Índios da etnia guarani-caioá retomaram uma área da Fazenda Limoeiro, no Mato Grosso do Sul, na madrugada de quarta-feira (17), para pressionar a conclusão da demarcação da área Iguatemipeguá II. A retomada ocorreu no território tradicional Tapycora Corá, sobreposto à fazenda, e foi seguida por relatos de deslocamento de batalhões da Polícia Militar para realizar despejo ainda no mesmo dia.
A nova ocupação ocorreu depois de uma retirada forçada feita em 26 de abril, quando batalhões da Polícia Militar expulsaram famílias da mesma área e prenderam seis guarani-caioá, entre eles duas mulheres e um menor. A retomada de quarta-feira foi apresentada por lideranças como reação à paralisação do processo de demarcação e às condições de confinamento enfrentadas por famílias que vivem em reservas reduzidas, acampamentos e barracos de lona.
Na tarde de quarta-feira, os guarani-caioá relataram a chegada de mais de dez viaturas à estrada. Segundo relatos dos índios, houve correria, bombas e tiros, com as famílias sendo empurradas em direção à aldeia Limão Verde. Também foram mencionadas possíveis prisões e a ausência de informações consolidadas sobre feridos.
Agentes da Fundação Nacional dos Povos Índios (Funai) confirmaram a presença da Força Nacional de Segurança Pública (FNSP), que tentava intermediar uma saída negociada entre os índios e a Polícia Militar. A polícia estadual, porém, teria recusado a negociação.
A Fazenda Limoeiro está sobreposta ao território tradicional Tapycora Corá, dentro da área Iguatemipeguá II. O Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação (RCID), previsto pela Portaria 790 da Funai, está em elaboração desde 2008. A Reserva Limão Verde, criada por decreto estadual em 1928 com 2 mil hectares, também fica inserida nessa área. Hoje, os guarani-caioá ocupam apenas 668 hectares da reserva, pois fazendas avançaram sobre parte do território reservado.
A demora na demarcação é tratada pelas lideranças como elemento central do conflito. A área Iguatemipeguá II integra um Compromisso de Ajustamento de Conduta, firmado em fevereiro de 2007 entre o Ministério Público Federal e a Funai, como resposta à morosidade administrativa, à violência na região e à situação humanitária vivida por famílias em acampamentos à beira de rodovias.
No ano anterior, outras duas retomadas ocorreram na mesma área: Curussu Central e Xurite Ambá. A nova ação, portanto, dá sequência a um movimento mais amplo de retorno aos territórios tradicionais. Lideranças afirmam que a permanência em áreas reduzidas tem provocado fome, falta de água e adoecimento pela exposição a agrotóxicos, enquanto a conclusão do procedimento administrativo se arrasta há quase duas décadas.
Enquanto a esquerda pequeno-burguesa fica tentado impor que o correto é falar indígena em vez de índio, o Estado e sua polícia avançam e agridem para favorecer os latifundiários.


