Europa

Protestos colocam regime político francês contra a parede

Pouco após indicar novo primeiro-ministro, o já debilitado governo Macron enfrenta mais uma onda de manifestações

Desde semana passada, agricultores franceses vêm intensificando os protestos contra as políticas do governo para o setor. A FNSEA (na sigla em inglês, Federação Nacional Francesa dos Sindicatos de Produtores Agrícolas) anunciou que 41 mil tratores participaram das manifestações que ocorreram por todo o país na sexta-feira, 26. Os protestos já alcançaram quase 90% dos departamentos franceses (equivalentes aos municípios brasileiros), com bloqueios de várias estradas importantes. A rodovia AP-7, por exemplo, é a principal estrada que liga a França à Espanha e afeta cerca de 20 mil caminhões que fazem a viagem diariamente. Os piquetes, realizados com tratores estacionados, pilhas de lixo e estrume e manifestantes com cartazes, obstruíram as estradas A1, A6, A10, A11, A11, A13, A15, N3 e N118 no entorno de Paris, entre outras. Também a via principal entre Lile, na fronteira com a Bélgica, e Paris, foi interditada. Segundo a BFMTV, mais de 70 mil pessoas participaram das manifestações de sexta-feira.

O primeiro-ministro francês, recém nomeado em janeiro por Macron, Gabriel Attal, fez um pronunciamento na sexta-feira para responder às reivindicações do movimento. Ele declarou que colocará os problemas da agricultura como prioridade máxima. Entre as concessões anunciadas estão a diminuição do preço dos combustíveis e a simplificação de regulamentações visando aumentar a competitividade do mercado agrícola francês. Attal também afirmou que a França será contra o acordo de livre-comércio entre a União Europeia e o Mercosul, já que setores importantes da manifestação consideram que o tratado os prejudicará. Apesar disso, lideranças das organizações que coordenam o movimento rapidamente responderam que a resposta do governo é insuficiente e os protestos continuarão e se intensificarão na próxima semana. Segundo a Associated Press, os manifestantes prometeram bloquear o tráfego no entorno de Paris, a começar nesse domingo, 28. Laurence Marandola, porta-voz da Confederação Camponesa, comunicou à rádio RTL que acontecerão mais manifestações nas estradas e em frente a supermercados. O ministro da agricultura Marc Fesneau chamou os acontecimentos de “uma séria crise”.

No entanto, a crise francesa não é isolada nem começou agora. Recentemente ocorreram protestos semelhantes na Alemanha, onde os manifestantes realizaram bloqueios de estradas e manifestações de rua em várias cidades importantes, incluindo Berlim, Hamburgo, Colônia e Brémen. Também neste mês houve mobilizações na Polônia, Romênia e na Bélgica. As reivindicações são comuns a todas elas: diminuição dos preços dos combustíveis, subsídio para produção agrícola e contra a política da União Europeia, que os manifestantes consideram como injusta na competição do mercado mundial. Antes disso, porém, desde 2022 já ocorreram grandes mobilizações com o mesmo caráter em alguns desses países, além de Holanda e Espanha. Um fator político que alimenta essa revolta é a propaganda ambientalista, que aparece identificada com a diminuição dos subsídios e o aumento dos custos do setor. Outra questão comum entre esses países é o grande influxo de mercadorias competidoras a preços baixos vindas da Ucrânia.

O que toda essa situação revela é que a crise do imperialismo vem aumentando a pressão sobre os próprios povos de seus países e de setores médios de suas burguesias. A situação atual da França está diretamente ligada a essa crise, muito agravada desde o início da operação militar russa na Ucrânia em 2022. As sanções levantadas contra a Rússia, na verdade, prejudicaram as próprias economias europeias, e a ajuda para a Ucrânia retira recursos que poderiam ser utilizados para atenuar a crise econômica. O aumento do preço dos combustíveis está diretamente ligado às sanções, assim como a baixa nas mercadorias ucranianas. Os protestos do setor agrícola também não são os únicos a abater os governos europeus. Nem o imperialismo europeu é o único a sofrer com a crise, que aparece claramente nos EUA, onde a popularidade do governo Biden está em queda livre. Desde a ofensiva militar do Hamas, os governos dos EUA e dos países europeus sofrem com constantes manifestações dos trabalhadores em defesa dos palestinos, que já assumem um caráter claramente contra o regime imperialista e contra a opressão mundial perpetrada por ele.

Apesar disso, a extrema direita têm capitalizado mais a insatisfação popular do que a esquerda. Isso porque apesar das propostas draconianas como a expulsão de imigrantes e o aumento da repressão, ela apresenta uma perspectiva. A esquerda, ao contrário, afunda com o principal setor do imperialismo ao encampar campanhas como a identitária, que não aponta nenhuma solução viável para os problemas reais da população, seja a europeia, seja a mundial de conjunto.

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