As grandes crises políticas não começam necessariamente com as massas dominando as ruas. Muitas vezes, começam por cima, quando a classe dominante deixa de conseguir governar como antes. Esse ponto é decisivo para compreender a situação europeia.
Antes da tomada da Bastilha na França, houve uma crise na própria monarquia, aberta pela revolta da aristocracia contra o poder real. Na Rússia, antes da Revolução de 1917, a guerra provocou uma crise profunda no interior do regime czarista. A burguesia já discutia a substituição da monarquia, acusada de comprometer a política de guerra.
A crise por cima mostra que o velho mecanismo de dominação perdeu sua eficácia. É isso que se vê hoje nos países imperialistas.
A queda de governos, o esgotamento dos partidos tradicionais, o crescimento da extrema direita e a necessidade de partidos improvisados são manifestações da mesma crise.
Por isso, a defesa do “centro” como saída para a crise é uma ilusão. Os partidos de direita e de esquerda que perseguem o centro político são justamente os partidos em decomposição. Na Inglaterra, trabalhistas e conservadores estão em crise. Na França, os partidos tradicionais foram reduzidos a forças secundárias. Na Itália, foram destruídos e substituídos por improvisações. Na Alemanha, a coalizão tradicional também se desgasta.
O “centro” não é a solução. É o setor mais diretamente identificado com as políticas que levaram à crise.
O esgotamento dos partidos tradicionais tem uma causa material. O capitalismo não consegue resolver sua própria crise. Os governos imperialistas responderam ao declínio econômico com ataques aos trabalhadores: corte de direitos, destruição de serviços públicos, redução de benefícios sociais, ataques à previdência e arrocho salarial.
As conquistas obtidas no período posterior à Segunda Guerra Mundial vêm sendo demolidas. O chamado Estado de bem-estar social, apresentado durante décadas como prova da superioridade do capitalismo europeu, tornou-se alvo permanente da burguesia. Cada governo é pressionado a cortar mais, privatizar mais e transferir recursos aos grandes capitalistas.
Os partidos tradicionais passaram a representar essa demolição. Conservadores, social-democratas, liberais e trabalhistas aplicaram, com ritmos diferentes, a mesma política de fundo. Isso explica o ódio crescente da população contra essas organizações.
A extrema direita aproveita esse desgaste. Apresenta-se como oposição ao regime, mas não rompe com o capital financeiro. Seu programa real é preservar a burguesia, desviando a revolta popular contra imigrantes, minorias e países pobres. É uma falsa oposição, mas cresce porque os antigos partidos perderam autoridade.
A esquerda que se adapta ao centro também é arrastada pela crise. Quando abandona a defesa dos trabalhadores para administrar o Estado burguês, passa a ser vista como parte do mesmo sistema que ataca salários, direitos e serviços públicos. Foi o que ocorreu com a social-democracia europeia.
A burguesia tenta substituir partidos gastos por novas organizações. Mas um partido político não se forma de uma hora para outra. Esses partidos podem vencer eleições em momentos de crise, mas tendem a se desgastar com rapidez. O caso de Macron é exemplar. Seu partido nasceu como uma operação do capital financeiro francês. Em pouco mais de um mandato, já estava reduzido a uma força desgastada, sem a autoridade necessária para reorganizar o regime.
A Itália mostra o mesmo processo de maneira ainda mais desenvolvida. Depois da destruição dos antigos partidos, a burguesia passou de uma improvisação a outra. Cada substituto durou menos que o anterior. O resultado foi a ascensão de um partido de origem fascista ao governo.
Na Inglaterra, o partido de Nigel Farage pode cumprir função semelhante. Pode servir como válvula de escape para a crise dos conservadores e dos trabalhistas. Mas não resolve o problema fundamental. A crise não está apenas na direção de um partido. Está no próprio regime político do imperialismo.
A escolha de Keir Starmer pelo Partido Trabalhista foi uma tentativa de restaurar a confiança da burguesia. Ele não era uma figura qualquer. Foi colocado à frente do partido depois da ofensiva contra a ala esquerda de Jeremy Corbyn. Era um homem de confiança do regime britânico, ligado à política imperialista, defensor do sionismo e completamente submisso aos serviços de inteligência.
Seu fracasso é, por isso, ainda mais significativo. Se uma figura escolhida para estabilizar o Partido Trabalhista termina arrastada pela crise, isso mostra que o regime já não consegue produzir estabilidade nem com seus quadros mais confiáveis.
O fim do bipartidarismo britânico, caso se confirme, será um acontecimento de alcance internacional. Ele indicará que um dos principais modelos políticos do imperialismo entrou em decomposição aberta.





