No dia 4 de fevereiro, ocorreram eleições em El Salvador, ocasião em que o presidente Nayib Bukele foi reeleito para o seu segundo mandato.
Estando no cargo desde 1º de junho de 2019, Bukele, com o apoio do imperialismo, fez do regime político salvadorenho uma ditadura fascista, o que se deu com a justificativa de combater o crime organizado, em especial o narcotráfico, para aumentar a segurança pública do povo de El Salvador.
À luz da reeleição de Bukele, toda a imprensa imperialista – e aquela que está a seu serviço nos países oprimidos – noticiou a vitória defendendo a ditadura fascista de Bukele.
Começando pela imprensa brasileira, que está a serviço dos monopólios imperialista, o jornal golpista Folha de São Paulo publicou matéria, no dia 5, com o título Triunfo Truculento, tendo por subtítulo Presidente de El Salvador é reeleito com ações em segurança que minam liberdades.
A matéria inicia dizendo que “El Salvador é o exemplo mais atual de como altos índices de criminalidade e violência podem abalar a normalidade democrática”. Prossegue citando dados da violência urbana no ano de 2019, quando Bukele assumiu a presidência:
“A partir do final dos anos 1990, teve início uma escalada de disputas sangrentas entre facções criminosas. Em 2015, 106 pessoas foram mortas a cada 100 mil habitantes em El Salvador —no Brasil, que tem altas taxas de homicídio, foram 25,7 por 100 mil.
Quando Bukele assumiu o poder, em 2019, eram cerca de 40 por 100 mil […]”
E o tanto que esses índices caíram durante o primeiro mandato do presidente salvadorenho, algo que estaria fazendo a sociedade se sentir mais segura:
“[…] em 2022, o número caiu para 7,8; no ano passado, apenas 2,4. Esses dados mais recentes são questionados pela sociedade civil, mas fato é que 9 em cada 10 salvadorenhos dizem se sentir seguros, segundo pesquisa da Universidade Centro-Americana.”
Logo em seguida, a Folha faz então suas ressalvas, com uma aparente condenação da ditadura fascista de Bukele, dizendo que é um Estado de exceção, que solapa direitos civis:
“Para atingir tais resultados, entretanto, Bukele instaurou em 2022 um estado de exceção —aprovado pelo Legislativo, controlado por seu partido— que vem sendo prorrogado desde então.
O instrumento solapa direitos civis ao restringir a liberdade de reunião, a inviolabilidade de correspondências e comunicações, e autorizar prisões sem ordem judicial. El Salvador é o país que mais encarcera no mundo como proporção da população (2,2% dos adultos).”
Contudo, o que poderia parecer uma condenação do regime fascista de Bukele, é, na realidade, um apoio disfarçado. Afinal, vale lembrar que a restrição aos direitos democráticos e a política de encarceramento em massa é apoiada pela Folha quando é feita pela direita tradicional brasileira, em especial pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e seu ministro Alexandre de Moraes.
Assim, a ressalva que o jornal golpista faz em relação à ditadura fascista de Bukele é apenas o fato de o ditador ser uma pessoa da extrema direita, que tende a ser mais difícil de controlar e cujas medidas excessivas podem resultar em uma reação do povo que pode sair do controle do imperialismo. Nesse sentido, a golpista Folha finaliza sua matéria com o seguinte alerta:
“A popularidade e o triunfo eleitoral de Bukele sem dúvida alimentarão a influência de suas estratégias no debate político da América Latina, onde a criminalidade disseminada desafia as autoridades. Trata-se de um perigo.”
Em outras palavras, é melhor que a ditadura seja velada, e sob o controle da direita tradicional.
Continuando com a imprensa brasileira, editorial do Estadão publicado nesse dia 7 segue a mesma fórmula. Com o título Tentações salvadorenhas e subtítulo A repressão ao crime de Bukele está sendo conduzida sob um falso dilema entre segurança e liberdade, o jornal capacho do imperialismo diz que Bukele é um produto do desespero dos salvadorenhos, que seriam reféns do crime, da falta de segurança pública:
“Corroborando os índices de aprovação de 80% a 90% do presidente de El Salvador, Nayib Bukele, as urnas devem lhe conferir um segundo mandato com a mesma proporção de votos.”
“A popularidade de Bukele reflete o desespero dos salvadorenhos. A percepção é de que estavam sequestrados pelo crime organizado e que Bukele os libertou.”
Utiliza essa justificativa como gancho para fazer uma cínica e falsa condenação da suspensão das liberdades democráticas, o jornal diz:
“Mas essa trajetória foi construída como uma resposta a um dilema perigosamente falso entre a segurança e as liberdades civis e políticas, como se a única solução para a primeira fosse sacrificar as últimas.”
Contudo, também é uma condenação falsa, pois o Estadão sempre defendeu os ataques aos direitos democráticos do povo brasileiro, seja quando defendeu a Ditadura Militar de 1964, seja com a defesa do Golpe de 2016, seja com a defesa de Alexandre de Moraes e sua atual cruzada antidemocrática.
A razão de sua reprimenda fica clara nos seguintes parágrafos. O Estadão basicamente mostra a tradicional posição do imperialismo em relação à extrema direita: o medo de que ela escape de seu controle:
“[…] o combate ao crime serviu de pretexto para eliminar freios e contrapesos. Bukele tem distribuído generosos benefícios às forças de segurança para garantir sua lealdade, intimidado opositores com elas, aparelhado o Judiciário e o Ministério Público e manipulado a legislação eleitoral. Sua reeleição, vetada pela Constituição, só foi possível com uma manobra casuística dos juízes instalados por ele na Suprema Corte.
Após a terapia de choque, um líder republicano aproveitaria a pacificação e sua popularidade para construir as condições para que um Estado de Direito que só existia de jure passasse a existir de facto. Isso começaria por garantir um julgamento justo aos encarcerados. Mas nada indica que Bukele buscará isso.”
Mas não é nenhuma condenação da ditadura fascista de Bukele. Pelo contrário, o Estadão defende que a ditadura seja feita por meio de um “líder republicano” que defenda o “Estado de Direito”. No Brasil, poderia muito bem ser um Alexandre de Moraes ou um Flávio Dino, justamente os principais políticos responsáveis por avançar o fechamento do regime, sob a justificativa do combate ao crime – vale sempre lembrar do regime ditatorial que vem sendo criado no Brasil, a pretexto de defender o “Estado Democrático de Direito”.
O Estadão finaliza sua matéria deixando claro o que deve ser feito: a burguesia precisa criar sua ditadura velada, de forma controlada, para não ter que recorrer à extrema direita, a qual seria muito difícil de controlar, tornando o regime político instável:
“Para os políticos que respeitam o Estado de Direito há uma advertência: é preciso levar a criminalidade a sério, sob o risco de serem atropelados por demagogos autoritários. Os salvadorenhos deveriam despertar para os perigos de sua barganha. Nenhum combate à criminalidade é sustentável sem o fortalecimento do Estado de Direito.”
Naturalmente, nenhum órgão de imprensa poderia expressar melhor a posição do imperialismo do que um jornal imperialista. Nesse sentido, vale finalizar citando matéria que o britânico The Economist publicou no dia 5 de fevereiro, fazendo uma defesa apaixonada de Bukele.
Já no terceiro parágrafo, o imperialismo britânico defende que a reeleição de Bukele não foi inconstitucional, chamando de “fanáticos defensores do Estado de Direito” aqueles que defendem o contrário.
O restante da matéria se dedica a elogiar a ditadura fascista de Bukele, sempre buscando justificar suas medidas repressivas, enquanto que todas as posições contrárias são desqualificadas como vindas de “críticos” ao regime. Vejamos, primeiramente, algumas justificativas:
“O líder imaculadamente penteado e vestido com jeans é popular em grande parte graças à sua repressão ao crime. Antes de ele assumir o cargo em 2019, os salvadorenhos viviam aterrorizados por gangsters, que extorquiam dinheiro de empresas locais impunemente e travavam guerras territoriais mortais entre si. Bukele primeiro tentou negociar com as gangues e depois mudou para uma abordagem mano dura (punho de ferro). Ele deixou a polícia prender qualquer pessoa suspeita de ter ligações com gangues […] Com tantos gangsters atrás das grades ou escondidos, bairros anteriormente perigosos tornaram-se muito mais seguros.”
Agora, vejamos como o The Economist expõe as posições contrárias:
“Os críticos preocupam-se com o apetite de Bukele pelo poder e o desprezo pelos freios e contrapesos.”
“A transparência e a responsabilização são desanimadoras sob o governo de Bukele, acusam os críticos.”
O apoio do imperialismo fica ainda mais claro quando na matéria é exposta qual é próximo problema a ser resolvido por Bukele, isto é a questão econômica. Uma vez que o “crime organizado” foi combatido, e o problema da “segurança pública” foi resolvido, isto é, uma vez que uma ditadura fascista foi instaurada, o caminho está livre para que o governo Bukele ponha em prática a política neoliberal do imperialismo, em toda sua extensão, para saquear completamente a riqueza produzida pelo povo de El Salvador. Nesse sentido, o The Economist cita o próprio vice-presidente:
“O que ele fará com um segundo mandato? Félix Ulloa, vice-presidente do Sr. Bukele, diz que agora que a administração ‘limpou a casa’ do crime, o foco estará na educação, saúde e infra-estruturas.”
Cita ainda, mais especificamente, uma avaliação feita pelo banco imperialista JPMorgan sobre a guerra de Bukele contra o crime organizado ter aumentado as chances de penetração do capital imperialista. Menciona, ainda, a possibilidade de empréstimo por parte do Fundo Monetário Internacional (FMI):
“Os salvadorenhos veem agora a economia como o maior problema do país, de acordo com uma pesquisa realizada em janeiro pela Universidade da América Central (UAC), em San Salvador. Algumas pessoas perguntam-se como é que Bukele pagará todos os seus planos, desde o encarceramento em massa e maiores forças de segurança até escolas e infra-estruturas. O banco JPMorgan avalia que uma melhor segurança pública aumentou a taxa potencial de crescimento anual do PIB de El Salvador de 2% para 3%, o que ajudaria. Bukele pode garantir um acordo muito comentado com o Fundo Monetário Internacional, cujos funcionários atenuaram as críticas ao seu envolvimento com o bitcoin.”
Resumindo, o imperialismo não tem problema algum com que o povo seja alvo de uma ditadura fascista e de sua repressão brutal, desde que ela sirva para implantar a política neoliberal. O único problema é deixar a ditadura nas mãos de políticos difíceis de serem controlados. Qualquer preocupação que o imperialismo tenha com a ditadura de Bukele é nesse sentido. Por isto, preferem uma ditadura velada e a encargo da direita tradicional. Mas se tiver de ser uma ditadura fascista aberta, a encargo da extrema direita, não será problema para o imperialismo.



