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Identidade Brasileira

Onde está o Brasil brasileiro?

O necessário resgate da alma brasileira


A indiscutível hegemonia brasileira em Copas do Mundo, que nos caracteriza como país do futebol – único e inimitável – foi construída entre 1958 e 1970, quando o Brasil ganhou 3 de 4 Copas e se tornou o primeiro tricampeão. Não mais um tricampeão como outros que vieram depois, mas um que tinha Pelé, Garrincha e outros imortais universais, que goleou o rival em duas finais, uma delas na casa dele (1958) e outra sendo ele concorrente direto do tri (1970). O Brasil era absoluto, não tinha pra ninguém. O que o Brasil fez no futebol equivale ao que Alexandre Magno fez geopoliticamente na Eurásia.

De 1970 para cá, e já se vão 52 anos, o Brasil tem menos Copas que Argentina e Alemanha, e chegou a menos finais que esses dois países e a França. Para piorar, parece que estamos numa descendente, pois o jejum que vivemos desde 2002 é mais grave que o que vivemos entre 1970 e 1994. Naquele intervalo, o Brasil chegou ao pódio em 78 e maravilhou o mundo em 82, doze anos após o tri. Depois de 2002, não chegamos ao pódio em momento algum e, doze anos depois do título, em 2014, melhor nem comentar.

Se o Brasil ainda é o país do futebol, se somos automaticamente favoritos em TODAS as Copas que disputamos apenas por sermos o Brasil, devemos à geração de 1958-1970. Sem ela, o Brasil seria mais um país, ou seja, não seria o Brasil. O Brasil sobrou tanto naquela época que formou um estoque inesgotável para o futuro, uma estrutura ainda hoje não igualada. Quem tem menos de 60 anos – a maioria da população – vive o país do futebol não exatamente pelo que viu acontecer mas pelo que antecedeu e que permanece vivo. O tri da Itália e Alemanha não diz nada a eles hoje, o tri brasileiro permanece vivo e faz pesar a canarinho.

Por que, então, o peso da canarinho não se reflete, nos últimos tempos, em bons resultados? O imponderável parece a explicação mais convincente: o desengonçado desvio do Marquinhos nesse ano, a meia do Roberto Carlos em 2006, o frango do Júlio César em 2010, a bola na trave em 2018, o “apagão” de 2014… De fato, a sorte e o azar, no futebol como na vida em geral (e quem disse que o futebol não faz parte da vida em geral?), ocupam papel fundamental. Desvios milimétricos movem, erguem ou derrubam Everestes inteiros.

Os sucessivos golpes de azar, contudo, não me parecem fortuitos, mas a manifestação aparente de algo bem mais mais sério, uma profunda crise espiritual brasileira, uma desorientação e um aviltamento sem precedentes na nossa história e que se manifesta em todos os aspectos sociais. Na esteira da rápida e alucinante modernização das últimas décadas, o Brasil perdeu a magia e o encanto, perdeu a própria alma, e quem perde a alma perde tudo, pois quem não sabe o que é jamais saberá defender o que tem. Quem se aliena de si próprio não é capaz de moldar a história a seu favor, mas será moldado pelos demais, e a preponderância do azar é a consequência dessa passividade.

Vemos isso em todos os cantos, e não é de hoje. Cadê a nossa música, a nossa literatura, o nosso teatro, a nossa arquitetura, as nossas artes plásticas? Cadê o nosso futebol? A respeito do futebol particularmente, foi bastante simbólico que a marca da Seleção de 2022 tenha sido o pombo, animal sujo e ordinário, da mesma categoria do rato. Em 2014, o mascote da Copa brasileira foi o “Fuleco”, em em 2018, o “canarinho pistola”. Pelé era rei, Garrincha era anjo, todos sambavam com a bola nos pés, não eram pombos nem fulecos nem ficavam “pistola” como corretor de bolsa em dia normal. Como um país alegre de reis e de anjos se tornou um país triste de pombos e fulecos? A ostentação do bife dourado, praticadas por todas as seleções, ofendeu muitos, mas a ostentação às avessas do pombismo foi bem aceita por todo mundo. O Neymar ser rico num meio onde a ordem de grandeza do dinheiro não é e nem pode ser a mesma do magistério (alguém acha que o Messi e o Mbappé ganham salários de professor?) ultraja os defensores dos professores, mas a demagogia de considerar a vulgaridade e a apologia ao crime, hostil a qualquer cultivo e elevação, é exaltada como a “voz do povo”. O mesmo “povo” que há poucas décadas, mesmo sendo menos alfabetizado e escolarizado, produzia e consumia artigos culturais de muito mais valor, de Pelé a Cartola. Como pode isso? Como vamos construir algo grandioso com tamanho rebaixamento espiritual, que se avoluma década após década nesse século?

Não acho que o problema brasileiro de hoje seja técnico, econômico ou o que seja. No futebol, nosso time era de longe o mais habilidoso de toda a Copa, e recursos não faltavam. No Brasil em geral, a mesma coisa. Temos tudo, mas nos falta o essencial: ser. Ser brasileiro. Ser o melhor de nós mesmos. Quando o Brasil é brasileiro, coloca o mundo a seus pés, como colocou no tricampeonato. Quando não é, se torna mais um, e a mediocridade, que é virtude para países menores, para nós, gigantes pela própria natureza, é a doença que nos abate e nos derrota.

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