implica em derrotar a burguesia e o sistema que a sustenta: o capitalismo.

“Anticapitalista” é um termo vago. Grupos que defendam que as pessoas vivam em vilas comunitárias, por exemplo, são “anticapitalistas”, e nem por isso são socialistas, não pregam o combate à burguesia e apostam no isolamento, o que é politicamente inócuo.

O uso desse tipo de terminologia expressa uma capitulação, uma tendência da esquerda pequeno-burguesa, que por se apoiar majoritariamente nos setores médios da sociedade, acaba reproduzindo sua ideologia, como a aversão ao comunismo.

A expressão “anticapitalista” nos remete ao título do editorial que fala em “enfrentar a extrema direita”, ou “luta antifascista”. O antifascismo tem servido por alguns setores como disfarce para a defesa da democracia liberal e para políticas de conciliação de classes. Nas últimas eleições presidenciais, como este Diário já demonstrou mais de uma vez, o PSOL foi um dos partidos que, em nome de se derrotar a extrema direita, propôs a união com setores do “campo democrático”. Isa Penna, então deputada, participou em um ato na Avenida Paulista com o MBL e o prefeito João Doria. Guilherme Boulos falava em se formar uma “frente ampla” nos moldes do movimento Direta, Já!, onde o povo tomou uma rasteira da direita.

Oportunismo

O editorial fala sobre a viagem e Lula para se encontrar com Donald Trump e critica a política de terras raras, além de lembrar as derrotas “com a recusa no Senado à indicação de Jorge Messias ao STF e a derrubada do veto de Lula ao PL da Dosimetria”.

Para a MES, o governo “parece não ter tirado lições [das derrotas]”, pois mantém “a tática de conciliação do governo, que busca amenizar os conflitos e cede para setores da direita em busca de apoio parlamentar, mas também eleitoral visando a disputa do próximo outubro”.

“Setores da esquerda anticapitalista têm criticado este método”, continua, pois “tal mecanismo está longe de resolver os problemas econômicos concretos da população brasileira, [e] também não resolve o próprio problema do governo, já que são evidentes as chantagens e traições destes setores da direita como Lula busca compor”.

Apesar dessas críticas, o editorial sustenta que “para enfrentar a extrema direita, é preciso descartar tanto as ilusões nos limites destas tentativas de conciliação como também descartar o sectarismo que pode surgir desse momento contraditório. Apoiar a frente eleitoral de Lula contra a extrema direita e construir um polo crítico da esquerda independente são duas tarefas combinadas. Este é o desafio do ano político de 2026”.

A posição do MES é claramente oportunista, tem em vista apenas as eleições; por isso, pede a seus apoiadores que deixem de lado o “sectarismo”.

Clima e outros clichês

Como não poderia deixar de ser, o editorial aproveita para reclamar do clima, das big techs e da “guerra virtual eleitoral”. Adiante, aproveita para falar da convocação do 1º de Maio.

Segundo o texto, “o problema de convocatória dos atos no 1º de Maio demonstra bem o impasse da situação atual, com possibilidade de mobilização através de pautas concretas, mas também com a letargia do governo e de setores do sindicalismo tradicional. A ausência do ato da Praça da Sé, a falta de convocatórias gerais e a prioridade dada pela CUT e Força Sindical num ato esvaziado no ABC sinalizaram este problema, que não é novo. Vai na contramão dos mais de 70% da população que querem reduzir já a jornada de trabalho. Nas ruas, garagens de ônibus, fábricas, assentamentos, escolas, nas periferias, bairros, por onde se passa, a simpatia pela luta pela derrubada da 6×1 é enorme”.

Que o governo fizesse nada já era esperado. A CUT, por sua vez, vem a cada ano diminuindo a participação e essa convocação para fora da capital paulista é vergonhoso.

Quanto à campanha pela derrubada do 6×1 não é essa enormidade que o editorial prega, nem poderia ser, uma vez que a esquerda não consegue mobilizar nem para o 1º de Maio.

Houve atos separados da esquerda, não se consegue unificar, mas nem é por falta de vontade. Os atos costumam ser muito antidemocráticos. O PCO, por exemplo, precisa brigar pelo microfone se quiser falar no carro de som. É sempre um desgaste.

Esquerda reativa

Outra característica da esquerda é seu caráter reativo, sempre dependente de ações direita para se mobilizar. Em setembro de 2025, por exemplo, saiu às ruas apenas porque a Rede Globo convocou ato contra o Congresso. Desta vez, embarca no noticiário e diz que “é preciso denunciar fortemente a relação da extrema direita, com Ciro Nogueira e os escândalos do Master – a luta pela CPI se inscreve nessa agitação. Assim como desmascarar entidades como a CNI e parlamentares como Kim Kataguiri, que querem barrar a redução da jornada de trabalho”. Lutar por CPI não deve ser uma bandeira da esquerda.

É curioso que o editorial fale “na força das mulheres para conquistar maioria social”, esse setor é o mais atacado pelo identitarismo, que praticamente diz que mulher não existe, se trata apenas de um papel desempenhado, uma espécie de “construto social”.

A única “luta” que a maioria da esquerda tem feito pela mulher é, na verdade, uma campanha para o aumento de penas nesses centros de tortura e degradação humana que são os presídios.

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