Uma das maravilhas da imprensa brasileira é transformar um Luiz Felipe Pondé em “filósofo”. Seus textos carecem totalmente de profundidade. Isso fica bastante explícito no artigo Podemos escolher entre dois galinheiros, o do Lula ou o dos Bolsonaros, publicado na Folha de S. Paulo neste domingo (28).
De início, o “filósofo” argumenta que “o simples fato de que Lula —ou qualquer outro presidente de qualquer outro partido— pode ser reeleito no Brasil “n” vezes para o primeiro cargo da República prova que somos uma República das bananas. Trata-se de uma anomalia republicana. Neste momento, parece não haver esperança política para o Brasil no horizonte. Brasília é uma Babilônia.”
O que Pondé tem a dizer da Alemanha, ou do Reino Unido, uma vez que o cargo de primeiro-ministro pode ser ocupado pela mesma pessoa/partido indefinidamente, serão repúblicas bananeiras?
Pondé, que é sionista, deveria ter pensado melhor antes de escrever, pois em “Israel” o primeiro-ministro pode se reeleger quantas vezes conseguir.
Criminalização da política
Outra ideia perniciosa de Pondé, e de senso comum, é criminalizar a política, por isso escreve que “seremos enganados pela gangue do PT por décadas sob a ladainha de que ‘progressista corrompe para o bem’ ou seremos objeto de líderes incapazes – os Bolsonaros. E, também, seremos vítimas dos abusos do STF que tem no Brasil o seu quintal. Enfim, a grande virtude do povo brasileiro parece ser não desesperar da vida diante de tantos delinquentes que assolam as elites do país.” A criminalização, além de rebaixar o debate, busca criar aversão nas pessoas à política para que esta fique restrita aos setores mais ricos da sociedade.
O texto, claramente, reflete a política da burguesia por um candidato de terceira via: nem Lula, nem Bolsonaro. Essa mesma que tem se repetido em editoriais dos demais órgãos da grande imprensa. Por isso diz que “talvez, a única forma menos indecente de votar esse ano seria recusar ambos.”
O “filósofo” critica tanto a esquerda quanto a direita. Alega que “ caso do Lula – ou qualquer outro presidente por décadas – poder ser reeleito até chegar à condição de faraó imortal do país é gritante.” Pelo outro lado, diz que “a direita, por sua vez, se afoga na herança maldita de uma família, os Bolsonaros, que se arvorou, com palmas da maior parte daqueles que se dizem conservadores, no direito de também ter um galinheiro para chamar de seu.”
A conclusão genial de Pondé se resume a dizer que “a democracia brasileira hoje pode escolher entre dois galinheiros: o do Lula ou o dos Bolsonaros.” De qualquer maneira, não se pode esperar algo melhor de alguém que “brilhantemente” escreveu que “mulher gosta de dinheiro”.
A filosofia
Para tentar se apoiar em alguma coisa, Pondé recorre aos grandes filósofos que, segundo ele, têm criticado a reeleição. Cita vagamente que “para citar alguns poucos famosos, Aristóteles, Montesquieu, Rousseau, Tocqueville e mesmo Karl Popper, epistemólogo, todos eram contra, de uma forma ou de outra, a ideia de que representantes do povo se eternizassem no poder.”
Pondé parece não gostar muito do povo nem da democracia, tanto que questiona: “Quem disse que, num regime numérico como a democracia, deveríamos esperar outra coisa além da estupidez em grande escala?” Talvez prefira algo mais aristocrático no governo. Resta ainda saber de onde tira tanta arrogância, pois seus textos não revelam nenhuma superioridade.
Tentando parecer culto, Pondé fez uma bela salada mista de personagens que pouco têm em comum, seja no tempo em que viveram, seja na realidade política de seu tempo.
Aristóteles não tinha medo de “reeleição”, pois na Grécia os cargos eram muitas vezes sorteados e duravam, em alguns casos, poucos meses. Seu medo era que se formasse uma oligarquia, como esta, que a Folha de S. Paulo defende, representa, e que encomenda textos a Luiz Felipe Pondé, que, nesse sentido, não passa de uma caneta de aluguel.
Rousseau, por exemplo, estava em total oposição ao articulista, que cita autores para tentar dar um verniz de autoridade a seu texto. O suíço argumentava que quando os cidadãos se reúnem para votar as leis pensando no bem comum, eles manifestam a Vontade Geral. Expressando assim a soberania popular, para ele sagrada, indivisível e infalível (quando o povo está bem informado).
Pensamento raso
Pondé tenta extrair um denominador comum entre os nomes que citou. A reeleição redundaria na “corrupção do caráter do líder [e na] corrupção institucional do Estado”; no entanto, é sabido que a corrupção nunca foi, desde sempre, um problema em política.
Nesse mesmo parágrafo, o articulista diz que “quando um mesmo líder e seu partido permanecem muito tempo no poder, necessariamente ele colonizará o Estado de tal forma que, por anos, mesmo se não reeleito, o Estado será deles”, e isso significa que ignora, ou finge, que o Estado é de propriedade do grande capital, da burguesia, e os políticos apenas cuidam de seus interesses.
Ninguém, nenhum partido, vai “colonizar” o Estado ou tomá-lo para si. Isso está fora de questão. Aliás, as punições de casos de corrupção aparecem exatamente quando a burguesia que controlar ou se livrar de determinadas figuras políticas.
Filosofia de botequim
Luiz Felipe Pondé, mais para o final de seu texto, afirma que “política e mentira andam de mãos dadas desde sempre, sendo a diferença específica da democracia nessa parceria, apenas, o fato de que na democracia mentir está ao alcance de todos. Democratizamos a mentira, que passou a ser um direito universal de todo cidadão.” Mas a mentira é inerente à vida. Quem nunca disse a uma criança que Papai Noel existe e que o Coelhinho da Páscoa traz ovos de chocolate? A única maneira de se combater a mentira é falar a verdade. Em política não será diferente.
Vale lembrar que a “Nobre Mentira” de Platão ou o realismo de Maquiavel tratam a mentira na política como uma ferramenta de estabilidade do Estado, e não como uma “invenção da democracia”.
O autor alega que “a polarização enquanto tal nos remete ao fato de que o conjunto social tende à pobreza semântica, ou dito de outra forma, tende à estupidez.” Ocorre que a polarização política não é uma escolha, mas o resultado da luta de classes. Por outro lado, ficar falando em “galinheiro”, “gangues”, é exatamente esvaziamento semântico e estupidez.
Ao criticar dois polos opostos, Pondé está defendendo, embora não confesse, um terceiro que, na verdade, é muito mais reacionário, bem ao gosto da Folha de S. Paulo que, como se sabe, até auxiliou a repressão na ditadura militar.





