Em artigo de opinião publicado pelo Poder360 em 17 de abril, sob o título Má ideia, o jornalista Janio de Freitas sustenta que o uso do conceito de “polarização” “distorce a realidade e simplifica de forma equivocada o debate político brasileiro”. No centro do texto está a afirmação de que “a polarização atual não passa da divergência política limitada ao legal”, isto é, não seria um fenômeno social profundo, mas apenas uma criação da imprensa.
Ao atacar a própria ideia de polarização, o articulista ajuda a esconder a realidade fundamental da situação brasileira: o País vive uma intensificação objetiva do conflito entre classes sociais antagônicas, num momento em que a crise internacional do imperialismo, as guerras, a pressão econômica externa e a decomposição das instituições nacionais empurram a vida política para antagonismos cada vez mais abertos.
Janio afirma que a noção de polarização, “introduzida na política nos últimos 10 anos ou pouco mais”, seria em larga medida uma importação e, em muitos casos, “fraude quando não é desconhecimento impróprio”. De fato, a imprensa burguesa recorre a modismos e falsificações. Mas daí não decorre que a polarização seja uma ficção.
O Brasil não está polarizado porque comentaristas repetem a palavra. A palavra se impôs precisamente porque a realidade nacional entrou em uma fase de crise. O aprofundamento da submissão ao capital financeiro, a deterioração das condições de vida da população, a corrosão da autoridade das instituições, a ofensiva reacionária da burguesia e a pressão imperialista sobre toda a América Latina criam as condições para um confronto político mais duro.
O próprio artigo de Janio oferece elementos que apontam nessa direção, embora ele não extraia essa conclusão. Ao final do texto, o jornalista observa que a “desarticulação dos Poderes” e seus “efeitos deletérios” seriam produto “do domínio da política pelo interesse financeiro e do ultraconservadorismo dos setores poderosos”. Ora, se a política está dominada pelo interesse financeiro e pelos setores mais reacionários da classe dominante, então não se está diante de uma simples divergência rotineira entre opiniões legais e institucionais. Está-se diante de um regime cada vez mais capturado por interesses incompatíveis com as necessidades da maioria da população.
É justamente aí que a polarização se enraíza. De um lado, estão os representantes do imperialismo, do mercado financeiro, do aparato repressivo e das frações mais parasitárias da burguesia nacional. De outro, ainda que de maneira contraditória e desigual, estão os trabalhadores, a juventude, os setores populares empobrecidos e todas as camadas sociais golpeadas pela crise.
Janio tenta sustentar sua posição dizendo que a história republicana do Brasil sempre foi marcada por fortes contraposições, lembrando a Revolução de 1930, o golpe de 1937, a crise que levou ao suicídio de Getúlio e o golpe militar de 1964. Mas essa lembrança histórica, em vez de desmentir a polarização atual, confirma que os grandes momentos da política brasileira se desenvolveram justamente através de conflitos agudos entre forças sociais inconciliáveis.
A diferença do momento atual não está na inexistência da polarização, mas na forma particular que ela assume. O articulista escreve que a situação de hoje “não passa da divergência política limitada ao legal, com o risco de punição ao desrespeito a esse limite”. Essa formulação é profundamente enganosa. A legalidade é apenas a forma provisória de mediação do conflito. Quando a crise social se aprofunda, mesmo os mecanismos legais passam a funcionar como instrumentos de luta política entre campos opostos.
É nesse sentido que a tentativa de normalizar o quadro brasileiro serve à conservação de um regime já apodrecido. Janio escreve ainda que “o golpismo bolsonarista recebeu a resposta da normalidade em grau sem precedente”. A ideia de que a “normalidade” respondeu ao golpismo parte de uma idealização do regime. O que se viu nos últimos anos não foi uma restauração equilibrada da vida institucional, mas o aprofundamento da crise e do autoritarismo, sempre com a população sendo chamada a aceitar como “normal” um sistema cada vez mais incapaz de representar qualquer interesse popular.
A palavra “polarização”, nesse quadro, se torna incômoda justamente porque revela demais. Ela indica que o centro político tradicional está se desfazendo, que as velhas formas de conciliação perderam eficácia e que o regime já não consegue apresentar seus interesses particulares como se fossem interesses de toda a sociedade.





