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José Álvaro Cardoso

Graduado pela Universidade Federal de Santa Catarina, mestre em Economia Rural pela Universidade Federal da Paraíba e Doutor em Ciências Humanas pela UFSC. Trabalha no DIEESE.

Á beira do colapso

Crise energética em tempos adversos

Situação econômica na Europa caminha rapidamente para o desastre devido à dificuldade de se fornecer energia barata para o desenvolvimento industrial.

usina nuclear

Na semana passada, em nome da segurança energética, a Alemanha anunciou que manterá duas de suas três usinas nucleares funcionando até pelo menos abril do ano que vem. Após o desastre na usina nuclear de Fukushima, em 2011, a Alemanha tinha anunciado que desativaria todas as suas centrais nucleares. Com o fechamento do gasoduto Nord Stream 1, decorrência da guerra e das sanções econômicas contra a Rússia, o país vem tentando ampliar as alternativas de obtenção de energia, fundamental para enfrentar o inverno que se aproxima. A Alemanha tinha encerrado o funcionamento de três reatores nucleares em 2021, e a finalização dos três restantes deveria significar o fim também do uso desse tipo de energia no país, decisão tomada no governo de Angela Merkel.

Antes do início da guerra na Ucrânia, a Rússia supria 49% do gás consumido pela Alemanha, fundamental para as casas e para o funcionamento da maior economia e da indústria mais robusta da Europa. O consumo do produto para a Europa, como um todo, era suprido em cerca de 40% pela Rússia. Com a guerra, a Rússia reduziu as exportações para o continente ao mínimo, como uma forma de retaliar as sanções econômicas. Recentemente o país tinha interrompido o fornecimento via Nord Stream para a Alemanha.

O ataque terrorista contra os gasodutos Nord Stream 1 e 2, em 23 de setembro, agravou um problema que já era muito crítico. Curiosamente, ao mesmo tempo em que os dirigentes dos países da Europa tentavam incriminar a Rússia com o atentado, o ex-ministro polonês das Relações Exteriores, Radoslaw Sikorski, postou no Twitter uma mensagem autoexplicativa – ao lado de uma foto do local onde aconteceram as explosões, escreveu: “Obrigado, EUA”. “Uma operação especial de manutenção”. A Rússia solicitou em seguida ao atentado uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU, para discutir o assunto.

A Alemanha vem tentando minimizar os prejuízos de uma dependência estrutural de energia da Rússia, que ameaça fazer o país regressar ao Paleolítico. Em setembro último, o país nacionalizou uma empresa importadora de gás (Uniper), decisão acelerada pelo anúncio da estatal russa de energia Gazprom, no início daquele mês, de interrupção do fornecimento total de gás à Alemanha por tempo indeterminado. A situação da Alemanha é a mais extrema, mas a dependência da Europa do fornecimento de gás russo é geral, chegando no caso de alguns países à 100%. Com a aproximação do inverno no hemisfério norte, quando em muitos países as temperaturas caem frequentemente abaixo de zero, a situação vai ficar muito feia. Segundo informações correntes, os estoques de gás estão com 10% ou 20% da capacidade máxima nos países do continente.

Junto com a crise energética vêm a inflação e o déficit público. Em países como Itália e Alemanha, as famílias já estão pagando 400% a mais nas contas de luz e gás, em relação a um ano. No Reino Unido, os preços desses produtos dobraram em 12 meses. Os governos vêm tentando compensar os aumentos com redução de impostos ou contenção de preços essenciais, o que tem levado a déficits públicos crescentes. A Alemanha, país tido como rigoroso em termos fiscais, deve fechar este ano com um elevado déficit público, decorrência da concessão de subsídios ao setor.

Setores intensivos em energia (químicos, fertilizantes, aço, alumínio etc.) já se encontravam em crise antes da guerra, quando aumentaram as tensões na região com elevação dos preços dos insumos. O preço do gás na Europa atualmente é o triplo dos verificados nos EUA, o que implica perdas de fatias do mercado internacional. Esse processo está levando a déficits comerciais crescentes nas economias da Europa. Em função da inflação e de problemas na cadeia de suprimentos em geral, a previsão dos analistas é a de que a Europa enfrente uma recessão no final de 2022, que tende a se prolongar para o ano que vem.

O problema da Europa é brutal: precisa resolver uma grave crise de energia, tendo dependência estrutural de importações de gás rapidamente e em meio a uma crise econômica. Não se consegue produzir materiais químicos, ou hidrogênio para geração de aço sem grandes quantidades de energia. Por outro lado, as chamadas “energias limpas”, como as badaladas eólica e solar, estão muito longe de suprirem a necessidade, apesar dos esforços realizados nos últimos anos. O gás natural, além de fundamental de energia, é também matéria-prima essencial na produção industrial. Nos últimos 12 meses, a Europa já perdeu cerca de 50% da produção de aço e de alumínio, o que revela a gravidade da crise. A situação tem levado as companhias a fechar unidades, aumentar importações e transferir-se para outras regiões. As empresas do setor de produção de aço têm tentado repassar o aumento da energia para os preços, mas essa estratégia tem limites, em meio a um processo de baixo crescimento, que tende a virar recessão no curto prazo.

Não há produção de fertilizantes sem gás natural. Com o atentado, e a possível escalada da guerra, os países terão que priorizar o fornecimento de gás para residências e serviços essenciais, o que impactará diretamente a capacidade de produção industrial. O risco de uma desindustrialização acelerada na Europa, que em parte já está ocorrendo, não deve ser ignorado.

Essa crise europeia, que também é do mundo, como um todo, é muito rica em ensinamentos e deveria nos manter muito atentos. A Alemanha voltou a produzir carvão destruindo uma floresta que possuía árvores com até 12 mil anos de existência. O produto é o carvão marrom, chamado de lignite, que é um dos combustíveis fósseis mais poluentes que se conhece. Ao mesmo tempo em que se desenrola uma crise de energia com esse nível de dramaticidade, e de forma interligada, crescem as pressões para uma gestão internacional da Amazônia.


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