Ascânio Rubi

Ascânio Rubi é um trabalhador autodidata, que gosta de ler e de pensar. Os amigos me dizem que sou fisicamente parecido com certo “velho barbudo” de quem tomo emprestada a foto ao lado.

Coluna

As bondades de Lula e o futuro de Moraes

Se Lula ganhar, Moraes continuará mandando e desmandando, sentado sobre os milhões que recebeu de Daniel Vorcaro

Temos ouvido nas hostes da esquerda que a eleição de Lula contra Flávio Bolsonaro é a escolha entre a civilização e a barbárie, entre a democracia e o autoritarismo, entre Deus e o Diabo. Muitas frases de efeito e pouco conteúdo político marcam a luta encarniçada do PT para se manter no poder. Vale tudo, desde as proverbiais “bondades” às vésperas do pleito até as outrora condenáveis “fake news”, sem deixar de lado aquela mãozinha amiga do Judiciário – afinal, quem tem padrinho não morre pagão.

Depois de anunciar um reajuste de 15% no Bolsa Família a 17 dias da votação, Lula empenhou-se em comprar dívidas da população e proibir os sites de apostas no Brasil. As canetadas, por certo, respondem às pesquisas de intenção de voto, instrumento que parece ter substituído o contato com o povo.

Os beneficiários do Bolsa Família, gente humilde que acha que recebe um favor do governo, dificilmente reivindicariam o reajuste da pensão de acordo com a inflação. Essa é a parcela mais vulnerável da população, que, sem poder de barganha, viu seus vencimentos serem corroídos pela inflação durante todo o governo de uma esquerda empenhada em aparecer como “civilizada”. Pesquisas detectaram, porém, grande parte dos inscritos no programa com intenção de votar no representante da “barbárie”. Eis um bom motivo para dar um agrado ao pessoal.

A data próxima ao pleito, no entanto, poderia fazer parecer uso da máquina do governo para, indiretamente, comprar votos. Antes que alguém ousasse questionar isso, o ministro Gilmar Mendes, da tropa de choque do STF, no melhor estilo da retórica jurídica, explicou que não houve “aumento real”, mas apenas “reposição de inflação”, o que livra Lula de estar incorrendo em irregularidade. É claro que é positivo conceder o reajuste, mas o presidente se esqueceu de incluí-lo no orçamento de 2027, ou seja, não havia intenção de fazê-lo. Tudo indica que a motivação de última hora foi mesmo a pesquisa eleitoral.

A intempestiva proibição das “bets” e o programa “Desenrola 3.0” foram anunciados na sexta-feira, 26 de setembro, pouco antes do encontro de Lula com empresários. Diga-se que eram esperados 200 convidados para o jantar, mas foi preciso botar água no feijão e mudar o local da recepção para acomodar um grupo de 770 convivas. O pacote de bondades para os endividados, que se distribuem em muitas categorias – entre as quais ludopatas viciados em “bets”, ex-bolsistas com dívida junto à Capes e ao CNPq, MEIs, empregadores (pessoas físicas ou jurídicas) com até R$ 45 milhões em débitos inscritos em dívida ativa do FGTS ou da Contribuição Social devida à União – agrada especialmente ao grupo que se acotovelava para ouvir as promessas de Lula em um buffet da Faria Lima.

O Desenrola 3.0 transfere cerca de R$ 150 bilhões para os bancos, o que destrava o dinheiro retido a título de “provisão para devedores duvidosos” (PDD). A coisa funciona mais ou menos assim: quando um cliente pobre, que não tem bens para dar como garantia, atrasa uma dívida, o banco é obrigado a pegar uma parte do seu lucro real e carimbar como PDD. Esse dinheiro sai do caixa que seria distribuído como dividendo para os donos e acionistas do banco e fica trancado em uma conta de reserva para cobrir o eventual calote. Se a inadimplência sobe muito, bilhões de reais que iriam para o bolso dos donos do banco ficam imobilizados, não podendo gerar lucros. Daí a pressão do setor, que acaba sendo o grande beneficiário do programa de compra da dívida do povo.

Os endividados limpam o nome e podem começar a contrair novas dívidas, o que interessa ao sistema financeiro, desde que não sejam dívidas de jogo.  A desculpa é que o dinheiro gasto em apostas não é produtivo. Rigorosamente, é tão improdutivo quanto o dinheiro dos rentistas, mas com uma diferença. Como as “bets” são empresas estrangeiras, o dinheiro perdido pelo jogador sai do país e o sistema bancário brasileiro não ganha nada. As duas medidas, proibição das “bets” e compra de dívidas, são apresentadas como preocupação com o povo, o que convém à campanha eleitoral, mas, como se vê, o buraco é sempre um pouco mais embaixo.

Muito preocupado com o endividamento da população, Lula disse no podcast Flow que pretende baixar mais uma proibição: “Nós estamos discutindo com o Banco Central. Nós vamos proibir os bancos de darem mais de um cartão de crédito para as pessoas”. Baixar os juros, que é bom, nada. Criar empregos decentes e garantir proteção ao trabalhador, nada. A culpa é sempre do povo, que não sabe economizar como a dona Lindu, que perde dinheiro em jogo, que é consumista, que gasta no cartão de crédito. Lula se parece, cada vez mais, com os “coxinhas” do PSDB, que um dia, no passado, foram seus opositores.

Mesmo com todas as “bondades” (abençoadas pelos banqueiros), as pesquisas teimam em mostrar empate com o filho de Jair Bolsonaro. Nem mesmo a fake news da Padroeira do Brasil, lançada às vésperas do feriado de 12 de outubro, quando os romeiros já se preparam para a peregrinação ao Santuário de Aparecida, parece ter surtido o efeito desejado. Serviu, isto sim, para que teólogos de botequim da imprensa “progressista” explicassem que Flávio Bolsonaro, ao dizer que, se eleito, faria do Brasil o país de Jesus Cristo, pretendia destronar Nossa Senhora e transformar o país em uma república teocrática. Segundo os identitários, o problema de Flávio com Nossa Senhora seria o fato de ela “ser uma mulher negra” – essa turma é muito criativa ou ignora que é a imagem encontrada no fundo do rio que é escura, porque, feita de terracota, enegreceu em contato com a água.

Pior que a mentira sobre a santa, que seria apenas uma versão pudica da “mamadeira de piroca”, é a participação do STF na história toda: o TSE manda vetar – afinal, aprendemos com Alexandre de Moraes que fake news são motivo para inquérito, perseguição ou cadeia – e o STF manda liberar. Digamos de outra forma: André Mendonça (vice-presidente do TSE) veta, e Flávio Dino corrige o colega, liberando o material. A conclusão é que, como tudo o que o STF julga, a punição ou a absolvição depende de quem comete o suposto crime. Essa fake news foi “do bem”, para prejudicar o candidato “fascista”, logo não é “crime”.

Por fim, o debate da Rede Globo fez água, o que não deixa de ser muito divertido como resultado. O problema é o envolvimento do quarteto do STF como defensor da candidatura de Lula, que, na última hora, desistiu de comparecer. Primeiro, Gilmar Mendes manda incluir Renan Santos entre os debatedores, mesmo contrariando a regra que exclui todos os candidatos de partidos pequenos sem número mínimo de representantes no Congresso. Seria muito interessante que o “decano” exigisse, então, a presença de todos os candidatos, mas ele queria só o Renan Santos. Motivo? A estratégia era pôr no ar um candidato boca-dura, que atacasse Flávio Bolsonaro.

Depois, foi a vez de a ministra Estela Aranha, do TSE, determinar que a Rede Globo retirasse o “púlpito” vazio de Lula do cenário e proibisse os participantes de se dirigirem ao candidato ausente. Antes, é bom que se diga, Kássio Nunes Marques tinha exigido a presença de Zema, que, em franco declínio, não tinha sido convidado. Com a decisão de Estela Aranha, que já foi assessora especial da Presidência da República neste governo Lula e secretária nacional de Direitos Digitais do Ministério da Justiça durante a gestão de Flávio Dino, a Globo decidiu suspender o programa.

O STF entrou de cabeça na eleição deste ano porque do resultado das urnas depende o futuro de Moraes. E tudo leva a crer que, se Lula ganhar, Moraes estará salvo e continuará mandando e desmandando, sentado sobre os milhões que recebeu de Daniel Vorcaro.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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