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Liberdade de expressão

Filmes de Godard seriam cancelados pelos identitários hoje em dia

A esquerda, não faz tanto tempo, defendia a liberade de expressão. Hoje, completamente domesticada pelo moralismo identitário, se tornou autoritária e punitista


Morreu recentemente o diretor de cinema Jean-Luc Godard, por meio de um suicídio assistido. Ele foi responsável por revolucionar a 7ª arte. Foi um grande artista, abordou a artificialidade do cinema – com seus cortes bruscos e “quebras da quarta parede” –, tendo produzido grandes obras como “Acossado”, “O demônio das 11 horas”, “Uma mulher é uma mulher”, “Filme Socialismo” e “Tudo vai bem”.

Logo após sua morte, surgiram diversas matérias na imprensa burguesa atacando o cineasta por um suposto “desprezo a mulheres”, “machismo”, por ter uma obra “eurocentrada”, entre outras baboseiras identitárias. Matérias essas do mais baixo tom, que tentam substituir a crítica à genial obra de Godard por uma crítica pessoal ao autor.

E tais críticas pessoais a Godard são baseadas puramente num moralismo rasteiro, típico da direita. Tudo vira tema de discussão: quantas mulheres ele teve, a forma como ele supostamente as tratava, as idades delas, a forma como ele filmava suas esposas nos filmes… tudo é discutido, menos a obra em si.

Se os esquerdistas da pequena-burguesia querem fazer tábula rasa da história da humanidade, porque tal história não é moralmente aceitável para esses senhores, se atacam, hoje em dia, o cineasta que revolucionou o cinema porque ele não segue o código de conduta do pequeno-burguês, então é preciso dizer que eles podem encher o peito para falar que sua política é idêntica à política… da Igreja Católica e do José Sarney.

Isso mesmo. Em 1986, o filme Je Vous Salue Marie de Godard sofreu fortes críticas da Igreja Católica, que pressionou o governo José Sarney para censurar o filme. Na época, havia acabado há pouco tempo a ditadura militar, o Brasil ainda vivia sob o governo de um presidente não eleito, os militares seguiam controlando todo o Estado na prática e nem mesmo a ultrarreacionária Constituição de 1988 havia sido promulgada. 

Nesse cenário, o governo Sarney seguiu a política da Igreja Católica e decidiu censurar o filme. No entanto, o DCE da PUC-SP já havia programado a exibição e, após uma assembleia geral, decidiu manter a exibição do filme apesar da proibição do regime de Sarney. No dia em que seria exibido o filme Je Vous Salue Marie, a polícia entrou na Universidade, apreendeu as fitas e prendeu o presidente do DCE – por ter tentado cometer o “crime” de exibir um filme!

Evidentemente, os estudantes se revoltaram e cercaram o carro da polícia, impedindo que eles levassem preso o presidente do DCE, que acabou sendo liberado, apesar de as fitas continuarem retidas. Mas que má atuação desses senhores! Hoje em dia, a esquerda pequeno-burguesa os repudia de todo modo. Para a “Nova Esquerda”, que baseia sua política na política do imperialismo, como o Godard era “machista, homofóbico, misógino, hollywoodifóbico, etc.”, o filme dele teria mesmo de ser censurado – visto que tal esquerda desceu ao nível de mera apologista das violações de direitos democráticos pelo Estado burguês. E ai dos estudantes que desafiaram as “instituições democráticas” e que decidiram transmitir o filme “machista”!

Evidentemente, isso apenas demonstra como a esquerda pequeno-burguesa se encontra numa decadência política total, assimilando cada vez mais a política da direita. A defesa da censura sempre foi política da direita, bem como o moralismo sempre foi típico da classe média – a qual essa esquerda é expressão –, principalmente da classe média mais reacionária, expressa na burocracia da Igreja Católica. 

Assim como a Igreja Católica e José Sarney censuraram Godard em 1986 com base num moralismo rasteiro, a esquerda pequeno-burguesa de hoje ataca o cineasta com base numa moral não menos rasteira. Assim como a Igreja Católica, a esquerda passou a defender a censura e a restrição dos direitos democráticos do povo; passou a defender o arbítrio por parte do Estado contra o povo, desde que sirva para defender as “instituições democráticas” ou para defender as “minorias”. Em suma, a esquerda pequeno-burguesa adotou a política que historicamente foi da direita – e segue sendo uma política da direita –, estando cada vez mais a reboque do imperialismo e dos inimigos dos trabalhadores. 

O moralismo identitário tornou a esquerda uma espécie de apologista da caça às bruxas realizada pelo Estado burguês. A defesa da liberdade de expressão passou a causar ojeriza no universitário que frequenta os círculos internos do PSOL – a política que a esquerda outrora defendia, que consta no programa dos bolcheviques, que é a Polônia de defender a liberdade de expressão, é deixada de lado como política da “Velha Esquerda”. A “Nova Esquerda”, estilo Gabriel Boric, é apologista número um do imperialismo e de suas forças repressivas. Ao invés da política marxista de se opor às restrições de direitos contra quaisquer que sejam as classes afetadas – expressa no livro Que Fazer?, de Lênin, por exemplo –, a “Nova Esquerda” adota a política de clamar ao Estado (ou seja, à burguesia) que censure qualquer um que infrinja seu código de conduta universalmente bom de respeito às minorias. 

Mas os marxistas devem rejeitar este tipo de análise passional e moral da sociedade. Esse tipo de “nova esquerda” é totalmente antimarxista, trata-se de uma esquerda que mantém relações políticas com o imperialismo e com os maiores inimigos do povo. Os marxistas sempre defenderam a liberdade de expressão absoluta.

Em relação ao Godard, sua obra deve ser analisada pelo que ela de fato é, pela revolução que ela causou na forma de enxergar o cinema, pela crítica que ele fazia ao cinema como indústria, não por nenhum tipo de característica moral que o cineasta possa ou não ter – isso é completamente irrelevante para a apreciação da obra. Para além da opinião pessoal sobre a obra – ou, melhor, para além das considerações sobre o importantíssimo papel que ele desempenhou no curso da evolução do cinema –, é preciso defender a irrestrita liberdade de expressão. Ou seja, é preciso se opor à censura contra a arte – independentemente do conteúdo da obra, mesmo que não se tratasse de uma obra revolucionária ou de uma obra positiva.

Como está expresso no Manifesto da FIARI, de Trótski e André Breton: toda licença em arte! Se hoje os identitários se juntariam à Igreja Católica para pedir a censura contra o Godard com base em aspectos morais – como fazem com o grande escritor brasileiro Monteiro Lobato –, os marxistas devem se opor a isso. Primeiro, porque toda arte, independentemente de seu conteúdo (seja ele progressista ou reacionário), tem de ter o direito de ser produzida e veiculada, sem a ingerência do Estado, sem qualquer tipo de censura. Depois, porque a arte não pode ser julgada com base nos caracteres pessoais de seu autor, mas deve ser julgada enquanto arte como tal.

Godard morreu aos 91 anos, tendo prestado grandes contribuições à cultura de nosso tempo. Apenas pessoas completamente ignorantes, que estejam empenhadas em destruir a cultura e fazer tábula rasa de todo desenvolvimento humano – ou seja, pessoas extremamente reacionárias – podem se prestar ao papel de escrever matérias tais quais as que foram veiculadas na imprensa burguesa, atacando o cineasta por esse supostamente ser “machista”. É preciso denunciar esta investida contra a cultura, bem como é preciso denunciar a censura promovida pelos resquícios da ditadura militar e pelas instituições burguesas contra o cineasta na década de 1980. É preciso ser contra a censura, seja ela contra quem quer que seja dirigida – inclusive fora da arte, porque defender a censura equivale a defender o aparato repressivo do Estado burguês, que é inimigo da classe operária. Enfim, em resumo: Toda licença em arte!


COTV

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