Valéria Guerra

Jornalista (UMESP), historiadora, atriz com DRT-RJ, escritora, colunista do 247, PCO, e do meu site (https://guerraluz.prosaeverso.net/); mestre em Intervenção Psicológica no Desenvolvimento e na Educação; professora do Estado do RJ na cadeira de biologia, poetisa e ativista contra a desigualdade no Brasil e no mundo.

A retórica malsã no mundo

Retórica do poder nos camarotes da ignorância

Os camarotes de arrogância continuam sendo planejados pelas esferas de poder executivo, legislativo e judiciário...

A filosofia como busca incessante do conhecimento sempre visou discutir questões morais e éticas, dentro de um universo recheado de injustiças sociais, desde que o primeiro “ser pensante” iniciou sua jornada exploratória sobre o solo planetário.

A filosofia, que é uma ciência visionária, e colabora efetivamente com a historiografia, se posiciona sempre no centro dos debates, com sua retórica poderosa em termos de esclarecimento factual. Por exemplo, veja o caso da assinatura (governo Lula 2003) de uma lei sancionada em 09 de janeiro de 2003, que passou a ser uma chama acesa e orientadora de mentalidades, ainda arraigadas a um status quo neoliberal, escravocrata e altamente excludente. No trecho anterior tratamos da lei 10.639 que obriga os estabelecimentos de ensino fundamental e médio, das redes públicas e particulares a ensinar a História do povo negro, da África. Isso é absoluto para abrir os olhos do alunado de todas as esferas da pirâmide social.

A exploração do povo negro já sofreu historiografias enfeitadas de mentira. E isso nasce da fábrica de persuasão da má retórica nossa de cada dia…aquela hedionda retórica que continua matando.

Criticar e comentar no âmbito da comunicação são formas de desinformação? E será que – em mundo onde as antigas “fake news” foram digitalizadas pelas ondas da web – estamos dando vez a retórica nefasta que faz viver e faz morrer?

A fábrica de persuasão foi aberta há muitos séculos, e fez o filósofo Aristóteles escrever “A Retórica”, talvez pelo fato de que por ser um aprendiz do aprendiz do filósofo Sócrates, que aparentemente nada deixou escrito, ele inspirado em Platão, quisesse versar sobre a contraparte da dialética.

O discurso persuasivo está presente do cume à base da pirâmide social. E especialmente na categoria dos políticos institucionais: ela tem um efeito recorrente moldado no sofismo; como exemplo solicito aos leitores que leiam a entrevista que o governador de São Paulo forneceu ontem à Jovem Pan, ele fala das providências tomadas em relação a catástrofe das chuvas em São Paulo. Na próxima semana publicarei artigo que versará mais profundamente sobre o texto e o contexto de tal entrevista. Aguardem, pois estou trabalhando (preciosamente) na confecção textual.

Os camarotes de arrogância continuam sendo planejados pelas esferas de poder executivo, legislativo e judiciário, leiamos o fragmento a seguir:

“Por 10 votos a 1, os ministros do Supremo Tribunal Federal decidiram que é constitucional a Justiça determinar a apreensão da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e do passaporte de endividados inadimplentes.

A decisão foi tomada em sessão no dia 9 de fevereiro.

O plenário analisou uma ação do PT que contestava esse tipo de medida coercitiva contra endividados. Outras punições que o STF entendeu que também podem ser aplicadas são proibir a participação da pessoa em concursos públicos e em licitações com o poder público.

Essas sanções já estão previstas no Código de Processo Civil, como uma forma de obrigar a quitação das dívidas”.

A inadimplência nasce da persuasão negativa dos poderosos que sobrevivem do trabalho servil das massas que (de forma incauta) e em função de sua deficiência cognitiva programada recebem ínfimos salários, e se endividam, permitindo aos parasitas do sistema desigual e combinado que criem e recriem leis draconianas, que os esmagam.

Fica muito fácil ser tirano sob a capa de legislador, jurista ou presidente das repúblicas, que se travestem com o manto da democracia, e que, no entanto, fazem do povo: apenas eleitores. As criaturas estão bebendo na oratória de “influencers” milionários que constroem mansões e viajam a torto e a direito, através de subutilizadas retóricas, nada linguísticas: “dancinhas idiotas” e letras musicais massificadoras de alienados sofredores, ou seja, o mercado soltou no ar um aroma hipnotizador de brasileiros sem esperança, e sem autoestima.

A tragédia anunciada é lugar-comum para o povo: na festa popular do carnaval de 2023, novas desgraças inundaram sob forma de enchentes o litoral paulista, ceifando vidas. E mais uma vez lá do alto dos camarotes da arrogância, alguém pergunta e responde ao mesmo tempo: Quem morreu? Ah foi gente pobre…

O que importa mesmo é que a retórica maléfica convença a todos os seus escravos, de que o Brasil não deu certo, e então as pessoas se sentirão cada vez mais culpadas de seus destinos inabilidosos; com o ciclo da retórica que enfeitiça mentes e corações dos eleitores, dos alunos, dos trabalhadores … que pensam que estão escolhendo o caminho da felicidade, ao dar um cheque em branco (voto) , aos seus piores algozes…

Quando o diretor da Escola pública persegue o professor criativo, lúcido e combativo, aquele docente que luta por igualdade, dentro e fora da sala de aula, ele está demonstrando o quanto há uma pitada de oligarquia, de monarquia, e de aristocracia no caldeirão da democracia; democracia que parece funcionar como apenas um verbete da retórica nacional.

#ValReiterjornalismohistórico  

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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