Na Análise Internacional desta quinta-feira (18), transmitida pelo Diário Causa Operária e pelo canal Arte da Guerra, Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), e o comandante Robinson Farinazzo analisaram o memorando de entendimento firmado entre os Estados Unidos e o Irã. Para os participantes do programa, o acordo representa uma vitória decisiva da República Islâmica, com consequências profundas para a situação política mundial, em especial no Oriente Próximo.
A discussão começou pelo acordo entre o governo norte-americano e o governo iraniano, que prevê o desbloqueio de bilhões de dólares em ativos iranianos congelados, o pagamento de uma indenização de guerra ao Irã, o fim do bloqueio sobre o Estreito de Ormuz e a manutenção do controle iraniano sobre a região.
Farinazzo afirmou que a imprensa imperialista passou a reconhecer o tamanho da derrota norte-americana. Para ele, o acordo é uma capitulação clara dos Estados Unidos.
“Se a imprensa imperialista está falando isso, quem sou eu para chamá-los de mentirosos? Foi uma clara capitulação. Você entra numa guerra para pagar US$300 bilhões? O Irã é o claro vencedor disso. Não há dúvidas a respeito disso”, afirmou o comandante.
Segundo Farinazzo, um dos sinais da nova situação é a retomada da exportação de petróleo iraniano. Ele citou o caso do petroleiro Adrian Darya 1, que, segundo afirmou, já saiu em direção à Ásia após a suspensão do bloqueio norte-americano. Para ele, a guerra mostrou que os números favoráveis aos Estados Unidos e a “Israel” não foram suficientes para garantir uma vitória militar.
“Quando começou essa guerra, eu falei o seguinte: os números depõem contra o Irã, porque o Estado de ‘Israel’ tem uma força maior. Mas número nunca ganhou guerra. A capacidade tecnológica e militar do Irã tinha que valer. Essa é a verdade”, disse.
O comandante também afirmou que o presidente norte-americano, Donald Trump, enfrenta uma crise interna após o resultado da guerra. Segundo ele, setores do governo norte-americano estão divididos diante da derrota, enquanto a prioridade da Casa Branca passa a ser salvar as eleições legislativas de meio de mandato.
Rui Costa Pimenta foi na mesma linha. Para o presidente nacional do PCO, o acordo “chama até para uma comemoração”, pois expressa uma vitória espetacular do Irã. Segundo ele, a única concessão iraniana foi o compromisso de não produzir armas atômicas, o que, na avaliação do dirigente, não altera substancialmente a correlação de forças.
“A única concessão que o Irã fez na mesa de negociação foi se comprometer a não ter armas atômicas, o que na realidade não significa muita coisa. O resto todo é uma capitulação total do imperialismo”, disse Rui.
Para Pimenta, o problema central agora são as consequências mundiais da derrota norte-americana. Ele destacou que o imperialismo mostrou uma debilidade muito grande e que outros países, como Rússia e China, devem estudar cuidadosamente os acontecimentos.
- “É muito importante, é uma reviravolta na situação política mundial, da maior importância. Não há como minimizar o que aconteceu aí. Eu acho que o mais importante é a situação ali no Oriente Médio. Porque aqui nós temos uma inversão no padrão político. Se os Estados Unidos não conseguem enfrentar o Irã, eu acho que nem ‘Israel’. O Irã acaba de se transformar na principal potência militar da região”, afirmou.
Rui ressaltou, contudo, que o imperialismo não aceitará passivamente a nova situação. Segundo ele, os Estados Unidos e seus aliados tentarão se reorganizar para reagir, mas terão de avaliar se possuem meios concretos para romper a posição iraniana no Estreito de Ormuz.
A situação de “Israel” também foi debatida. Farinazzo afirmou que o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netaniahu, cometeu o maior erro de sua carreira ao entrar na guerra contra o Irã. Segundo o comandante, Netaniahu era um estrategista razoável, apesar de ser um carniceiro, mas calculou mal a situação.
“Me surpreende esse erro do Netaniahu, que, na minha opinião, foi o maior erro da carreira dele. O Netaniahu é um carniceiro, é um imperialista, tudo que você pode pensar de ruim, mas ele era um estrategista razoável até agora. Ele cometeu um erro enorme”, afirmou.
Para Farinazzo, “Israel” ainda pode manter escaramuças no Líbano por algum tempo, mas está diante de um impasse muito grande. Segundo ele, a força demonstrada pelo Irã modificou todo o jogo político no Oriente Próximo.
“O Irã desponta como uma grande potência do Oriente Médio. É a grande potência, ninguém tem dúvida a respeito disso. A capacidade de mísseis e drones do Irã é invejável. Revolucionou a guerra moderna”, afirmou.
O programa também tratou da situação da Ucrânia após a cúpula do G7. Farinazzo afirmou que a situação militar ucraniana no campo de batalha é “bastante difícil”. Segundo ele, o governo ucraniano aposta em ataques contra a infraestrutura econômica da Rússia para tentar jogar a população contra o governo de Vladimir Putin.
“A situação da Ucrânia no campo de batalha é horrível. A imprensa tenta vender uma outra situação, mas não é a realidade. A Ucrânia está perdendo a guerra no campo de batalha. Isso é verdade. Isso é inegável”, disse.
O comandante afirmou, no entanto, que a Rússia não pode se apoiar apenas nas vitórias militares no terreno. Para ele, se o governo russo não mudar sua abordagem, pode enfrentar problemas políticos internos. “Você pode vencer todas as batalhas e acabar perdendo a guerra”, alertou.
Rui Costa Pimenta avaliou que o apoio à Ucrânia na reunião do G7 foi mais uma formalidade do que uma decisão concreta. Para ele, Trump não parece disposto a adotar uma política mais agressiva em relação à Ucrânia neste momento. Sobre “Israel”, Rui afirmou que a situação de Netaniahu ficou grave, embora ainda não esteja claro se a oposição israelense tem força para derrotá-lo nas eleições.
A discussão voltou então para a crise da indústria militar norte-americana. Farinazzo afirmou que as estimativas sobre a reposição de armamentos usados pelos Estados Unidos e por “Israel” são muito piores do que se imagina. Segundo ele, para recompor os estoques consumidos, o prazo mínimo mencionado por especialistas é 2030.
“A indústria norte-americana de defesa foi financeirizada. O contribuinte não está pagando pelo custo de 100 mísseis. Ele já pagou pelo custo, na verdade, o dinheiro que ele está pagando pagaria uns 500 mísseis. Esse excedente vai para Wall Street, para diretores, para subornos no Pentágono, campanhas eleitorais etc. É a indústria mais corrupta do mundo”, afirmou.
Segundo Farinazzo, a guerra revelou a fragilidade logística e industrial dos Estados Unidos. Ele destacou ainda que a China restringe o fornecimento de minerais estratégicos usados em mísseis e sistemas eletrônicos, o que pode tornar ainda mais difícil a reposição dos estoques.
“O Irã mostrou ao mundo o que é a máquina americana: ela é corrupta, ineficiente, pequena em alguns aspectos, disfuncional. É uma grande utopia que foi vendida não só ao contribuinte americano, mas à opinião pública do resto do mundo. E agora apareceu a verdade”, afirmou.
Rui Costa Pimenta explicou a crise da indústria militar norte-americana como parte da decadência capitalista. Segundo ele, a transferência de boa parte da produção industrial dos Estados Unidos para a China, em busca de custos mais baixos, comprometeu também a capacidade militar do imperialismo.
“A decadência do sistema capitalista implica na decadência da máquina de guerra norte-americana também, imperialista em geral. O imperialismo utiliza recursos muito tecnológicos, muito sofisticados tecnologicamente, e que são cada vez mais caros. Essas empresas de tecnologia e armas vivem parasitariamente do Estado norte-americano”, disse.
Na sequência, o programa respondeu a uma pergunta sobre se o acordo entre Estados Unidos e Irã será cumprido ou se é apenas uma forma de ganhar tempo. Farinazzo avaliou que Trump deve tentar evitar novas aventuras militares até as eleições legislativas de meio de mandato. No entanto, afirmou que o imperialismo pode voltar à carga depois, inclusive por meio de tentativas de desestabilização interna no Irã.
Rui concordou que uma crise interna pode ser estimulada pelo imperialismo, mas destacou que o problema fundamental continua sendo militar: a capacidade ou não dos Estados Unidos de romper o controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz.
“Sem isso daí não tem condição. Precisaria fazer uma operação militar gigantesca para fazer com que o Irã abaixasse a cabeça. É muito difícil. Eu acho que os estrategistas do imperialismo vão sentar lá e analisar o problema, assim como os iranianos vão também reforçar sua posição no Estreito de Ormuz, com certeza”, afirmou.
O papel dos Emirados Árabes Unidos também foi discutido. Rui avaliou que a movimentação do imperialismo em direção aos Emirados tem como objetivo central furar o bloqueio do estreito e encontrar uma nova base de apoio no Golfo Pérsico, diante da fragilidade de “Israel” e das bases norte-americanas na região.
“Os Emirados poderiam servir como uma cobertura política para bases norte-americanas e israelenses ali no Golfo Pérsico. Precisam ter condição de policiar o Golfo Pérsico. Agora, os Emirados perto do Irã não são nada. O Irã tem plenas condições de varrê-los do mapa”, afirmou.
O programa também abordou a crise política na Europa. Sobre a Alemanha, Rui analisou o crescimento do partido A Esquerda e comparou sua função à de uma sublegenda da social-democracia alemã. Para ele, o partido de Sarah Wagenknecht é a formação que expressa, ainda que de maneira limitada, uma oposição ao regime político alemão.
“O Die Linke é um partido de esquerda que faz parte do regime político. Ele é uma espécie de sublegenda da social-democracia alemã. Não é um partido de esquerda que se opõe ao regime político. O partido que se opõe ao regime político, ainda que não tenha tanta clareza política, é o partido da Sarah Wagenknecht”, afirmou.
Rui também afirmou que a repressão contra a extrema direita na Alemanha passa a se transformar, em vários países europeus, em uma ofensiva contra setores da esquerda que rompem parcialmente com o regime. Ele citou os casos de Jeremy Corbyn, na Inglaterra; Jean-Luc Mélenchon, na França; e Sarah Wagenknecht, na Alemanha.
Na Inglaterra, segundo Rui, o Partido Verde cumpre uma função parecida com a do Die Linke na Alemanha. Ele afirmou que os partidos verdes, em geral, funcionam como sublegendas da social-democracia, usados para canalizar votos que se deslocam dos partidos tradicionais.
A crise boliviana também foi debatida. O governo norte-americano enviou um pacote de US$20 milhões para supostamente combater o narcoterrorismo no momento em que o governo boliviano associa as manifestações ao narcoterrorismo. Para Rui, a medida é transparente.
“É um pretexto para mandar dinheiro para a repressão na Bolívia. A Bolívia colocou a política neoliberal no impasse total. Então está todo mundo tentando ver se consegue desarmar a bomba. Porque o governo pode cair”, afirmou.
Rui avaliou que a repressão existe, mas ainda não foi usada em grau máximo, o que mostra o medo da burguesia de enfrentar diretamente o movimento operário e camponês. Sobre a possibilidade de setores da Central Operária Boliviana (COB) negociarem com o governo, Rui afirmou que esses dirigentes podem se chocar com a própria base.
“Essa tendência de setores da COB de negociar é um problema, porque eu não acho que eles tenham autoridade política para suspender o movimento. Pelo contrário, eu acho que, se eles se aventurarem a fazer um acordo em nome do movimento que o movimento não seja favorável, eles é que vão se dar mal”, disse.
Por fim, o programa tratou do Peru. Rui afirmou que o candidato da esquerda entrou na disputa de maneira capituladora, pois só passou a denunciar irregularidades depois de ver a vitória escapar.
“O candidato da esquerda já entrou nessa disputa capitulando, porque ele estava ganhando, mas era evidente que essa votação ia ser revertida. Ao invés de denunciar o que estava acontecendo, o que ele está denunciando agora, ele ficou lá na expectativa de que ia ganhar e não ganhou”, afirmou.





