Woody Allen é um dos cineastas americanos mais importantes da segunda metade do século XX. Aos 90 anos e com uma extensa carreira como diretor e roteirista, construiu uma cinematografia que retrata, com ironia ferina, as contradições sociais da sociedade americana. Nascido no Brooklyn, fez da cidade o cenário de grande parte de seus filmes e da comunidade judaica nova-iorquina uma fonte permanente de personagens, situações e conflitos.
Recentemente, participei de um debate sobre A Era do Rádio (Radio Days, 1987) e decidi fazer uma pequena reflexão sobre o filme, tentando usar as armas da crítica materialista.
Nesse filme, Allen escolhe a Nova York do final dos anos 1930 e dos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial para acompanhar as aventuras de Joe, um menino judeu, e de sua família da classe trabalhadora. Seguimos o personagem, mas o ponto de vista pertence à sua versão adulta, contemporânea ao lançamento da obra, que narra e comenta aquilo que é mostrado em voice over. É ele quem conduz a história e fornece à audiência o tom dos diversos episódios que giram em torno do impacto do rádio na vida cotidiana naquele momento histórico.
A memória do narrador mostra os aprendizados infantis com humor e leveza, mas também com crítica aguda. No debate em que estive, a escolha de Alen parece ter sido a forma de Amarcord (1973), de Federico Fellini, que, de maneira semelhante, conta as aventuras de diversos habitantes de uma cidade italiana costeira durante o governo de Mussolini. O retorno ao passado é mediado pela memória afetiva e, ao mesmo tempo, pela compreensão mais politicamente lúcida das situações vividas.
Em Allen, o consumo de programas de rádio aparece como o primeiro sintoma de uma sociedade que Gui Debord chamará, nos anos 1960, de espetáculo. Por ele chegam música, notícias, propaganda, aventuras, modelos de comportamento, consumo e sonhos de ascensão social. Décadas depois, a televisão cumprirá função semelhante que, hoje, está a cargo da internet e do celular. Em comum estão os meios de comunicação privados como força fundamental de integração, formação de desejos e manipulação social sob o capitalismo.
Há um contraponto permanente entre a casa modesta da família e o mundo produzido pelas ondas do rádio. De um lado, um grupo numeroso, que trabalha, discute as condições de vida, a religião, sonhos de casamento e pequenos problemas. Do outro, vozes elegantes, artistas, heróis, casas noturnas e vidas aparentemente extraordinárias.
Em uma das cenas, o professor e rabino da escola onde Joe estuda orienta as crianças a arrecadar dinheiro para um futuro Estado judeu na Palestina. Elas recebem cofrinhos e saem às ruas pedindo contribuições. Depois de juntar algum dinheiro, ele e seus amigos resolvem abrir os cofres para comprar doces e brinquedos. Joe está particularmente interessado no anel de um super-herói que acompanha pelo rádio. No entanto, os pais e o rabino descobrem e ele é castigado, sem jamais obter o sonhado talismã.
O filme não se aprofunda naquela campanha de arrecadação, porém a distância entre a criança preocupada com seu brinquedo e o destino histórico daquele projeto abre uma contradição que o espectador contemporâneo dificilmente pode ignorar. Em 1948, aconteceu a colonização da Palestina, o violento episódio de expulsão conhecido como Nakba e a criação do estado israelense. A cena não visa representar a História desse processo, mas sim, deixar que o espectador preencha as lacunas, algo que não tem como deixar de fazer.
Esse mecanismo aparece várias vezes em A Era do Rádio. A História entra pela lateral da vida cotidiana. A II Guerra Mundial e o nazismo chegam pelas notícias, a política aparece numa conversa familiar, os conflitos sociais surgem como pequenas interrupções da vida cotidiana.
No final dos anos 1980, a televisão dominava a cultura de massas e a própria sociedade americana passava por novas formas de consumo e fragmentação. A nostalgia do filme é também a lembrança de uma forma histórica de experiência coletiva. A memória não recupera o passado como ele realmente foi. Ela seleciona e organiza alguns fatos e deixa outros na sombra. Woody Allen transforma essa operação na forma de seu filme e na representação da História em seu enredo.
Ao assisti-lo, especialmente esta cena do anel, comecei a ponderar sobre os reais motivos da perseguição moralista implacável que o cineasta tem sofrido desde o final dos anos 1990. Seja como for, o diretor se mantém firme e continua dirigindo filmes e escrevendo roteiros. Segundo o IMDB, está com planos de começar uma nova produção em outubro, em Madri. Na Europa, ainda encontra um lugar para suas ideias.




