Neste 21 de setembro completaram-se 12 anos da Revolução Iemenita. Em 2014, uma mobilização popular dirigida pelo Ansar Alá entrou em Saná e derrubou a velha ordem subordinada à Arábia Saudita. Desde então, o Iêmen, tratado durante décadas como dependência de Riade e de Washington, enfrentou a maior potência militar imperialista, atacou “Israel” e passou a controlar uma das rotas marítimas mais importantes do mundo.
O Iêmen já estava arruinado quando o levante começou. O governo de Abd Rabbuh Mansur Hadi havia sido formado sob a tutela do Conselho de Cooperação do Golfo depois da queda de Ali Abdullah Saleh, em 2011. Apresentado como uma transição democrática, o novo regime preservou o aparelho de Estado, a influência saudita e o domínio de uma pequena camada de privilegiados. Para os trabalhadores e camponeses, permaneceram a miséria e a repressão.
Em julho de 2014, o governo retirou subsídios aos combustíveis para atender às exigências do Fundo Monetário Internacional. O aumento atingiu o preço do transporte, da água e dos alimentos. O Ansar Alá convocou manifestações contra a medida, contra a corrupção e contra a submissão do país ao exterior. O protesto cresceu entre os pobres de Saná e recebeu o apoio de tribos, agricultores, trabalhadores urbanos e jovens que já conheciam a repressão do regime.
As forças revolucionárias entraram na capital em 21 de setembro. O primeiro-ministro Mohamed Basindawa renunciou e os combatentes ocuparam edifícios públicos e instalações militares. Em janeiro de 2015, depois de tentar conservar um governo cada vez mais isolado, Hadi e seus ministros também renunciaram. Hadi fugiu posteriormente para Áden e, em seguida, para a Arábia Saudita, de onde pediu uma intervenção estrangeira para recolocá-lo no poder.
Hadi tornou-se o chefe do chamado “governo reconhecido internacionalmente”, sustentado por aviões, armas e dinheiro estrangeiros. Seus dirigentes passaram longos períodos em hotéis de Riade. Em 2022, ele transferiu os poderes a um conselho presidencial formado sob pressão saudita. O atual chefe dessa administração, Raxade Al-Alimi, continua instalado na capital da monarquia e depende de sua força militar para disputar o país.
A guerra saudita contra o povo iemenita
Em 26 de março de 2015, a Arábia Saudita iniciou a invasão. A coalizão reunia monarquias do Golfo e outros governos árabes, com armas, manutenção, informações e apoio político dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha e da França. Os sauditas prometiam destruir o Ansar Alá em poucas semanas. Passados mais de 11 anos, a monarquia não conseguiu devolver Saná aos seus protegidos.
Os ataques atingiram casas, escolas, mercados, hospitais, casamentos, funerais, estradas e instalações de abastecimento. O porto de Hodeida foi submetido a um bloqueio, o aeroporto de Saná ficou fechado para voos comerciais e a importação de comida, combustível e medicamentos foi restringida. A fome deixou de ser apenas uma consequência da guerra e passou a funcionar como arma contra toda a população.
O armamento usado nesses crimes vinha das potências imperialistas. Em janeiro de 2022, uma bomba guiada GBU-12, fabricada pela norte-americana Raytheon, atingiu um centro de detenção em Saada. A Anistia Internacional informou que pelo menos 80 pessoas morreram e mais de 200 ficaram feridas. Ao examinar os destroços, a organização identificou o artefato e declarou que Estados Unidos, Grã-Bretanha e França compartilhavam a responsabilidade pelas violações ao abastecer a coalizão saudita.
A máquina militar mais cara da região tentou esmagar combatentes que, no início da revolução, dispunham principalmente de fuzis, caminhonetes e armas tomadas ao Exército. A resistência dependia de sua base social. Seus homens saíram das aldeias e bairros pobres, das tribos atacadas pelo antigo governo, das plantações e dos locais de trabalho. Lutavam em seu próprio país contra uma ocupação estrangeira e contra dirigentes reconhecidos pelo povo como agentes de Riade.
Os sauditas compraram aviões, bombas e mercenários, mas nunca formaram uma força iemenita capaz de combater com a mesma disposição. As tropas subordinadas ao governo fantoche fragmentaram-se entre facções financiadas pela Arábia Saudita e pelos Emirados Árabes Unidos. A resistência conservou Saná, ampliou sua presença no norte e passou a dirigir a região mais populosa do país.
Do fuzil aos mísseis balísticos
Durante os combates, o movimento incorporou unidades do antigo Exército e recebeu o apoio da Revolução Islâmica iraniana. Passou a produzir e operar drones, mísseis de cruzeiro, mísseis balísticos e armamentos navais. A ajuda iraniana foi decisiva, mas não explica sozinha a resistência: as armas estavam nas mãos de uma população submetida à fome e aos bombardeios.
As tropas iemenitas deixaram de apenas defender cidades e passaram a atingir bases militares, aeroportos, oleodutos e instalações petrolíferas no interior da Arábia Saudita. A guerra chegou a Najrã, Jizã, Assir e aos centros econômicos da monarquia. Operações contra instalações da Aramco mostraram que Riade não poderia bombardear impunemente o Iêmen sem expor sua própria economia.
Em 2022, a Arábia Saudita aceitou uma trégua mediada pelas Nações Unidas. Os combates não terminaram por completo e o bloqueio continuou sob outras formas. Riade, que iniciara a guerra prometendo uma vitória rápida, teve de negociar com o movimento que pretendia eliminar. O Ansar Alá não entregou Saná, não desarmou suas forças e não reconheceu a autoridade do governo fantoche.
A Revolução Iemenita ligou-se ao Eixo da Resistência, formado pelo Irã e pelas organizações que combatem o imperialismo e o sionismo na região. Depois de 7 de outubro de 2023, essa ligação tornou-se uma ação militar direta em defesa da Palestina. Enquanto os governos árabes mantinham relações com “Israel” ou se limitavam a discursos, o Iêmen entrou na guerra.
O bloqueio a “Israel” e a derrota dos Estados Unidos
O Ansar Alá lançou mísseis e drones contra o território ocupado, atingiu a região de Um Raxraxe, chamada de Eilat pelos sionistas, e anunciou restrições à passagem de navios ligados a “Israel” pelo Mar Vermelho. O estreito de Babelmândebe, por onde circula uma parcela decisiva do comércio internacional, tornou-se uma frente da guerra de Gaza. O porto israelense de Eilat perdeu grande parte de seu movimento e companhias marítimas desviaram suas rotas para contornar a África.
Estados Unidos e Grã-Bretanha responderam com uma campanha de bombardeios. Navios, submarinos e aviões das maiores potências militares atacaram um dos países mais pobres do planeta, mas não conseguiram interromper as operações iemenitas. O Ansar Alá disparou contra embarcações de guerra, manteve a pressão sobre “Israel” e obrigou Washington a procurar uma saída.
Em 6 de maio de 2025, o Ministério das Relações Exteriores de Omã anunciou um acordo entre os Estados Unidos e forças revolucionárias iemenitas. Pelo entendimento, “nenhum dos lados atacará o outro, inclusive os navios norte-americanos no Mar Vermelho e no estreito de Babelmândebe”. Washington suspendeu os bombardeios, e o Ansar Alá garantiu a passagem dos navios norte-americanos.
O acordo não incluiu “Israel”. Os iemenitas deixaram claro que continuariam atacando o território ocupado e os navios ligados ao Estado sionista enquanto durasse a agressão contra Gaza. O governo de Netaniahu recebeu a notícia como uma derrota: seu principal aliado negociara separadamente e abandonara uma campanha militar que deveria proteger a navegação israelense.
Os Estados Unidos bombardearam o país durante dois meses em 2025 sem alcançar seus objetivos. Ao final, aceitou a condição de não voltar a atacar o Iêmen. Uma organização nascida entre os setores paupérrimos da Península Arábica havia imposto ao imperialismo os limites de sua atuação no Mar Vermelho.
A ofensiva gloriosa de 2026
No mês do décimo segundo aniversário da revolução, o Ansar Alá lançou uma nova ofensiva. Suas tropas romperam as linhas sustentadas pela Arábia Saudita e libertaram cidades e ilhas da costa do Mar Vermelho. A tomada do porto de Moca, da ilha de Perim e das ilhas Hanixe fortaleceu a posição iemenita diante de Babelmândebe. As forças do governo fantoche recuaram, abandonando veículos e armamentos.
Depois de assegurar a costa, os combatentes avançaram em direção às montanhas de Cabube, entre as províncias de Taiz e Lahije. O domínio dessas alturas ameaça separar as tropas apoiadas pelos sauditas que ainda permanecem no sul e abre caminho para novas operações em direção a Áden. Segundo a Reuters, os ataques aéreos sauditas não conseguiram retirar o Ansar Alá das posições conquistadas.
O porta-voz militar Iahia Saria anunciou ataques com drones e mísseis contra o porto petrolífero de Iambu e a base aérea de Camis Muxait. O movimento também declarou ter lançado mísseis contra Riade. A Arábia Saudita acionou alertas em diversas cidades e pediu apoio militar direto a Washington.
Mohamed bin Salman telefonou repetidas vezes a Donald Trump. O presidente norte-americano, porém, recusou-se até agora a entrar diretamente na nova fase da guerra. Segundo relato do New York Times reproduzido pela Reuters em 21 de setembro, Trump chegou a preparar bombardeios, mas cancelou a operação quando as bombas já seriam carregadas nos aviões. A agência declarou não ter confirmado o episódio por conta própria. Um ataque pode levar ao fechamento completo de Babelmândebe, provocar novos golpes contra a infraestrutura petrolífera saudita e abrir uma guerra impossível de encerrar rapidamente.
Os demais parceiros de Riade também evitam lançar tropas contra o Ansar Alá. As monarquias e os governos que participaram da coalizão de 2015 sabem que suas cidades, bases militares, portos e instalações petrolíferas podem ser alcançados pelos mísseis iemenitas. A Arábia Saudita ficou à frente de uma força muito menor, sustentando uma administração antipopular e ilegítima e pedindo que os Estados Unidos façam o trabalho que seus soldados não conseguiram realizar.
Hoje, os combates continuavam nas montanhas que protegem as novas posições iemenitas no Mar Vermelho. O movimento que entrou em Saná com armamento limitado dirige hoje a capital, administra as áreas onde vive a maior parte da população e domina uma extensa faixa costeira junto aos acessos de Babelmândebe. Incapaz de recuperar esses territórios, Riade passou o aniversário tentando convencer o imperialismo a intervir novamente.
Viva a Revolução Iemenita! Vida longa ao Ansar Alá! Abaixo o imperialismo e seus fantoches!





